CELSO BARROS Coelho

(1922). Primeiro e Atual Ocupante da Cadeira nº 39 da APL. 

Professor, jurista, político e escritor, nascido em Pastos Bons, Estado do Maranhão, a 11-05-1922. Pais: Francisco Coelho de Sousa e Alcina Coelho. Fez humanidades no Seminário Menor de Teresina. Bacharelou-se em 1952 pela Faculdade de Direito do Piauí. Ingressou no corpo docente dessa Faculdade Federal como professor de Direito Civil. Em seguida, passou a professor titular dessa matéria na Universidade Federal do Piauí. Deputado estadual na legislatura de 1963-1967. Em 1964, teve seu mandato cassado pela Assembleia Legislativa, por imposição do regime militar implantado no País. Afastado da atividade política por dez anos, a ela retornou, em 1974, elegendo-se deputado federal (1975-1979). No pleito seguinte, 1978, foi ainda o candidato a deputado federal mais votado, mas não foi diplomado. Ocupou, novamente, a Câmara Federal no período de 1983-1987. Respaldado pela exuberante cultura jurídica e privilegiada inteligência, teve no parlamento nacional, uma atuação das mais significativas e marcantes, apresentando projetos de magnos interesses nacionais. O deputado Celso Barros era uma figura sempre em evidência, participando dos grandes debates de temas nacionais. No Congresso Nacional destacou-se como relator do Projeto do Código Civil Brasileiro, na parte do Direito das Sucessões. Relatou também o projeto da Lei do Inquilinato. Fez parte da Comissão de Constituição e Justiça e da Comissão do Polígono da Seca. Foi professor visitante da Universidade de Brasília (1984-1986). Procurador autárquico Federal. Pertence às seguintes instituições: Instituto Luso-Brasíletro de Direito Comparado; Instituto dos Advogados Brasileiros; Instituto dos Advogados Piauienses; Academia Piauiense de Letras Jurídicas; Academia de Letras e Artes do Nordeste e da União Brasileira de Escritores (Secção do Piauí). Ex-Presidente da Academia Piauiense de Letras. Ocupa a cadeira nº 39, cujo patrono é José Newton de Freitas. A solenidade de posse ocorreu no dia 29-05-1967, na Casa Anísio Brito. Tem grande número de trabalhos publicados, entre os quais, citamos: Da Poesia Latina na Época de Augusto (tese) 1958; O Estado Brasileiro – do conteúdo político ao social, 1961; Diretrizes para uma ação política, 1963; Imunidades parlamentares, 1964; O Direito como razão e como história, 1964; A Reforma do Código Civil, Revista Forense, nº 224; Universidade em causa, 1973; Jurisprudência como norma jurídica in Estudos em homenagem ao Prof. Washington de Barros Monteiro, São Paulo, Ed. Saraiva, 1982); Eles e os talentos, Câmara dos Deputados (1985); Homens de Ideias e de Ação (1991); Academia Piauiense de Letras – 75 anos

– 1994; Coelho Rodrigues e o Código Civil (Organizador e co-autor), 1998; Darcy Ribeiro – Educador e Antropólogo, 1997, e Rui Barbosa – Estadista do Progresso do Brasil, 1998.

PETRÔNIO PORTELA
vocação para o poder

Em comemoração ao 58º aniversário do Senador Petrônio Portella, vem de ser publicado, sob o patrocínio do Governo do Estado do Piauí, através da Secretaria de Cultura, o livro Petrônio – Depoimentos à História, no qual seu autor, Osvaldo Lemos, reúne depoimentos, ou, como ele próprio diz na introdução, “opiniões de gente ilustre, uma menção gentil e carinhosa de pessoas gradas” sobre o notável político do Piauí.

Nada menos de 32 colaborações estão aí reunidas, todas focalizando, em ângulos e estilos diferentes, a personalidade de Petrônio Portella, que se distinguiu, na política brasileira, pelo senso de oportunidade, pela sua inteligência, pelo seu equilíbrio, pela profunda visão dos fatos políticos, nele realçando-se ao lado de tudo isso o dom profético de ver as coisas com a necessária antecipação e com isso se preparando para os impactos que elas por vezes acarretam.

Inicialmente ligados aos mesmos ideais políticos, fruto de uma coligação partidária que levou ao Governo do Piauí, como primeiro passo de sua ascensão política no âmbito nacional, Petrônio Portella e eu conservamos estreitos laços de amizades pessoal, mesmo depois que as contingências políticas, com o advento da revolução de 1964, nos colocaram em trincheiras opostas, ele como Senador da ARENA e eu como Deputado Federal pelo MDB e após dez anos afastado das lides políticas em consequência da cassação do meu mandato de Deputado Estadual (PDC) pela Assembleia Legislativa de Estado Do Piauí.

No Congresso Nacional os nossos encontros eram frequentes e atravessamos momentos difíceis que o Senador, seja na condição de Líder do Governo, de Presidente do Senado ou de Presidente da ARENA, soube tão bem superar, no âmbito do Congresso, pois colocava acima de tudo o interesse comum da nacionalidade e dos partidos, alheio às questões pessoais pouco construtivas, principalmente em épocas de crise.

O seu esforço para o entendimento, a cooperação, a sua persistente procura do diálogo colocaram no ápice das decisões políticas, sobretudo na fase que precedeu a escolha e eleição do General João Baptista de Figueiredo à Presidência da República.

Assumindo o poder, o atual Presidente confiou a Petrônio Portella o Ministério da Justiça, onde desempenhou papel importante na coordenação da política nacional, vencendo crises, associando Interesses e fortalecendo o poder político.

Aí a morte o colheu de surpresa, enlutando o país, que lamentou, em uníssono, sua perda, exaltando a sua personalidade e glorificando o seu passado de lutas.

Os depoimentos prestados a seu respeito, no livro em apreço, revelam aspectos os mais relevantes do seu caráter, de sua vida e de sua vocação para o poder, não o poder que abastarda ou aniquila a serviço de interesses mesquinhos ou transitórios, mas o poder que é capaz de identificar nos grandes homens o seu espírito Público, o seu ideal, a sua vocação de servir à causa pública, como um dos atributos mais significativos do estadista e do líder.

