RAIMUNDO JOSÉ Airemoraes Soares

(1933). Quarto e Atual Ocupante da Cadeira nº 20 da APL. 

(São Pedro do Piauí-PI, 30-03-1933). Sacerdote e professor emérito. Curso de Filosofia no Seminário Maior de Olinda, Pernambuco. Diplomado em Filosofia pela Academia Romana de Santo Tomás

em Roma, Itália. Bacharel e licenciado (mestrado) em Sagrada Escritura, pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália. Bacharel e licenciado (mestrado) em Teologia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Curso de Extensão em Didática do Ensino Superior, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e curso de Doutorado (PhD) em Teologia Pastoral, pela Universidade de Montreal, Canadá. Encargos e atividades exercidas: membro do Conselho Estadual de Educação do Estado; coordenador Pastoral da Arquidiocese de Teresina; assessor nacional da CNBB para as áreas de Leigos, Juventude e Família; diretor do Instituto Nacional da Pastoral (RJ e BR); subsecretário-geral da CNBB para assuntos de Pastoral; assessor de Assembleias Gerais do Episcopado Latino-americano em Mar dei Plata, Argentina e Medelin, Colômbia; assessor dos Bispos do Brasil (CNBB) nos Sínodos Gerais do Episcopado Universal, em Roma; participante de reuniões e encontros internacionais sobre a Terceira Idade na Itália, na Colômbia e no Brasil; participante de Assembleias da Federação das Universidades Católicas do Mundo e da Federação dos Institutos de Filosofia e Teologia Católicas do Mundo, em Porto Alegre, Brasil e Washington; professor da Faculdade Católica de Filosofia do Piauí; professor de Filosofia da Natureza em cursos de Pós- graduação na UFPI; diretor da Faculdade Católica de Filosofia do Piauí. Exerce atualmente as funções de diretor de Estudos do Seminário Maior Sagrado Coração de Jesus, em Teresina. Membro do Conselho Presbiteral da Arquidiocese de Teresina. Vigário Episcopal de Teresina para Associações e Movimentos. Assistente Nacional do Instituto Secular “Caritas Christi”. Pertence a Academia Piauiense de Letras cadeira nº 20.

HERCULANO MORAES da Silva Filho

(1945). Terceiro e Atual Ocupante da Cadeira nº 18 da APL. 

Poeta, ensaísta, cronista, contista, romancista e crítico literário. Figura das mais destacadas e atuantes nos meios intelectuais do Estado. Jornalista dos mais brilhantes. Nasceu em São Raimundo Nonato, Estado do Piauí (1945). Ocupou importantes cargos na administração piauiense, entre os quais destacamos:

Secretário de Estado da Comunicação Social do Governo do Piauí, Diretor da Casa Anísio Brito e do Theatro 4 de Setembro. Atualmente, é Assessor Especial do Gabinete do Governador. Vereadora Câmara Municipal de Teresina no período de 1971-1973. O Escritor. Autor de preciosas obras publicadas. É um dos intelectuais mais lidos no Estado. Bibliografia. Poeta, é autor dos seguintes livros: Murmúrios ao Vento, 1965; Vozes Sem Eco, 1967; Meus Poemas Teus, 1968; Território Bendito, 1973; Seca, Enchente, Solidão, 1977; Pregão, 1978; Legendas, 1995; Oferendas, 1996. Romancista, escreveu: Fronteira de Liberdade. Ensaísta, é autor da Nova Literatura Piauiense, 1975; Visão Histórica da Literatura Piauiense, quatro edições; Fascículos de Literatura Piauiense, em que estuda: volume 1: Da Costa e Silva, volume 2: Assis Brasil; volume 3: Álvaro Pacheco; volume 4. Fontes Ibiapina; volume 5: O. G. Rego de Carvalho, Da Costa e Silva e Assis Brasil. É membro da Academia Piauiense de Letras, da Academia de Letras do Vale do Longá e da Academia de Letras do Médio Parnaíba. Fundador e primeiro presidente do Círculo Literário. Membro da União Brasileira de Escritores (seccional do Piauí e seccional de São Paulo). “Príncipe dos Poetas do Piauí” (1969). Homem de Ação (1982). Intelectual do Ano – prêmio Cabeça-de-Cuia (1987). Honrarias. Cidadão honorário das cidades: Teresina, Barras e Campo Maior. Comendador da Ordem do Mérito Renascença do Piauí. Medalha do Mérito Visconde da Parnaíba. Cidadão da Cultura Popular (Salvador-Bahia).

Vejamos, a seguir, duas poesias de muita sensibilidade e opulenta criatividade de Herculano Moraes:

CANTIGAS DE MINHA TERRA

Um dia nós exportamos Milhares de marruás
O gado manso tangido pelos sertões De vastos carnaubais
No lombilho do jumento Ou sobre os trilhos de aço
A cera de carnaúba Desenvolvia o progresso
Bendito tempo de glória… Dentro dos sacos de açúcar
O coco de babaçu teve parte na história…
Ciclo bendito da riqueza brasileira
Velho tempo de fartura contado por meus avós
– Pra nossos netos, Socorro, Que lembrança teremos nós?

(Território Bendito, 1973)

GRAVURA

Não escreverei teu nome na areia.
O vento varre as palavras
e elas nunca se perpetuarão.

Escrever teu nome no tronco de uma árvore?
eis o enigma desta vã filosofia.
Até que a morte nos separe pelo assassínio da ecologia.
Escrever teu nome nos granitos, no cimento, nas nuvens,
nos muros rabiscados,  talvez não seja a forma exata de te imortalizar.
Escreverei, teu nome sim
na folha indecifrável da memória, pois só assim este amor
sem preconceitos e limites ficará para a história.

(Oferendas, 1996).