Líder Petrônio Portella o foi, naquela mesma dimensão com que definiu a personalidade de Bernardo Pereira de Vasconcelos, quando, dele falando em Ouro Preto, assim o exaltou: “Distinga-se, Senhores, no homenageado, uma característica de sua personalidade: a coragem, afirmada nos momentos mais tensos, difíceis e perigosos: quando os homens olvidam os princípios subjugados ao interesse; quando olhando as sugestões gratificantes do momento esquecem o dever de consciência; quando as ovações ensurdecem os auditórios e a consciência popular mistificada pelas paixões aponta como salvadores os descaminhos, nestes momentos o líder se revela, na afirmação contra todos, no perigo do opróbrio injusto, no esquecimento das ambições menores para a grande decisão que fica, marca e eterniza o homem, em sua autenticidade, o líder em toda a fraqueza, certeza para dúvida, esperança para as legiões na luta pelo destino político.

Assim, também, era Petrônio Portella. Vivendo uma época de turbulência política de adaptações difíceis entre o sistema revolucionário a que servia e as exigências da sociedade impaciente por soluções democráticas, soube abrir caminhos, aplainar terrenos e convencer pessoas, ao mesmo tempo que colhia, na sua luta diária os frutos do seu obstinado trabalho em prol da normalidade democrática.

Por isso, pode-se dizer dele o mesmo que ele dissera, ainda na mesma oportunidade, de Bernardo Pereira de Vasconcelos: “Quando os fatos mudaram ele mudou para servir ao País. Fê-lo com o desassombro de que se fundará em reflexões profundas e sobranceiro enfrentava o julgamento superficial dos críticos em plantão, profissionais que só viam o fato em si em exame criterioso de suas causas e seu fundamento.”

A pouca distância que nos separa, no tempo, de sua morte, não nos pode dar a exata medida da sua projeção política, porque a perspectiva histórica se enriquece à medida que os homens e os fatos se distanciam de nós. Enquanto os conservamos em nossa subjetividade nem sempre é possível medi-los com toda justiça, pois muitas vezes o louvor se mistura com a simpatia pessoal e sofre as deformações próprias das afinidades espirituais ou da comunhão de propósitos no convívio de longos anos.

E necessário que o tempo decorrido nos situe no ângulo da estrita objetividade para que a exaltação e o louvor se apresentem como resultado da avaliação de méritos reais que as obras revelam e o espírito assimila.

Quando chegarmos a esse ponto, que só as gerações que o sucederam podem alcançar, o nome de Petrônio Portella terá maior realce de grandeza e se colocará, entre os grandes do passado, como modelo exemplar das gerações presentes.

Fonte: Discurso proferido na Sessão do Congresso Nacional de 13-10-83 / DCN de 14-10-83. COELHO, Celso Barros. Diálogo e Circunstâncias: ideias filosóficas. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2014, Coleção Centenário nº 15.
COELHO, Celso Barros. História da Academia Piauiense de Letras. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2018, Coleção 100ANOS nº 4.
COELHO, Celso Barros. Perfis Paralelos Juristas. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2017, Coleção Século XXI nº 5.

Manoel PAULO NUNES

(1925). Primeiro e Atual Ocupante da Cadeira nº 38 da APL. 

Professor, conferencista, escritor, crítico literário e jorna lisa. Nasceu em Regeneração, Estado do Piauí, a 14-10-1925. Bacharel em Direito pela Faculdade

do Piauí. Pais: Francisco de Paulo Teixeira Nunes e Raimunda da Silva Nunes. Exerceu na área da educação e cultura os mais Importantes cargos e funções: professor de Português nos colégios “Demóstenes Avelino” e “São Francisco de Sales”. Lecionou Literatura na Faculdade Católica de Filosofia de Teresina e na Universidade Federal do Piauí, onde era professor titular. Presidiu a Fundação do Ensino Superior do Estado e a Fundação Cultural do Piauí. Foi membro do Conselho Estadual de Cultura e da Comissão de Especialistas na Área de Educação (MEC). Exerceu, também, os seguintes cargos e funções: técnico em Assuntos Educacionais (MEC), Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí e chefe da Representação da Universidade Federal do Piauí, em Brasília. Pertence à Academia Piauiense de Letras, ocupando a cadeira de nº 38, cujo patrono é João Francisco Ferry. A solenidade de sua posse ocorreu em 28-8-1967. Ex-presidente da Casa Lucídio Freitas. Ex- secretário de Cultura do Piauí. Colaborador assíduo e atuante da Imprensa piauiense. Tem trabalhos publicados nos jornais O Dia, Jornal do Piauí, Folha da Manhã, Correio Braziliense e no Jornal de Brasília. Publicou, também, trabalhos nas revistas Clube dos Advogados do Brasil, secção do Piauí, e na Panóplia. Bibliografia. A Geração Perdida, ensaios e notas críticas, 1979; A província Restituída, ensaios e estudos, 1985; O Discurso imperfeito, notas para a história da educação brasileira (1988), e Tradição e Invenção, discursos acadêmicos, 1992.

Manoel Paulo Nunes escreve sobre uma das maiores figuras de nossa cultura: um homem de expressão.

O EXEMPLO QUE FICA

Li há algum tempo interessante comentário de Josué Montello a propósito do desaparecimento de Antonio Lopes, mestre acatado da crítica histórica maranhense e espécie de guia espiritual das novas gerações daquele Estado.

O tema comporta uma larga meditação a propósito da contribuição que tem prestado à vida intelectual dos Estados, onde não existe grande imprensa e as ideias circulam geralmente pela oralidade, através da cátedra ou das bancas de cafés, o apostolado de figuras que se alteiam como verdadeiros luminares no panorama asfixiante da vida intelectual da província.

Tornaram-se eles perfeitos criadores de símbolos e responsáveis por uma salutar renovação de valores, no clima de desencanto em que muitas vezes mergulham, à falta de maiores estímulos, as mais afoitas inteligências.

O fato que me trouxe à lembrança a contribuição do saudoso professor Clemente Fortes à cultura piauiense. Embora não tenha deixado obra escrita através da qual pudesse ser julgado e admirado pelos pósteres, constitui-se, entretanto, em figura realmente de exceção na vida cultural do Estado.

O que sobretudo impressionava aos que de perto conviveram com Clemente Fortes não era apenas a figura do professor, e grande e brilhante expositor que se foi, dono de palavra fácil, rica de emoções e possuindo o invejável  dom  da comunicabilidade, fosse na explanação de sistemática jurídica, de teorias literárias, de linguística ou de doutrinas filosóficas.

O que nele nos causava admiração era, antes de tudo, a capacidade permanente de atualização, em quem, convivendo com os clássicos, bebendo-lhes aos jorros a elegância de estilo e sabedoria, não perdia nunca o contato com os temas atuais.

Recordo-me a propósito, de observação lida a respeito de Azorin, o mestre da novelística espanhola, de quem se disse que se ama o passado emocionante, e porque o ama emocionalmente pode e sabe trazê-lo ao presente, porém não mumificado, como restos anquilosados, com técnica de arqueólogo, senão vivo e palpitante, suculento, atual. E ainda nas contradições em que às vezes incorre ao julgar em duas épocas distantes uma mesma obra, mostra o renovado de suas vivências, o permanente atualiza-se.