Comentários 

Do lirismo sentimental dos primeiros livros ao regionalismo poético de Seca, Enchente, Solidão, Herculano Moraes se realiza melhor quando testemunha, quer através da linguagem ou da temática, a realidade interiorana. Esta é uma constante dos poetas piauienses, inclusive do melhor deles, na fase nova que é H. Dobal. O próprio Herculano Moraes, referindo- se àquele livro e a Pregão, diz que a sua poesia “é terra, sangue, força de uma região subdesenvolvida, mas sempre tangida pela esperança”. (Assis Brasil)

Fonet: MORAES, Herculano. Visão Histórica da Literatura Piauiense. 6ª ed. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2018, Coleção Centenário nº 71.

João Paulo dos REIS VELLOSO

(1931). Terceiro e Atual Ocupante da Cadeira nº 17 da APL. 

Economista e professor. Nasceu em Parnaíba, em 1931. Formado pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Rio de Janeiro; pós- graduado pelo Conselho Nacional de Economia (1961); Master em Economia pela Universidade de Yale (EUA), recebendo o diploma Ph.D e granjeando o primeiro lugar; membro da Academia Piauiense de Letras, cadeira nº 17. Cargos e funções exercidas: professor de Pós-graduação da Fundação Getúlio Vargas. Participante do projeto da criação do Instituto Nacional do Cinema e do Museu de Arte Moderna. Assessoria do Ministro Roberto Campos, tendo, juntamente com Mário Henrique Simonsen, elaborado o projeto de criação do IPEA – Instituto de Planejamento Econômico em 1969. Ministro-chefe da Secretaria de Planejamento da Presidência da República.

Transcrevemos, a seguir, um trecho da obra Brasil: a solução positiva.

CAPITULO I

O CRESCIMENTO COMO FENÔMENO HUMANO

Antes de considerar a questão da sociedade que estamos construindo, é conveniente começar por colocação mais limitada, sobre a natureza do processo de crescimento.

O crescimento econômico, tomado, para simplificação da análise, apenas como o aumento continuado da renda per capita, não depende de fatores predominantemente econômicos.

Trata-se de um fenômeno humano por excelência ligado a atitudes e instituições sociais.

Pode-se considerá-lo um processo eminentemente cultural – no sentido sociológico – e político.

Político, porque é importante a vontade política da nação, de mobilizar-se para o esforço, as dificuldades, os desajustamentos, o sentido de realização, os benefícios inerentes ao desenvolvimento.

Cultural, porque diz respeito, principalmente, ao modo de ser da sociedade. Cultura, aqui, “é o conjunto das tradições em que naturalmente uma sociedade vive, e que se modifica com a história mas permanece sempre fiel a certos elementos originais”.

Evidentemente, no crescimento, os fatores climáticos e os recursos naturais têm importância, no sentido de que podem facilitar ou dificultar a expansão econômica, abrir ou limitar oportunidades de investimento.

Não é à toa que os países de clima temperado se têm desenvolvido com facilidade relativamente maior, e não há forma mais simples de desenvolver uma economia primitiva do que pela exploração de seus recursos naturais. Mas mesmo esse fato óbvio deve ser qualificado.

Um estudo do Banco Mundial sobre Os Trópicos e o Desenvolvimento Econômico chegou a duas conclusões principais.

Primeiro, é inegável que as condições vigentes nos trópicos colocam limitações ao crescimento agrícola, pecuário e mineral dos países ali situados. Tais dificuldades não podem ser superadas por uma simples transferência da tecnologia existente nos países ricos, de zonas temperadas. Faz-se mister, por isso, adaptar e desenvolver tecnologia, para atender às condições especiais dos trópicos, naqueles setores.

Segundo, é possível que quando, eventualmente, as limitações dos trópicos forem superadas, tais países subdesenvolvidos passem a contar com vantagens na sua agropecuária, representadas pela luz solar, o calor e a quase infinita variedade da vida tropical.

No processo de crescimento, também são relevantes os fatores nitidamente econômicos, como a dimensão do mercado e a acumulação de capital físico, resultante da taxa de investimento.

Sem embargo, os fatores humanos são capazes de superar os demais condicionantes do processo.

O Japão mostrou ser possível construir uma potência econômica praticamente sem recursos naturais, e quase sem espaço geográfico. A dimensão do mercado e a acumulação de capital, em grande medida, podem ser condicionadas pelos fatores humanos.

E quais são esses fatores humanos?

Talvez a melhor análise do problema ainda seja a de Arthur Lewis, quando considera que as causas próximas do crescimento econômico são o engajamento na atividade econômica (ou seja, em fazer coisas com mais eficiência, obtendo maior resultado com certo uso de fatores produtivos, ou o mesmo resultado com menor uso dos fatores), a aplicação do conhecimento à solução de problemas econômicos (a inovação tecnológica), e o aumento do estoque de capital físico (investimento). Indo às causas das causas, ou seja, indagando quais os elementos que determinam o maior ou menor engajamento dos grupos sociais na atividade econômica, na exploração de oportunidades econômicas, Lewis destaca as atitudes sociais, originárias de crenças e escalas de valores, e as instituições sociais.

Como observa: “O crescimento econômico depende de atitudes em relação ao trabalho, à riqueza, à poupança, a ter filhos, à inovação, a coisas novas, à aventura, e assim por diante; e todas essas atitudes provêm de fontes profundas da mente humana”.

Entre as atitudes sociais que condicionam o comportamento econômico estão o desejo de possuir bens, ou seja, a atitude em relação ao bem-estar material; e o custo psicológico e físico do esforço para obter tal aumento de renda real.

Entre as instituições sociais benéficas à atividade econômica incluem-se: a recompensa pelo esforço feito, em termos pecuniários e sociais; a existência de estruturas favorecendo a especialização de atividades e a comercialização; e o grau de liberdade econômica, para a empresa e o indivíduo.

São, pois, fatores desse tipo que devem ser analisados, se desejamos entender as experiências de maior ou menor sucesso de diferentes nações, em diferentes épocas.

Note-se que tais tendências, favoráveis ou desfavoráveis, em maior ou menor escala, existem em todos os países, consoante a sua cultura. E estão sujeitas a evolução movida por fatores políticos, econômicos, sociais, históricos, espirituais – internos e internacionais. Da relativa preponderância de uns e outros fatores vai depender a aceleração ou desaceleração do processo de crescimento, em cada País, a médio e a longo prazo”.

Fonte: REIS VELLOSO, João Paulo. A Solidão do Corredor de Longa Distância: Brasil – Novo Modelo de Desenvolvimento. 2ª ed. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2018, Coleção Centenário nº 95.

EUSTÁCHIO PORTELLA Nunes Filho

(1929). Sétimo e Atual Ocupante da Cadeira nº 16 da APL. 

Médico, professor, conferencista e escritor, nascido em Valença do Piauí (1929). Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil (1953). Médico efetivo do Serviço Nacional de Doenças Mentais, aprovado em concurso público em 1º lugar. Diretor do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Foi professor titular de Psiquiatria, Psicologia e Psicopatologia na Faculdade de Ciências Médicas da UERJ. Professor titular de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFRJ. Integrou bancas examinadoras para ingresso de professores na área de psiquiatria nas principais universidades do país, entre as quais USP e Unicamp. Membro titular da Academia Nacional de Medicina. Presidiu a Federação das Associações Psicanalíticas da América Latina (1988-1990). Presidiu o 18º Congresso Latino Americano de Psicanálise com a participação de mais de mil congressistas. Pertence à Academia Piauiense de Letras. Bibliografia. Obsessão e Delírio: neurose e psicose, 1956; Fundamentos da Psiquiatria, 1963; Lobotomia em Pacientes Esquizofrênicos, 1954; Técnicos do Sono Prolongado em Psiquiatria, 1954; O Sentido do Tempo no Homem, 1955; Investigação com a Dietilamina do Ácido Lisérgico, 1955; A Direção Fenomenológica em Psiquiatria, 1955; Motivação da Escolha da Carreira Médica, 1959; Sobre Delírios, 1974; Dinâmica de Um Caso de Neurose Obsessiva, 1973; Conceito de Psiquiatria, 1973; O Médico; Seu Paciente e a Doença, 1975, e Problemas Psicológicos na Patologia Respiratória, 1974.

Fragmentos do seu discurso por ocasião de sua posse na Academia Piauiense de Letras:

“[…] A todos deve estar ocorrendo a pergunta: o que faz um psicanalista numa Academia de Letras? Em 1936, quando Freud estava sendo homenageado pelos 80 anos, foi escolhido para saudá-lo não um psiquiatra ou um psicanalista e sim Thomas Mann, o grande escritor da Montanha Mágica. No discurso que fez reconhece a influência da filosofia e da psicanálise em sua obra exatamente pelas raízes comuns que as fazem convergir para os mitos “tão congênito, diz Mann, é para a psicanálise o interesse mítico como congênito é para a atividade literária o interesse psicológico. A insistência da psicanálise no retorno à infância da alma individual. É, também, já a insistência a um retorno à infância do ser humano aos primitivos e aos mitos”. E acrescenta: “o mito vivido é a ideia épica de minha novela (José e seus irmãos) e me dou conta de que a partir do momento em que Eu, enquanto narrador, dei o passo que leva do individual, burguês ao burguês típico, minha relação com a esfera psicanalítica entrou, por assim dizer, em seu estágio agudo”. O saber psicanalítico é algo que transforma o mundo, sentencia Thomas Mann.

A origem dessa sedução entre psicanálise e literatura já se encontra nos textos freudianos. Foi com os escritores que Freud fez o seu maior aprendizado. Muitas de suas instituições estão em Shakespeare que é citado em quase todas as suas obras. Aprendeu espanhol, para ler Cervantes no original. E chegou a fundar na adolescência uma Academia Castelhana com Silberstein, um amigo, na qual se apelidavam com os nomes de dois cães de um conto célebre do autor de Dom Quixote. É verdade que a psicanálise exerce, hoje, uma influência em toda a vida moderna. Na linguagem habitual do intelectual, da mídia, da dona de casa é frequente ouvir as palavras forjadas por Freud no desenvolvimento da psicanálise. Conceitos como repressão, complexo, sublimação, recalque, estão no vocabulário de todas as pessoas mesmo que nunca tenham lido Freud. Talvez tenha sido o grande ensaísta e biógrafo Richard Ellmann que tenha mostrado com a maior clareza a influência da psicanálise na vida em geral, quando diz: É difícil abrir a boca sem se notar a influência de Freud na linguagem. Conversamos despreocupadamente sobre as inclinações sexuais das crianças, sobre as rivalidades dos irmãos, sobre as dependências para com a mãe, sobre impulsos sadomasoquistas.

Ellmann acrescenta: “talvez a parcela da sociedade mais abalada com o advento de Freud tenha sido a comunidade literária”. No século XIX a literatura foi se acostumando cada vez mais a reivindicar autonomia, como esfera privilegiada e separada. Palavras como ARTE e ARTÍSTICO assumiram uma dignidade extraordinária. A psicanálise destruiu tais pretensões, de várias maneiras diferentes. Primeiro ao sustentar que todos nós, artistas e não artistas, estamos envolvidos na produção crônica de fantasias simbólicas, em sonhos ou divagações, num onirismo mais ou menos controlado. Sendo assim os artistas não formam uma elite e são muito parecidos com as outras pessoas. Por outro lado a psicanálise, disciplina nascente, retira da literatura antiga termos como édipo e narciso e, em certa medida, toma-os como antecipações, de modo que o emprego literário deles se torna mera ilustração de princípios mais amplos. De fato, a palavra édipo, hoje em dia, faz-nos pensar em Freud, não em Sófocles. Isso porque a psicanálise pretende uma antiguidade ainda maior: os édipos já existiam antes que Sófocles escrevesse sobre um deles. Por tudo isso, Freud continua sendo um modelo, ainda que indubitavelmente espinhoso.

Em verdade, a influência de Freud tem sido enorme e crescente em quase todas as artes. Na pintura, não apenas o movimento surrealista mas toda a fase moderna está marcada pela psicanálise. O teatro, hoje, tem nítido acento freudiano. Os grandes nomes do cinema, Bergman, Felini, Bunuel e tantos outros seriam inconcebíveis sem a valorização do mundo interno e dos sonhos como parte fundamental do humano.