Esta a exata perspectiva em que poderemos situar no meio piauiense a atuação profunda e renovadora de Clemente Fortes. Professor, humanista, educador, homem de seu tempo, nele se sentia uma inteligência permanente, inquieta e perquiridora, sempre inclinada a uma nova atitude intelectual de que pudesse resultar a descoberta de caminhos novos, na deslumbrante aventura do espírito.

Isto lhe trouxe a facilidade no convívio com as novas gerações, descobrindo, em contato com os jovens, as mais diferenciadas tendências, procurado encaminhar- nos, dentro daquele clima de exigências que tanto o caracterizam como educador, ora para os estudos de história, de economia ou direito, ora para os de linguística ou literatura, forcejando por transformar cada um de nós em especialista, no campo do magistério, que todos os que de perto privamos de sua inestimável companhia fomos feitos professores.

Vale lembrar ainda em Clemente Fortes o gosto da análise, o impressionante dom de racionalizações, procurando extrair dos acontecimentos, sobretudo os de ordem política e social, nos quais repercute mais de perto a crise de nosso tempo, a exata perspectiva que eles nos possam oferecer, a fim de que nos situemos com objetividade e lucidez.

Daí porque mantinha sempre inalterável a capacidade de ver claro, lúcido o raciocínio, sereno o julgamento, livre de emoções de capacidade de sentir, quando a violência dos fatos e a mesquinharia das paixões imediatas nos tiram a isenção de ânimo e a frieza do julgamento.

Este estilo de vida de Clemente Fortes, mestre de uma geração, aquela que mais de perto sentiu o influxo de sua personalidade multifária, exuberante e comunicativa  e auferiu os benefícios prodigalizados pela sua riqueza intelectual.

Mas não poderia deixar de consignar aqui uma breve referência ao seu velado ceticismo, palpável quando a si próprio se propunha a angústia do temporal e meditava sobre a fugacidade das coisas terrenas, atitude que o faria aproximar-se do quietismo dos clássicos portugueses, com nítidas repercussões no seu culto a Montaigne e Machado de Assis.

Era esse seu ceticismo também uma defesa com que se amava para o julgamento dos fatos contemporâneos, sobretudo quando neles estão envolvidos os donos da verdade, os que procuram impor a todo o custo seus mitos de ocasião, que possuam quando mito aquela durabilidade do sol de um dia, invocada no soneto célebre de D. Francisco Manuel de Melo.

Durante toda sua breve existência, manteve-se ele fiel a este ideário, através de todas as vicissitudes de uma vida sempre alterada pelo mais constante exemplo de dignidade pessoal, quando o arrebatou a morte escura da trágica imagem do verso camoniano, neste último natal de dor e amargura para os que com ele conviveram e lhe sentiram a grandeza espiritual, deixando um pouco mais empobrecida a terra piauiense.

Em sua homenagem desejaria acrescentar as palavras finais do In Memoriam de Jorge Luís Borges dedicadas ao grande Alfonso Reys.

“No profenen las lagrimas el verso
Que nuestro amor inscribe a su memória.” 

Teresina, janeiro de 1975.

Comentários 

Educador na mais legítima acepção do vocábulo. Dedicou o melhor de seu esforço e inteligência à causa da educação brasileira| da qual é emérito estudioso e incentivador. Crítico literário percuciente e perspicaz, mercê de sua vasta erudição e acuidade intelectual que lhe permitem dissecar com proficiência e precisão a obra objeto de sua investigação e análise literária (Elmar Carvalho).

Fonte: NUNES, M. Paulo. Modernismo e Vanguarda – 3ª Série. 3ª ed. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2014, Coleção Centenário nº 22.
NUNES, M. Paulo. Modernismo e Vanguarda – 4ª Série. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2015, Coleção Centenário nº 54.
NUNES, M. Paulo. Modernismo e Vanguarda – 2ª Série. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2017, Coleção Centenário nº 98.

HEITOR CASTELO BRANCO Filho

(1929). Terceiro e Atual Ocupante da Cadeira nº 37 da APL. 

Engenheiro, escritor e jornalista, nascido em Teresina, Estado do Piauí, a 20-06-1929. Descende de uma família de escritores. Filho de Heitor Castelo Branco e de Emília Leite Castelo Branco. O pai, Heitor Castelo Branco, é patrono da cadeira nº 37 da Academia Piauiense de Letras. A mãe, Lili Castelo Branco, também foi ocupante da referida cadeira, que anteriormente foi ocupada por sua irmã, a escritora Lilizinha Castelo Branco de Carvalho. Obras publicadas: Rio Parnaíba Providências Suplementares à Construção do Porto de Luís Correia, trabalho técnico; Heitor Castelo Branco, Perfil de Um Republicano, biografia; O Sócio da Onça, aventuras; Paz e Guerra na Terra dos Carnaubais, romance histórico, 2ª edição em editoração; Vis Cômica, crônicas; O Pinto Calçudo e Outras Estórias Infantis, contos infantis; Crônicas Marajoaras, crônicas; Petrônio, uma Vocação, biografia; Coronel Pedro Freitas, uma Lição de Vida, biografia; Afinal, quem é Clidenor de Freitas Santos, biografia; O Marisqueiro da Amazônia, romance de aventuras; Piauí para Principiantes, crônicas; Amor de Uma Vida, Vida de Um Amor, romance publicado em capítulos no jornal O Estado; Porque Estava Escrito, romance publicado em capítulos no jornal O Estado; Antônio Gayoso, um Cidadão de Elite; Genu, a Musa de uma Geração; Crônicas da Vida, crônicas publicadas no jornal O Estado; As Academias: História e Importância, tese Acadêmica, no discurso de posse; Arrematei um Zumbi, romance; O Micro paro Principiantes, técnico-educativo. Membro da Academia Piauiense de Letras. Vice-presidente da Academia de Letras e Belas Artes, Vale do Parnaíba – ALBEARTES. Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Estado do Piauí.

A NOIVA DO BOTO

Rosilda era trigueira, olhos grandes e sonhadores, cabelos pretos como a seiva do jenipapo. Busto pequeno, ereto, cintura de pilão e com pernas muito bem torneadas. Pele que fugia da mulata para a cor dos apetitosos jambos, frutinha lasciva como a própria Rosilda.