Em 1895, Freud já registrava que seus relatos clínicos pareciam mais com novelas do que com antigas observações neurológicas que havia feito. Eram, entretanto, biografias especiais sem heróis nem vilões assim como sem a dominância do tempo físico subordinado agora ao tempo mais próprio do homem que, tal como num sonho, não distingue nem passado nem futuro. Tudo faz parte de um presente mais rico. O espaço também não é o geográfico. A praça Pedro II pode aparecer ao lado do Pão de Açúcar sem que isso inquiete ou espante porque este é o mundo mais global em que vivemos. Em Freud os sentimentos não são quimicamente puros e por isso as virtudes têm os seus vícios e os próprios defeitos, por vezes, assumem certa grandeza.

A paixão de Freud pela literatura teve início na juventude. Em sua correspondência dessa fase encontramos enorme interesse pela filosofia. Especialmente Feuerbach, Locke, Hume. Em Paris, à distância da noiva, consolava- se relendo Dom Quixote, os Trágicos Gregos, Rabelais, Molière, Lessing, Goethe, Schiller e, sobretudo, Shakespeare, sua maior admiração literária.

Em um pequeno e magistral ensaio de 1908, chamado “Escritores criativos e devaneio”, Freud lança as bases daquilo que se poderia chamar de “estética psicanalítica”. Inspirado, talvez, na “poética” de Aristóteles, mostra que há uma continuidade genética entre o brincar da criança, o devaneio de todos nós, os sonhos e a criação artística. Dentro dessa perspectiva poderíamos ver o texto literário como resultante da capacidade maior ou menor de mergulho nessa realidade mais profunda aliado ao poder de traduzi-la para os leitores, suscitando-lhes as emoções de que são capazes. Tanto o autor ao produzir seus trabalhos como os leitores, realizam, simbolicamente, desejos reprimidos tal como a criança o faz através dos seus jogos: “manipulando-se a realidade, cria-se uma outra cena” onde tudo pode acontecer. Passado, presente e futuro se misturam numa temporalidade sujeita apenas às manipulações do desejo. Isso compõe a famosa “sedução estética”.

A forma literária com toda sua beleza teria a mesma função sedutora do “prazer preliminar” erótico. Ao derrubar as barreiras da repressão, permite que se libere um prazer mais intenso e mais profundo.

Mesmo tendo se ocupado de outras formas de arte, era o escritor e sobretudo o poeta que Freud tinha em mente quando aludia a natureza da criação artística. Confessava uma certa inveja da facilidade com que os escritores atingiam intuições profundas sobre o homem, enquanto o psicanalista só conseguia resultado semelhante após penoso e demorado trabalho. Perguntava: Por que é que ainda hoje, depois de volver de tantos séculos ainda ficamos emocionados com a tragédia do Édipo Rei? Isso ocorre porque Sófocles atingiu uma verdade profunda e universal do ser humano.

Se Freud exerce tanta influência sobre a literatura, foi também enormemente influenciado pelos grandes escritores. Entre os seus precursores estão os trágicos Gregos, Shakespeare, Goethe, todos autores que relia com freqüência, e cita abundantemente em suas obras. Foi a partir dessas influências que empreendeu a tarefa de exame minucioso e exaustivo da vida de seus pacientes e da sua própria, decidindo a não esconder nada, mesmo os achados que lhe fossem mais difíceis.

Desse modo, consistiu sua grandeza que o faz consoante o corpo editorial da revista TIME um dos candidatos ao homem do milênio quando concorrerá com Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci, Shakespeare, Newton, Einstein e tantos outros de igual estatura.

Uma de suas frases prediletas e citadas era de Hamlet: “Se cada um de nós fosse tratado como merece, quem escaparia ao açoite?”. Essa consciência humilde dava a Freud uma grande tolerância e respeito para com todos os aspectos do humano. Não foi entretanto nenhum santo. Cometeu muitos erros, embora procurasse sempre a verdade. Habitualmente é mal compreendido, sobretudo pelos que o conhecem de segunda mão, em divulgações simplificadoras. Apesar de tudo isso, foi, indubitavelmente, um dos homens que marcam com maior forma o século em que vivemos.

Entre as descobertas de Freud está o interesse na investigação do passado para entender melhor o presente-futuro. Esse é o trabalho diário de todo analista. As influências, sobretudo as mais primitivas, exigem um exame exaustivo e demorado. Os ambientes de Valença e Teresina tatuaram de modo indelével minha infância e adolescência. As minhas raízes estão aqui. Para reforçar esses vínculos, postulei a Cadeira 16 que, para mim, tem um valor simbólico ainda maior, por razões fáceis de entender. Agradeço a generosidade dos acadêmicos que me permitiram atingir esse objetivo.

Como assina T. S. Eliot “Atingir um fim é atingir um começo”. O fim é o ponto de onde encetam a jornada.

Comentários 

Eustáquio Portela, com a força de sua inteligência e as gamas da sua cultura, vem dedicando-se, desenganadamente, à pesquisa e aos estudos da ciência médica, chegando a ser hoje um dos seus luminares. Especializou-se em psiquiatria, dedicando-se num trabalho de pesquisas percucientes a profundar-se os arcanos, visando minorizar o sofrimento dos que, perdida a razão, vivem um mundo diferente. Os seus limites científicos ultrapassaram as lindes nacionais. (Wilson Carvalho Gonçalves)

Fonte: Revista da Academia Piauiense de Letras (1992); e GONÇALVES, Wilson Carvalho, Grande Dicionário Histórico-Biográfico Piauiense. Teresina: Editora Júnior Ltda. 1997.

CID DE CASTRO Dias

(1942). Sexto e Atual Ocupante da Cadeira nº 15 da APL. 

Filho de Manoel da Silva Dias e Ester de Castro Dias, nasceu em 25-01-1942, na cidade de S. Raimundo Nonato (Piauí), tendo alí cursado o 1º grau no Ginásio Dom Inocêncio. Em Salvador (BA), cursou  o  2º  grau  escolar (antigo  científico). Engenheiro Civil, formado pela Universidade Federal do Ceará (1968).

Funcionário de carreira da Secretária de Obras do Piauí, hoje aposentado, onde exerceu os cargos de: Fiscal das Obras do Estádio Alberto Silva (Albertão) – Sub-Secretário de Obras em duas administrações – Diretor da Divisão de Conservação e Coordenador de Obras Especiais. Trabalhou na Empresa de Obras Públicas do estado do Piauí – EMOPPI, tendo desempenhado as funções de Gerente de Acompanhamento de Obras e Assessor Técnico-Econômico. Professor aposentado do IFPI, antigo CEFET. Ex-Secretario de Projetos Estruturantes da Prefeitura Municipal de Teresina. Ex-Diretor da PRODATER – Empresa Teresinense de Processamento de Dados (PMT). Agraciado com as medalhas Mérito Conselheiro Saraiva da Prefeitura de Teresina e Mérito Renascença do Governo do Estado do Piaui.

Membro da Academia Piauiense de Letras ocupando a cadeira nº 15, sendo sucessor de Deoclécio Dantas. E também é membro da Academia de Ciências do Piauí.

Escritor, autor dos livros: Os caminhos do rio Parnaiba, Piauí – obras que estruturntes, Piauí – das origens à nova Capital e Piauí – obras que desafiam.

ALTEVIR Soares de ALENCAR

(1934). Quinto e Atual Ocupante da Cadeira nº 14 da APL. 

(Alto Longá-PI, 26-3-1934). Professor, advogado, jornalista, poeta, cronista e improvisador. Teve participação muito intensa na imprensa dos Estados do Ceará, Pernambuco, Mato Grosso do Sul e Piauí. Curso Superior de Filosofia pura (5 anos) na Universidade do Brasil (RJ), e de Direito, na Universidade Católica de Mato Grosso (MT). Mestrado em Direito Penal na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O Escritor. Obras poéticas: Sonho e Realidade (1956); Eterno Crepúsculo (1961); Poemas da Solidão (1962); Dentro de Mim (1968); Êxtase (1973); Anda; Vem Cá, e o Livro de Sonetos. Professor de Língua Portuguesa e Literatura Luso-Brasileira na Moderna Associação Campo-grandense de Ensino (Campo Grande-MS) e lente de Direito Penal na Universidade Católica de Mato Grosso (MS). O Político. Foi prefeito de Nioaque e secretário de cultura do Mato Grosso do Sul (1983-1985). Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, ao Clube de Poesia de Recife e à Academia de Letras do Vale do Longá. Em junho de 2000, ingressou na Academia Piauiense de Letras.

HÁ UM POUCO DE DEUS

Cada nuvem que passa é um céu que vai descer Sobre o mundo interior das almas compassivas Vive o amor, esse amor que vem das coisas vivas E alimenta sorrindo a angústia de viver.

Súplicas, ais, queixumes, prantos, rogativas, Tudo ressumbra à voz do mundo a se mover. Desce o raio febril que dá existência ao ser, Como um sopro de paz nas emoções altivas.

O gemido da terra e o gemido das vagas… Quanta vez, a pensar, o homem se tortura Vendo plagas no chão, vendo no oceano plagas!

E maldade Infeliz que achata este universo? N’alma de cada poeta há no mundo de ternura, Há um pedaço de Deus dentro de cada verso!

Comentários 

Poeta, na mais completa acepção deste vocábulo. Altevir Alencar tem enriquecido a bibliografia específica brasileira com domínio e segurança invejáveis. Faz versos porque nasceu para isso. O resto é conversa. (Austregésilo de Athayde, Presidente da Academia Brasileira de Letras).

Fonte: GONÇALVES, Wilson Carvalho. Antologia dos Poetas Piauienses. Teresina: Halley, 2005.

Pedro da Silva Ribeiro

(1930). Quarto e Atual Ocupante da Cadeira nº 13 da APL. 

Nasceu em Guadalupe, 14-02-1930. Professor, romancista, contista e historiador. Lecionou nos mais importantes colégios de Teresina: Escola Normal Oficial “Antonino Freire e Colégio “Sagrado Coração de Jesus”. Foi diretor do colégio “Eurípides de Aguiar” (1960). Professor universitário, lecionando na Fundação Educacional do Distrito Federal. Alto funcionário do Tribunal de Contas da União. Bibliografia. Publicou o romance Vento Geral, 1982, e a obra Sol Poente, contos, 1985. Pertence à Academia Piauiense de Letras.

Comentários 

[…] Mas, sobretudo, existem as paixões que vâo construindo a vida, a malha fina com que um pequeno mundo se tece e se transformo, tudo isto é bem recontado e bem recriado por Pedro Ribeiro; que mistura lembrança e imaginação numa forma tâo viva e natural que põe em dúvida o seu gênero literário: será ficção ou memória? Será que temos de reescrever este livro e dar-lhe outro título: “Aventuras de Pedro Belas-Artes no Vale do Engano?”. (H. Dobai, sobre a obra Vento Geral)

Mas não há dúvida de que Vento Geral é um grande livro: é um mural de traço e de cores muito nítidos, que não esquecemos, pois com ele o nosso rio preguiçoso, que se compraz no seu curso, fica sendo uma água pesada na memória, um rio subterrâneo que cada vez mais se afunda no peito.

Fonte: RIBEIRO, Pedro da Silva. Vento Geral. 2. ed., 1996.
RIBEIRO, Pedro da Silva. A Divisa. Teresina: Academia Piauiense de Letras, EDUFPI, 2017, Coleção Centenário nº 60.

WILSON Carvalho GONÇALVES

(1923). Quinto e Atual Ocupante da Cadeira nº 12 da APL. Autor da obra. 