Moravam em Marajó, na Fazenda Gavinho, dos Engelhard. Fazendo robusta de muitas mil cabeças de gado. Seu pai, o Bernardo, era um dos feitores da propriedade. Caboclo forte, exímio laçador de bois nas pradarias, era respeitado pelos vaqueiros da região, pela sua habilidade com o laço. Tinha meia dúzia de filhotes, duas moças.

– Rosa, já casada, Rosilda, e quatro rapazes, – quatro latagões, afeitos às lides do traquejo do gado.

A Fazenda Gavinho ficava à margem de um largo rio, no município de Soure, com trapiche de embarque para acostagem de grandes barcos que conduziam os bois produzidos, para Belém, onde eram abatidos no CURRO do MAGUARI, moderno abatedouro do Estado.

Rosilda, de uns tempos para cá, ao entardecer, deu de ir para a “fonte” na margem do grande rio. Batia alguma roupa e tomava seu banho vespertino. Voltava já quase escuro, após o pôr do sol.

A mãe sempre a advertia dos perigos das águas guajarinas, prenhes de grandes peixes e de botos, que volta e meia faziam das suas. Contavam-se muitos acontecidos com o boto Tucuxi, que encantava donzelas e as fecundavam. Rosilda sorria dessas abusões de sua ingênua mãe. Dizia:

– Mãe, num vê que isso tudo é pabulice do povo. Boto num mexe cum ninguém. Boto é bicho, cuma iria fazê amô cum moça? Inté tem um bando deles muito mansinho que vive perto da beira; tem um, intão, que todo dia eu jogo cumida pra ele!

Essas perorações, contudo, não modificavam o ponto de vista da mãe de Rosilda.

Ultimamente Rosilda andava mais sonhadora que o trivial Cantava modinhas dolentes, de amor, do folclore marajoara. Mas não tinha namorado, pelo menos à vista.

Certo dia Rosilda começou a ter vômitos, calores súbitos e mal-estares. Atribuiu-se ao consumo excessivo de bacuris, frutas que Rosilda consumia muito, mas que eram um tanto ácidas e indigestas.

O tempo foi passando e um belo dia a mãe desconfiou que a barriguinha de Rosilda estava crescendo além do normal.

Conversa vai, conversa vem, Rosilda admitiu que de fato o boto tinha se afeiçoado muito a ela. Quase todos os dias ela dava-lhe comida na boca, e certo dia confessara que tivera uma “dormição” repentina, e que quando acordara sentira um certo ardor em seu órgão mais íntimo.

O caso causou sensação. Todos admitiram que Rosilda engravidara do boto Tucuxi, já que ninguém vira, uma vez sequer, algum rapaz aproximar-se de Rosilda. Havia unanimidade nesse ponto.

Admitiu-se o fato consumado, como um dos tantos acontecidos.

Um mês decorrido do incidente, houve a novena de S. Sebastião, que é santo muito prestigiado na Ilha.

Apareceu um rapaz que morava às margens do grande rio, distante, porém, quase uma hora de canoa, – que é como os marajoaras medem as distâncias. O jovem chamou Bernardo para um particular, e sem maiores rodeios pediu a mão de Rosilda. Bernardo ficou perturbado com o inusitado da proposta. Pediu ao rapaz tempo para pensar um pouco e consultar a família. Dentro de algumas horas, mais precisamente, depois da novena, daria a resposta.

Reunida a família ficou acorde que teriam de esclarecer a gravidez de Rosilda. Não poderiam, hipótese alguma, enganar o pretendente. Também consultou-se Rosilda sobre se aceitaria o rapaz no caso em que fosse suplantada a dificuldade. Rosilda disse que o rapaz lhe era simpático. Faria gosto.

Após a novena, José, o pretendente, foi convidado para a casa de Tomaz. Reunidos os interessados, isto é, o pai, a mãe, Rosilda e José, foi esclarecido o problema de Rosilda, que estava grávida de dois meses de um boto.

  • Num queremo Já sabe do acunticido. Num causa disgosto rejeitar u pidido, – falou com franqueza Bernardo.
  • Eu arripito u pidido, seu Eu sou o boto que imprenhou a Rosilda.

(In Crônicos Marajoaras)

Comentários 

A convivência de nove anos com a natureza amazônica e as paisagens humanas e sociais que encantaram seus pais terminou inoculando no escritor o desejo de pincelar essas paisagens. […] O Marisqueiro da Amazônia e Crônicas Marajoaras, em que o estilo de um narrador seguro e consciente se projeta na fabulação bem concebida de histórias ricas de ensinamentos de vida. (Herculano de Moraes, in: Jornal Meio Norte, abril- 1998.

Francisco de ASSIS Almeida BRASIL

(1932). Quarto e Atual Ocupante da Cadeira nº 36 da APL. 

Romancista, cronista, crítico literário e jornalista, nascido na cidade de Parnaíba, Estado do Piauí, em 1932. Teve e tem uma intensa participação na imprensa nacional. Crítico Literário do Jornal do Brasil, 1956-1961; Colunista Literário do Caderno B do Jornal do Brasil 1963-64; Crítico Literário do Diário de Notícias, Rio, 1962- 63; Crítico Literário do Correio da Manhã (Revista Singra e Suplemento Literário), Rio, 1962 e 1972; Crítico Literário de O Globo (Arte e Crítica), 1969-1970; Colunista Literário da Revista O Cruzeiro, Rio, 1965-1976; Crítico Literário do Jornal de Letras, 1964-1989; artigos e ensaios nos seguintes órgãos culturais: Senhor, Mundo Nuevo, Revista do Livro, Leitura, Enciclopédia Bloch, Usina, suplemento de O Estado de São Paulo, Diário Carioca, Tribuna de Imprensa, Jornal do Comércio, Minas Gerais, Correio do Povo, O Povo. Atualmente (1994) faz crítica literária no Tribuna de Imprensa. Bibliografia. Tem 106 obras publicadas. Romances: Tetralogia Piauiense: Beira Rio, Beira Vida, 1965; A Filha do Meio Quilo, 1966; O Salto do Cavalo Cobridor e Pacamão; Ciclo do Terror: Os que Bebem como os Cães e outros. Romances Históricos: Nassau, Sangue e Amor nos Trópicos e Bandeirantes os comandos da morte, etc. Contos: Contos do Cotidiano Triste, História do Rio Encantado e outros. Ensaios: Faulkner e a Técnica do Romance. Assis Brasil é considerado hoje uma das mais cintilantes culturas do país. O Jornal de Letras do Rio de Janeiro, em sua edição de dezembro de 1998, traz o romance Beira Rio, Beira Vida, entre os cem melhores do gênero já publicados no país. Pertence à Academia Piauiense de Letras.

Excerto extraído do livro Bandeirantes: os comandos da morte.

VESPÚCIO OU CABRAL?

Acreditamos, em contrapartida, que foi Américo Vespúcio quem
descobriu, com plena consciência e absoluta lucidez intelectual,
um novo continente autônomo, demonstrando sua existência.

Riccardo Fontana

O historiador italiano acha, “em contrapartida”, que Colombo e Cabral apenas se “depararam” com as terras novas e pensaram que se tratava de parte da Ásia, “isto é, da Índia, a ponto de chamarem de índios seus estranhos, imprevistos e imprevisíveis habitante”. Vespúcio, por via de interesses políticos e econômicos da Espanha Portugal, teria sofrido toda sorte de “calúnias e traição”, passando para o lado obscuro da história oficial daqueles países. Salva-o, no entanto, as inúmeras cartas que deixou, algumas “apócrifas”.

Os eruditos têm trabalhado sobre elas, não para desmoralizar Pedro Álvares Cabral, mas para repor a história nos seus devidos lugares, destacando Américo Vespúcio, entre outros italianos, como o cartógrafo e o geógrafo que oficializou, cientificamente, a existência do Brasil. Ele corrigiu mapas, influenciou outros, viajou incansavelmente naquele ocaso e alvorecer dos séculos XV e XVI.

Embora haja referência gráfica nos mapas revisados por Américo Vespúcio, do nome Brasil – “Rio do Brasil” ou “Terra do Brasil”, atribuído o nome, na tradição acadêmica, à madeira cor de brasa das florestas tropicais, foi o cosmógrafo alemão Martin Waldseemuller, em 1507, que, “reconhecendo a extraordinária descoberta da quarta parte do mundo pelo florentino”, quis chamá-la de América. Os historiadores têm engolido os dois termos pacificamente, embora saibamos que as origens toponímicas sejam outras.

Entre as novas descobertas dos historiadores, destaca-se a amizade de Colombo e Vespúcio, desde mesmo 1493, quando aquele navegador voltava da sua histórica viagem “às neodescobertas ilhas do Caribe, pensando ter tocado Catai ou Cipango, ou seja, a China e o Japão”. Colombo, em carta a seu filho Diego, dá conta dessa amizade com o florentino. “Não há dúvida de que os dois protagonistas da descoberta da América, Colombo em nome da Espanha e Vespúcio em nome de Portugal, continuam sendo vítimas de uma série de acusações de traição, espionagem”, “sendo Vespúcio o mais vilipendiado”, observa Riccardo Fontana.

Todo o importante livro de Riccardo Fontana, O Brasil de Américo Vespúcio (1994), gira em torno do restabelecimento da verdade acerca dos contatos do navegador em relação ao Brasil, desde mesmo aquele convite de D. Manuel I para ele capitanear uma frota de reconhecimento das novas terras. Vespúcio aceita o convite, mas logo surgiriam suspeitas de que aceitara tal trabalho a fim de fazer espionagem para a Espanha. “De fato, era da conveniência espanhola ter um informante ou talvez um espião estrangeiro precisamente como protagonista de uma expedição da potência rival”.

Vespúcio comanda frota de três caravelas e vai empreender “a mais prestigiosa de suas viagens”. Era a sua terceira viagem ao Novo Mundo, mas, entre 1499 e 1502, Vespúcio já tinha navegado por toda costa centro-sul americana e costas norte e nordeste do Brasil, “reconhecendo o rio das Amazonas, mas sem a possibilidade de desembarcar”. A data de 7 de agosto de 1501 é importante, pois é Vespúcio quem coloca o primeiro marco de posse dos portugueses nas novas terras. Local: Rio Grande do Norte.

Outros historiadores, que já admitem ter sido Vespúcio o verdadeiro descobridor do Brasil, apontam outro dado positivo em favor do italiano, ou seja, o de ter permanecido por longo tempo neste lado de cá, em contraposição “à forçada e inesperada parada de Cabral, por apenas dez dias, na atual costa sul da Bahia”.

Américo Vespúcio era de fato um aventureiro fanático, um piloto-navegador sem igual, pois até os degredados, abandonados por Cabral em Porto Seguro, ele recolheu, isso na viagem de 1503, quando aqueles homens passaram a lhe servir de intérpretes entre os índios. E que agora o italiano tinha a missão portuguesa de construir feitorias e fortes, e de assentar o marco de mármore, o Marco do Descobrimento, “legalizando” a posse da terra.

Depois da construção de outras feitorias e fortes – como a primeira base comercial em Cabo Frio para o embarque da madeira de tinta – Vespúcio planta o terceiro marco de posse portuguesa, ou seja, o de Cananeia – era o ponto extremo sul do domínio lusitano. Vasculhara, assim, Vespúcio regiões do Rio Grande do Norte a São Paulo, não indo mais adiante com receio de atingir “possessões” espanholas.

A curiosidade é que o nome de América, dado pelo frade e cartógrafo alemão Martin Waldseemuller, foi para a parte onde atuou e explorou Vespúcio, ou seja, o Brasil, em reconhecimento de sua obra, mas acabou identificando o continente ou o país do Norte.

“Uma vez posta em seu devido lugar a participação de Vespúcio e de outros navegadores na descoberta do Brasil” […] Riccardo Fontana cita carta do navegador, da época de sua missão de 1501, quando “faz referência ao desembarque de Cabral na Ilha de Vera Cruz”:

– “[…] desembarcaram numa terra onde encontraram gente branca e nua e é a mesma terra que descobri para o rei de Castela” – diz, referindo se à sua expedição espanhola de 1499 nas costas setentrionais do Brasil – com exceção de que está mais para o Oriente […]”

Comentários 

O processo renovador de Beira Rio, Beira Vida; ancorado na incronologia, revoluciona e simplifica a narrativa, sem prejuízo da essência do enredo. Os elementos tradicionais do romance sôo aqui substituídos por uma técnica que revitaliza a função da literatura. (Herculano Moraes)

Ao lado de Rubem Fonseca e de Ana Miranda, o piauiense Assis Brasil forma a trinca de escritores da atualidade voltados para o romance histórico. Após o sucesso de Nassau, sangue e amor nos trópicos, Assis Brasil lança Villegagnon, paixão e guerra na Guanabara. Autêntico romance de Capa- e-espada, permeado de passagens eruditas sobre política e religião, Villegagnon prende a atenção do leitor da primeira à última página, graças à sua força narrativa. (Mário Margutti-RJ)

Mal chegou nas livrarias e já causou polêmica o novo romance histórico do piauiense Assis Brasil, Tiradentes, poder oculto – o livrou da forca. Com base em depoimentos de historiadores e até mesmo de Machado de Assis, o romancista diz que o líder da Inconfidência Mineira não morreu na forca, como garante nossa História, tendo sido substituído no cadafalso por outra pessoa, graças a uma articulação da Maçonaria. (Danilo Ucha-RS)

Fonte: ASSIS BRASIL O Prestígio do Diabo. 2ª ed. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2017, Coleção Centenário nº 83.