Professor e escritor. Nasceu a 21 de abril de 1923. Estudo primário no Grupo Escolar “Matias Olímpio”, de Barras do Marataoan. Curso secundário no Liceu Piauiense. Formado pela Faculdade de Farmácia do Rio de Janeiro. Cargos e funções exercidas: Secretário da Interventoria Federal do Piauí, nomeado por ato do Interventor federal de 1º-02-1943. Secretário particular do Interventor federal, nomeado em 25-06-1944. Secretário da Delegacia do Ministério da Fazenda. Chefe do CETREMFA-PI. Coordenador da ESAF- PI – Escola Superior de Administração Fazendária no Piauí. Conselheiro do CRIAF – Conselho Integrado da Administração Fazendária (MF). Membro do Conselho Regional de Farmácia do Piauí (três mandatos). Auditor Fiscal da Secretaria da Receita Federal. Cursos de formação e aperfeiçoamento. Curso de Comunicação e Audiovisual-Secretaria de Educação (RN). Instrutor do Imposto de Renda (NESAF-CE, 1978). Incentivos Fiscais-Sudene – Recife (1971). Desenvolvimento Organizacional (NI SAF – Porto Alegre, RS). Análise e Perspectiva de Treinamento a Distância – Rio de Janeiro Levantamentos de necessidades – Projeto ESAF – Florianópolis-SC. Política de Integração Fazendária – Brasília (DF). Administração de Treinamentos – ESAF – Governo Federal da Alemanha (1973), Executivos Fazendários – ESAF (SP). Aperfeiçoamento e Prática de Conversação em Inglês – Categoria Especial – Yázigí (1970-1973). Curso de Francês – Aliança Francesa (RJ). Técnicos de Arrecadação – NESAF – Manaus. Honrarias. Certificado e Medalha de reconhecimento pela colaboração ao programa Contribuinte do Futuro, expedido pela Secretaria da Receita Federal; diploma de Honra ao Mérito, conferido em Brasília pelo Conselho Federal de Farmácia; certificado e Medalha de Honra ao Mérito, conferido pela Escola Superior de Administração Fazendária, do Ministério da Fazenda; comenda do Mérito “Da Costa e Silva”, conferido pela União Brasileira de Escritores (PI) e a Comenda de Grão-Mestre da Ordem Estadual do Mérito Renascença do Piauí. Portador do “Prêmio Clio de História”, conferido pela Academia Paulistana de História do Estado de São Paulo (1998), com a apresentação do livro Grande Dicionário Histórico-Biográfico Piauiense. O Escritor. Obras publicadas: Os Homens que Governaram o Piauí, 1989; Teresina – Pesquisas Históricas, 1991; Dicionário Histórico-Biográfico Piauiense, 1ª e 2ª edições, editadas, respectivamente, em 1992 e 1993; Vultos da História de Barras, 1994; Roteiro Cronológico da História do Piauí, 1996; Grande Dicionário Histórico-Biográfico Piauiense, 1997, e Antologia da Academia Piauiense de Letras, 2000. Inédito: História Administrativa e Política do Piauí. Pertence à Academia Piauiense de Letras, cadeira nº 12, e à de Letras do Vale do Longá. Membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense.

Eis alguns dados biográficos de um dos maiores pintores do país:

LUCÍLIO ALBUQUERQUE

Entre os maiores nomes da pintura nacional, sobressai, como um dos mais brilhantes, o de Lucílio de Albuquerque, infelizmente pouco conhecido em seu estado natal, o Piauí, dado o silêncio em torno de sua personalidade de grande artista. Ele era uma vocação inata para as artes. Nasceu para exteriorizar na tela todo o sentimento que lhe ia n’alma, e o fez como só fazem os grandes mestres. E com que expressão! E com que delicadeza de tons soube fixar os tipos, os motivos e as paisagens, com aquela mesma vocação artística dos grandes pintores.

Nasceu em Barras do Marataoan, Estado do Piauí, a 09-05-1877, sendo seus pais o desembargador Alcebíades Dracon de Albuquerque Lima e dona Filomena Albuquerque. Saiu de sua terra natal com apenas sete anos de idade. Fez seus estudos primários em Pernambuco, logo em seguida se transferindo para São Paulo, onde passou a sua adolescência. Sendo seu pai magistrado, as condições do meio em que vivia o levariam à magistratura, segundo a tradição de seus familiares. Somente a força da vocação rompeu essa cadeia de influências, para fazê-lo artista. Assim o sentimento vocacional foi maior, dominou as influências do meio. Matriculou-se em 1896 na Escola Nacional de Belas-Artes. Concluído o curso em janeiro de 1906, obtendo o prêmio de viagem à Europa por cinco anos, com a composição Anchieta escrevendo poema à Virgem, seguiu para a França, matriculando- se na Universidade Sorbone, o mais importante centro cultural daquele país.

Em 1911 regressa de Paris, onde durante cinco anos estudou e absorveu as mais renovadoras correntes culturais da época, notadamente o Simbolismo e o Impressionismo, os quais introduziu no seu país.

Lucílio de Albuquerque era um artista eclético, não explorou apenas um gênero, mas se pode dizer que passou por todos, e, em todos, revelou toda força de sua sensibilidade e criatividade. O paisagismo, todavia, era o gênero de sua predileção, apresentando- se como uma temática renovadora. Era considerado na época o maior paisagista do país. Flamboyant, Flor de Regato e Paraíso Perdido são telas admiravelmente sentidas e criadas com muita sensibilidade. “Suas paisagens são pedaços vivos, nítidos de nossa terra. Não são cantinhos de vegetação banal de sinfonia verde e amarela. É a terra castigada pelas intempéries. É a terra que o sol queima e as enxurradas martirizam. É a terra forte, moça, cheia de seiva”. – Luís Pelotti crítico de arte. Excepcional como figurista. No Retrato de Georgina, uma homenagem a sua esposa, ele mostra uma sensibilidade de desenho e de cor que permite lugar garantido na evolução da história da plástica nacional. Os motivos religiosos são sentidos com muita intensidade em suas telas, entre as quais destacamos Glorificação de Anchieta e Bênção Divina (1925), precursora da Imagem de Cristo (RJ) no alto do Corcovado. A história pátria está perpetuada nos seus trabalhos, destacando-se Expedição à Laguna e As Amazonas.

O grande pintor brasileiro expõe os seus trabalhos nos mais importantes centros culturais do mundo, entre os quais destacamos: Na França – O quadro A La Campagne, em 1908; em Portugal – Ícaro, em 1916; na Bélgica – As Amazonas; em Berlim – Paraíso Restituído; na cidade Nova Iorque – Grande Circo; em Buenos Aires. Despertar do Ícaro, 1939, e na cidade de Turim (Itália) – Paraíso Restituído.

Além de grande mestre da pintura nacional, foi extraordinário e brilhante como professor, admirado e aplaudido pelos seus alunos, que lhe reconheciam, ao lado da proficiência magisterial, o desassombro cívico. Exerceu muita influência na mocidade, artistas, constituída por uma plêiade portentosa das últimas gerações, inclusive o nome consagrado de Cândido Portinari.

Pertenceu às seguintes instituições: professor e diretor da Escola Nacional de Belas-Artes, membro da Sociedade Propagadora das Belas-Artes, da Associação de Artistas Brasileiros e da Academia Fluminense de Letras.

Depois de uma vida dedicada à arte, o notável artista, um dos maiores nomes da pintura nacional, que foi Lucílio Albuquerque, faleceu no Rio de Janeiro, a 19 de abril de 1939, deixando uma obra imperecível, cheia de ternura e beleza.

A seguir um rápido exemplo de como Lucílio de Albuquerque era visto pela crítica:

“Lucílio Albuquerque é um artista sóbrio e completo. Em suas composições há pensamento. É um figurinista curioso e sintético, e as suas paisagens são todas muito espontâneas, muito seguras nos seus planos, muito arejadas nas suas largas perspectivas. Há na sua arte uma perfeita consciência dos valores; uma justa preocupação dos volumes, um arrojo da fatura mui liberto, que caminha sabiamente para a síntese”. (Menotti del Pichia)

Lucílio de Albuquerque apresenta-se como um renovador do tema da paisagem. A sua visão toda nova, a sua emoção todo individual, ele se afina em uma construção leal das belas épocas da pintura. A matéria é saborosa no judicioso emprego dos processos. Não é apenas o prestígio da luz – o verdadeiro impressionismo já deu bastante de si – pois Lucílio estabelece solidamente os planos de sua composição, as linhas limitando com segurança massas e volumes, dando- lhe ar, vida. E a fisionomia grave e adusta da terra, sua estrutura essencial.

Lucílio de Albuquerque é o artista nutrido de cultura clássica, imbuído ademais de grandeza e de estilo que procura interpretar a forma numa fatura forte, sincera, própria à sua sensação.

Nas suas paisagens as linhas estruturais ganham uma feição de acordo com o seu temperamento, são realizações emotivas de uma harmonia construtiva que lhe é peculiar, são um mundo de tons e cores capaz de alcançar a unidade complexa da própria vida pela força plástica do artista”. (Galabert de Simas)

Fonte: GONÇALVES, Wilson Carvalho. Vultos da História de Barras, 1994.

José RIBAMAR GARCIA

(1946). Quinto e Atual Ocupante da Cadeira nº 11 da APL. 

(Teresina-PI, 10-04-1946). Romancista, cronista, contista e jornalista. Os pais: Francisco de Assis Garcia e Bernarda F. de Sousa Bacharel em Direito pela Faculdade Nacional de Niterói. Conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB-RJ, em quatro mandatos. Pertence à Academia Piauiense de Letras. Participou do Concurso de Contos João Pinheiro, promovido pela Fundação Cultural do Piauí. Colaborou com as revistas Presença e Cadernos de Teresina. Bibliografia. Imagens da Cidade Verde, 1981, crônicas. “É um extraordinário conjunto de crônicas, de estilo leve, direto e objetivo que se constitui num verdadeiro documentário de Teresina”. Os Cavaleiros da Noite, 1984, contos. Livro em que o contista reuniu episódios engraçados, dramáticos, um tipo de gente que há muito não se vê, pequenos relatos passados com o autor, alguns dos quais teve conhecimento efetivo, outros dos quais ouviu falar. É livro carregado de piauiensidade. Pra onde vão os Ciganos? “Este livro não fala só de ciganos, fala do nosso povo e o que se passa com ele. Fala das inquietações que povoam o autor, que que não são tão diferentes das que nos incomodam, apenas Garcia sabe como administrar este grito, sabe como provocar-nos a pensar, sabe o momento exato do nos dizer para onde deveremos ir, independente dos ciganos.” Em Preto e Branco, a personalidade principal é um piauiense que saiu de Teresina e se tornou jornalista no Rio de Janeiro. É uma crônica que mostra o retrato, a história de quem não esmoreceu ante as adversidades, se deparou com nada na sua nova vida. Além da obra Das Paredes, crônicas, publicação que fala de um país que não aparece na mídia. Autor de quase uma centena de crônicas publicadas em periódicos da cidade do Rio de Janeiro. Tem alguns trabalhos jurídicos publicados em revistas especializadas.

Comentário 

Imagens da Cidade Verde – o livro de Garcia é um livro de amor, de ternura, de afeto. Um livro que recorda trechos de beleza espiritual de uma cidade que não sai de dentro de nós. É um livro que revive na gente instantes do passado, que a memória não pode esquecer. (A. Tito Filho)

Fonte: NETO, Adrião. Escritores Piauienses de Todos os Tempos.
GARCIA, José Ribamar. Entardecer e Em Preto e Branco. 2ª ed. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2018, Coleção Centenário nº 93.

José ELMAR de Melo CARVALHO

(1956). Quarto e Atual Ocupante da Cadeira nº 10 da APL. 