Maria NERINA Pessoa CASTELO BRANCO

(1935). Primeira e Atual Ocupante da Cadeira nº 35 da APL.

Poetisa, contista, cronista e professora, nascida em Teresina (1935). Bacharela em Direito. Tem licenciatura em Filosofia. Professora titular na Universidade Federal do Piauí. Membro do Conselho Estadual de Cultura.

Pertence à Academia Piauiense de Letras, ocupando a cadeira nº 35, cujo patrono é Antônio Alves Noronha. Bibliografia. Poesias Modernas I e II, 1964-1965; Cruviana, 1979; Outros Poemas, 1981, e Além do Silêncio, 1994.

O ENCONTRO DO NADA

Porque procurei a vida toda
Aquilo que não pude encontrar
Hoje, sem esperanças – nenhuma luz verde em meus caminhos,
Estou farta desta interminável procura,

Que vai sempre de encontro ao nada!
É possível assim tanta doçura,
Extravasar-se ao léu das coisas,
Sem ritmo, sem objetivo, sem nada, enfim?

É possível entregar-se então ao extermínio,
Desmaterializar-se o corpo quando no final da vida,
Sem levar desta vida uma lembrança?

É possível, sim. É a verdade das coisas,
Uma profusa confusão.
E os complexos…?
Tudo assim, ânsias.
Ao encontro do nada…

DOIS POEMAS PARA DEPOIS…

Quero toda a sensibilidade do mundo,
Entre mim, você e o infinito…
Nada mais! Como exceção,
Os voos dos pássaros

Tão bom meu mundo de lembranças,
Sem amargores e maus presságios;
Feliz, inteiro, no conjugar do verbo amar…

Tão bom meu mundo pretérito,
Que me trouxe ao hoje,
No afago da luz metafísica,
De tudo quanto é bom…
FELIZ, inteiro, no conjugar
Do verbo amar…

(Do livro inédito O Mundo Pretérito)

Comentários 

Cruviana é uma coleção de contos de Nerina que tocam profundamente os nossos sentimentos telúricos. São estórias, fatos, passagens pitorescas, tipos populares, costumes, que nos levam ao passado, a reminiscências, entre os quais citamos: Maria Sapatão, 0 Frutuoso, cenas folclóricas e tradições religiosas; Clube dos Diários e a Vesperal das Seis: a Velha Salamanca. São contos e estórias de episódios bem sentidos, traduzidos com muita sensibilidade por uma escritora que além de ser uma primorosa poetisa, aparece em Cruviana como uma cronista que soube exteriorizar no seu livro todo sentimento que lhe ia n’aima, e o fez como só fazem os bons cronistas. (Wilson Gonçalves)

Fonte: CASTELO BRANCO, Nerina. Outras Poesias e Além do Silêncio. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2014, Coleção Centenário nº 51.

ZÓZIMO TAVARES Mendes

(1962). Quarto e Atual Ocupante da Cadeira nº 34 da APL. 

Nasceu em Novo Oriente-CE, em 4 de abril de 1962. Viveu a sua infância e parte da adolescência em Água Branca, Piauí. É formado em Letras e em Jornalismo. Foi editor-chefe do jornal O Dia, da TV Clube e do jornal Diário do Povo, além de correspondente do Correio Braziliense no Piauí. Presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Piauí. Foi secretário de Comunicação de Teresina e professor da Universidade Federal do Piauí. Integra a equipe de jornalismo do Grupo de Mídia Cidade Verde – TV, Rádio e Portal. Publicou livros de humor, literatura, jornalismo e biografias. Tomou posse na APL em 10 de dezembro de 2002. É o atual presidente da Academia.

Fragmentos do seu discurso de posse na Academia Piauiense de Letras, cadeira nº 34:

A LITERATURA DE CORDEL REPRESENTA A FISIONOMIA CULTURAL DO NORDESTE

Entre os membros desta Casa que se deleitam com o cordel cito os poetas Altevir Alencar, Francisco Miguel de Moura e Lima Cordão e o romancista William Palha Dias.

O cordel é literatura e é o jornalismo. Foi o primeiro jornal do nosso sertão esquecido, antes do aparecimento do jornal impresso, do rádio e da televisão, naquelas regiões abandonadas.

Fiz esta introdução para significar, solenemente, a importância da Literatura de Cordel não apenas em minha alfabetização, mas em minha formação cultural.

O cordel foi minha primeira experiência estética.

No jornalismo 

Nessa minha volta ao passado encontro-me, agora, na redação do jornal O DIA, em 1980, ainda Imberbe. Não havia no Piauí nossa Escola de Comunicação.

Pelas mãos dos jornalistas Francisco Leal e Herculano Moraes fraternos amigos e que à época chefiam a redação, fui lotado no setor de telex, para corrigir o material com as notícias do dia.

Desse noticiário fornecido pelas agências nacionais e internacionais de notícias tirei as matrizes de meus textos jornalísticos.

Entreguei-me de corpo e alma ao jornalismo, para a minha inebriante. Passei para a reportagem. Fiz uma carreira meteórica. Logo ascendi à Secretaria de Redação. Dez anos depois, já havia passado pelos principais postos em jornal, rádio e televisão.

No rádio e, depois, na TV, tive o prazer de trabalhar com dois de meus ídolos na juventude, os jornalistas Carlos Said, Dídimo de Castro, Joel Silva, Arimateia Azevedo, o próprio Herculano Moraes e outros talentosos jornalistas que já cumpriram a sua missão, entre os quais recordo, com saudade, Wilson Fernando, Paulo de Tarso Morais, José Eduardo Pereira e nosso inesquecível Arimateia Tito Filho.

Muito aprendi também com diretores de empresas de comunicação. Destaco, entre eles, o coronel Octávio Miranda, presidente do Jornal O DIA, e o jornalista Paulo Henrique de Araújo Lima, presidente da Rádio Difusora.

Literatura e humor 

Apesar da vida agitada como jornalista, em que me afirmava como analista político, eu sentia um vazio em meu espírito. Era um vazio que – não tardei a descobrir – me instigava a fazer também literatura.

Sem grandes pretensões, publiquei meu primeiro livro, Falem Mal, Mas Falem de Mim, em 1989. Foi um sucesso.

Eu dava aqui, no Piauí, uma versão local às peripécias dos nossos políticos, a exemplo do Barão de Itararé, Stanislaw Ponte Preta, Sebastião Nery e outros jornalistas que se dedicaram ao humor político.

Meu livro ganhou repercussão nacional. Suas histórias foram recontadas na Folha de S. Paulo. Logo ganhou segunda edição. Vieram outros volumes e outros virão, ainda, tratando do mesmo assunto.

E por que a opção pelo humor? Porque o humorista, como o poeta de Fernando Pessoa, também é um fingidor, embora dizer o que seja humor não se apresente como tarefa das demais fáceis.

Cada povo, cada época, coda cultura tem, do humor, uma visão particular, multas vezes intraduzível a outra linguagem que não seja a sua própria.

O humor pode aparentar-se ao cômico, se bem que, nem sempre, persiga o riso e, muitas vezes, mesmo ao fazê lo, ultrapasse esse objetivo e alcance a lágrima. Cervantes, em Dom Quixote de La Mancha, esplende como monumento universal do humorismo, com obra-prima ínsuperada e insuportável do gênero.

O humorista se dá o luxo de rir de si mesmo. Realça as mil e uma contradições humanas e, através da candura, da malícia, da observação rara, do cinismo levado à lucidez, revela as incongruências ou a tragicidade da vida.

Humor é coisa séria. Por isso, torna-se eficientíssima medida da infindável comédia humana.

Comentários 

Agora nos dá ele este livro sério, objetivo, em que a evolução histórica de nosso Piauí, em seus aspectos sociais, econômicos, culturais e políticos nos é mostrada, através de uma linguagem bem cuidada e aliciante; numa prosa elegante e sóbria que prende o leitor da primeira à última página. Tem ele tal poder de comunicação que fruímos as páginas desse roteiro sentimental, verdadeiro guia histórico de nossa terra, como se estivéssemos a ler um romance; tal o poder de empa tia que suas páginas parecem transmitir-nos. (M. Paulo Nunes, Ex-presidente da Academia Piauiense de Letras, sobre 100 Fatos do Piauí no Século 20.)

NELSON NERY Costa

(1959). Segundo Ocupante da Cadeira nº 33 da APL. Presidente da APL. 

(Teresina-PI, 21-03-1959). Pais: Ezequias Gonçalves Costa (1919-2005), que foi deputado federal, secretário de estado, advogado e empresário, por sua vez filho do empresário e político Gervásio Raulino da Silva Costa (1895-1986), e Maria da Glória Nery Costa(1927). Professor, jurista, historiador e contista. Depois de passar a infância em Brasília (1963-1971), ultimou seus estudos preparatórios no Colégio Diocesano (1972-1975), em Teresina, e no Colégio Santo Inácio (1976-1977), no Rio de Janeiro, e matriculou-se na Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, bacharelando-se em ciências jurídicas e sociais (1978-1982). É casado com a arquiteta Lavínia Coelho Brandão Costa e tem por filhos o advogado André Brandão Nery Costa (1988), o engenheiro Ricardo Brandão Costa (1990) e a estudante de medicina Alice Coelho Brandão Costa (1996). Magistério. Mestre em direito constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1985), com a dissertação Desobediência Civil: desenvolvimento, análise e estudo de caso. Doutor em direito pela Universidade Lusíada de Lisboa (Portugal) (2008), com a tese A Banca e o Juro no Direito Brasileiro. Doutor em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Maranhão (2014), com a tese Política de Consumo: movimento social de defesa do consumidor no Brasil. Professor fundador (1986) e membro do Conselho Universitário da Universidade do Estado do Piauí (2010). Professor de ciência política (1987) e professor de direito público (1992), ambos por concurso público, e professor de direito administrativo do mestrado em gestão pública (2016), tudo da Universidade Federal do Piauí. Cargos. Presidente do Conselho Seccional do Piauí da Ordem dos Advogados do Brasil (1995-2002), presidente da Caixa de Assistência dos Advogados do Estado do Piauí (1993-1994), diretor da Escola Superior da Advocacia do Piauí (2006), conselheiro federal e presidente da Comissão da Advocacia Pública do Conselho Federal (2004-2006) e conselheiro seccional (1993-1994). Foi aprovado em concurso público e nomeado defensor público do estado (1986). Passou a defensor público de categoria especial (2005) e exerceu a função de defensor público-geral estadual (2007-2011), de presidente da Associação dos Defensores Públicos do Estado do Piauí (1990-1991) e de tesoureiro da Associação Nacional dos Defensores Públicos (1999-2003). Três vezes presidente do Conselho Municipal de Cultura, membro do Conselho do Sistema Incentivo Estadual de Cultura (Siec) (2010) e membro do Conselho Estadual de Cultura do Piauí (2016). Diretor da sociedade profissional Almeida e Costa Advogados Associados (1996). Comendas. Tem a Medalha da Renascença do Estado do Piauí, no grau de oficial (1997) e no grau de grão-mestre (2008). Medalha Conselheiro Saraiva do Município de Teresina grau de oficial (1996), Colar de Mérito Jurídico do Tribunal de Justiça do Piauí (2002), Medalha da Ordem Piauiense de Mérito Jurídico do Trabalho do Tribunal Regional do Trabalho da 22ª Região (2000), Medalha do Mérito Legislativo da Câmara Municipal de Teresina (1995), Medalha Ministro Sousa Cândido Mendes Júnior de Sócio Benemérito da Associação dos Magistrados do Estado do Piauí (1995), Medalha Prof. Darcy Fontenelle de Araújo do Ministério Público do Estado do Piauí (2008), Medalha da Ordem do Mérito Advocatício grau de ouro da Seccional do Pará da Ordem dos Advogados do Brasil (1996) e Troféu Clóvis Beviláqua da Seccional do Ceará da Ordem dos Advogados do Brasil (1995). É cidadão maranhense pela Assembleia Legislativa do Estado Maranhão e cidadão de Picos, Floriano, União e Água Branca, concedidos pelas respectivas Câmaras de Vereadores. Bibliografia. Publicou, pela centenária Editora Forense/Gen (Rio de Janeiro) Teoria e Realidade da Desobediência Civil (1990), em 2ª edição; Processo Administrativo e sua Espécies (1997), em 4ª edição; Direito Municipal Brasileiro (1999), em 7ª edição; Ciência Política (2001), em 3ª edição; Constituição Federal Anotada e Explicada (2002), em 5ª edição; Monografia Jurídica Brasileira (2005), com 2ª tiragem; Direito Civil Constitucional Brasileiro (2008), e em coautoria Comentários à Lei de Imprensa (2004), em 2ª edição, e Comentário à Constituição Federal de 1988 (2009), organizado por Paulo Bonavides e Jorge Miranda. Pela Editora Atlas (São Paulo), em coautoria, publicou Processo Administrativo: temas polêmicos da Lei nª 9.784/99 (2011) e, pela Editora Revista dos Tribunais (São Paulo), Doutrinas Essenciais Direito Ambiental (vol. III) (2011). Teve editado Política de Consumo: movimento social de defesa do consumidor no Brasil (2016), pela Editora Del Rey (Belo Horizonte), e A Banca e o Juro no Direito Brasileiro (2011), pela Editora Lusíada (Lisboa-Portugal).  Pela Editora Lawbook (São Paulo), Manual do Defensor Público (2010), em 2ª edição: Previdência do Servidor Público: regime próprio e comprev (2011), em 5ª edição: Direito Bancário e Consumidor (2008), em 2ª edição; Dicionário de Latim Forense (2010): Vademecum Jurídico (2011), em 7ª edição, e Vademecum Piauiense (2014). No Piauí, publicou O Começo do Piauí: os primórdios e a segunda metade do século XVII (2006), Constituição Estadual Anotada – 20 anos (2009) e outras obras, como Dez em Contos (2001). Pela Academia Piauiense de Letras, lançou Contos de Viagem (2017) e História Piauiense: aventura, sonho e cultura (2018). Ele colaborou com os jornais Meio Norte, O Dia, Diário do Povo e o Imparcial (São Luis). Escreveu, ainda, nas revistas jurídicas Revista dos Tribunais (São Paulo), Revista Forense (Rio de Janeiro), Revista de Direito Civil (São Paulo) e Polis (Lisboa- Portugal), bem como na Revista da Academia Piauiense de Letras (Teresina) e outras.