Nasceu em Campo Maior – PI a 09-04-1956. Juiz de Direito aposentado. Formado em Direito e em Administração de Empresas, ambos pela UFPI. Foi fiscal da extinta SUNAB. Filho de Miguel Arcângelo de Deus Carvalho e Rosália Maria de Mélo Carvalho. Casado com Fátima, com quem tem dois filhos: João Miguel e Elmara Cristina. Presidiu o Diretório Acadêmico 3 de Março, a União Brasileira de Escritores do Piauí (UBE/PI) e o Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Foi membro do Conselho Editorial da UFPI. Poeta, contista, cronista, romancista e ensaísta. Autor, entre outros, dos livros Cromos de Campo Maior (1990 e 1995), Noturno de Oeiras (1994), Rosa dos Ventos Gerais (3ª edição, 2016), Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental (2000), Parnaíba no Coração (2006), Lira dos Cinquentanos (2006), Noturno de Oeiras e outras evocações (2009), Bernardo de Carvalho – o Fundador de Bitorocara (2ª edição, 2016), Amar Amarante (2013), Retrato de minha mãe (2013), Confissões de um juiz (2014), Retrato de meu pai (2016) e Histórias de Évora (2017). Colaborador de vários jornais, revistas e sítios internéticos. Citado em vários livros e dicionários biográficos. Recebeu diversas honrarias, entre as quais a Comenda do Mérito Renascença do Piauí. Cidadão honorário de vários municípios. Membro de várias Academias de Letras, entre as quais a Piauiense, a Parnaibana, a do Vale do Longá, a Campomaiorense e a do Médio Parnaíba.

Contato:
elmar.carvalho@tjpi.jus.br
elmarcarvalho@uol.com.br
http://www.poetaelmar.blogspot.com

Capítulo I

O TRIÂNGULO ENCANTADO

Eram duas horas da madrugada quando Marcos Mendes Azevedo acordou, com sede. Dirigiu-se à cozinha, onde ficava a geladeira. No percurso, notou que o quarto das irmãs estava com a porta entreaberta e com a lâmpada elétrica ligada.

Retrocedeu um pouco, para melhor olhar. Viu, então, expostas na rede, as roliças e rijas coxas de Neuza, a empregada, entreabertas. Eram brancas, grossas, firmes, e deviam ser macias. Uma tenra, quase transparente e dourada penugem as recobria.

Imaginou que deveriam ser suaves e agradáveis ao tato, principalmente se tocadas com as pontas dos dedos. Desceu o olhar em direção aos pés, em que não viu nada de especial. As panturrilhas, contudo, eram proporcionais às coxas, roliças, rijas e torneadas com esmero.

Em seguida, com o coração em disparada, com medo de que Neuza ou alguma das irmãs acordasse, abriu a porta um pouco mais, para olhar o que estava acima das coxas; ou o encaixe destas, como gostava de dizer um seu amigo. E viu o que procurava, com tanta ansiedade e medo.

A calcinha branca e simples mal cobria o grande, altaneiro e vertiginoso vértice. O púbis castanho, sem dúvida bem rebaixado, ornava a borda da sumária peça íntima. Entreviu o sopé e parte da encosta dos carnudos e protuberantes grandes lábios. Marcos sentiu uma tontura, quase como se fosse desmaiar. Mesmo assim viu a depressão em que se fendia a genitália, como um pequenino regato, que parecia morder o vinco central da calcinha. Era um bem esculpido delta, desde o monte de Vênus até a curvatura em direção ao períneo.

Sua vontade de tocá-lo era enorme. Espalmar-lhe a mão, e tê-lo em sua concavidade. Parecia um animal, que tivesse vida própria e palpitasse. Fez um esforço muito grande para se conter. Sua timidez e natural retraimento tentavam conter o ímpeto de sua mal desabrochada adolescência. Foi então que a moça abriu os olhos. Marcos temeu gritos escandalosos, estridentes, e saiu em passos de felino para a cozinha. Ficou aliviado com o silêncio. Teve medo de que ela lhe viesse ao encontro, para exigir explicações. Mas isso também não aconteceu. Tampouco no dia seguinte ela denunciou o fato aos seus pais.

Sentiu que ela tivera a exata compreensão do que acontecera, e lhe perdoara, ou mesmo se sentira envaidecida daquela silenciosa, inerte e contida contemplação fortuita. Foi a primeira vez que vira uma mulher (quase) desnuda. Pela primeira vez enxergara de tão perto e com tanta nitidez uma cona aureolada gloriosamente pelos esquálidos e pálidos pelos pubianos. Foi o marco inicial e inesquecível de seu adolescer.

Como um símbolo incandescente ficou em sua memória para sempre aquele triângulo encantado, que jamais veria novamente. Como no poema de Manuel Bandeira, foi o seu alumbramento, a sua visão do paraíso na terra e da terra.

Comentários 

Mais conhecido como um respeitado poeta no seu Estado, o piauiense Elmar Carvalho não poderia ser considerado um estreante no gênero da prosa de ficção.

Há tempos tem escrito pequenos textos que se poderiam chamar de contos, narrativas regionais que misturam “realidade’ ficcional e imaginário popular e folclórico, adentrando-se até, em grau menor, em textos de cunho fantástico ou mágico que contribuem para um pitoresco painel dos costumes, hábitos da paisagem interiorana piauiense, de cidades do interior de seu estado natal. Lendo muitas deles, não me furto a fazer uma analogia com alguns textos narrativos de viés sobrenatural com algumas narrativas do escritor Bernardo Guimarães (1825-1884). Penso aqui no seu conto modelar que é “A dança dos ossos.” Extraído do livro Lendas e romances (1871).

Elmar Carvalho é um autor que há muito tempo venho lendo não só analisando-lhe a poesia que, – ninguém pode negar – é de ótima qualidade, tendo mesmo sido agraciado, pelo seu livro Rosa dos ventos Gerais (poesia reunida, 20002) com o importante prêmio “Ribeiro Couto” da União Brasileira de Escritores (UBE). Ademais, Elmar incursionou elegantemente pelo memorialismo e por algumas pesquisas de natureza histórica, pelo ensaio da pesquisa histórica, pela crítica literária, pela crônica.

Diria, em síntese, que o conjunto de textos em prosa que, até hoje, produziu já lhe garante um lugar definitivo entre os escritores mais prestigiados da literatura  piauiense contemporânea.” (Cunha e Silva Filho)

Fonte: CARVALHO, Elmar. História de Évora. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2017, Coleção Século XXI nº 15.
CARVALHO, Elmar. Rosa dos Ventos Gerais. 3ª ed. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2017, Coleção Centenário nº 61.