No discurso de Posse da APL, disse que:

Escrever é como ser um pouco de Deus. Na literatura, é moldar a humanidade e as pessoas, como se fossem de barro. Na ciência, é buscar a verdade, como abrir a caixa de Pandora, deixada por Prometeu. Escrever é um ato de amor. Não é fácil conciliar a atividade de escritor com outros serviços prestados.

Eu também sou advogado, defensor público, professor universitário e Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil. Não bastante, depois de um longo dia de trabalho, naquele momento solitário, sinto-me especial e, apesar do cansaço, ainda tenho forças para moldar o destino, o meu e o dos meus personagens.

Escrever depende da família. Da esposa, em especial, que deve achar difícil entender aquela solidão inexplicável. Dos filhos também, que imaginam o egoísmo paterno de não os atribuir o tempo longe do trabalho cotidiano. Todavia, Lavínia me olha e me compreende e isto é um estímulo imenso. André, Ricardo e Alice talvez ainda não me entendam, mas respeitam meu tempo e confortam-me na empreitada. Um deles perguntou-me por que passava tanto tempo em frente de um computador e eu lhe disse que talvez fosse pela mesma razão que ele atacava um “nintendo”, um misto do “hobby” e de missão.

A minha primeira ligação com o mundo acadêmico veio com Evaristo de Moraes Filho, ainda hoje integrante da Academia Brasileira de Letras. Ele foi examinador da minha tese de mestrado, em 1985, e, também, elaborou o mais belo prefácio das minhas obras, o que apareceu em “Teoria e realidade da Desobediência Civil”, cuja primeira edição é de 1990. Afirmou generosamente, que: “[…] embora sem violência; o enunciado de Nery Costa não é ingênuo nem ineficaz. A sua desobediência civil é a forma de pressão, de protesto, de rebeldia contra as leis injustas, os atos arbitrários da autoridade constituída. Pressão, protesto e rebeldia a esses capazes de levá-la à desestabilização e à mudança de governo injusto e opressor”. Foi este meu impulso em escrever, ter a honra de tão belo prefácio, justo de um imortal.

A Academia Piauiense de Letras, não obstante a primeira tentativa de sua constituição ser do início do século passado, foi fundada em 1917 e instalada no ano seguinte. Representou, sempre, o cenário dos maiores intelectuais piauienses. Não fui eu que a escolhi, apesar de sempre a desejar. Ela me tomou, juntamente com esses homens pobres, que me conduziram o destino, depois de cem anos da primeira tentativa de sua criação. Não sei se mereço tanta deferência. Afirmo, apenas, meu compromisso em honrá-la, frequentá-la e jamais deixar de escrever e de publicar.

Abdias da Costa Neves foi um dos seus fundadores e a ele coube o Cadeira 11, a qual ocupou primeiro, tendo como patrono João Alfredo de Freitas, Depois, foram ampliadas suas trinta cadeiras iniciais, passando a quarenta. Houve a feliz ideia de colocar o acadêmico como o patrono de Cadeira 33, que teve como primeiro e único ocupante, até agora, Wilson de Andrade Brandão. Sinto-me ligado a esses dois, por terem sidos juristas, historiadores e professores sendo esta, sem dúvida, a minha cadeira. Espero, apenas, ter condições de honrar o meu patrono e o meu antecessor.

Comentários 

Expondo, examinando e Interpretando a obra político-filosófica dos mais abalizados pensadores da humanidade, o estudo de Nelson Costa se legitima como assunto essencial de Ciência Política, com o aval que lhe dá a mesa de cientistas políticos do encontro da UNESCO, celebrado em Paris em 1946. Disse Latino Coelho que “um homem pensador é uma ideia viva”. De homens pensadores e de ideias vivas se compõe, pois, este livro que eu tive a honra de prefaciar. (Paulo Bonavides).

Fonte: COSTA, Nelson Nery. Curso de Ciências Políticas. Rio de Janeiro: Forense, 2001. COSTA, Nelson Nery. Teoria e Realidade da Desobediência Civil. 3ª ed. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2018, Coleção Centenário nº 100.
COSTA, Nelson Nery. Contos de Viagem. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2017, Coleção Século XXI nº 1.
COSTA, Nelson Nery. História Piauiense: aventura, sonho e cultura. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2018, Coleção 100ANOS nº 5.

Raimundo Nonato MONTEIRO DE SANTANA

(1926). Primeiro e Atual Ocupante da Cadeira nº 32 da APL. Presidente da APL. 

Político, professor e escritor, nascido em Campo Maior, Estado do Piauí (1926). Bacharel em Direito pela Faculdade do Ceará (1949). É diplomado,

também, pelo Institudo Superior de Estudos Brasileiros, em Economia Política e Sociologia. Ex-professor catedrático de Economia da Universidade Federal do Piauí. Lecionou, também, na Universidade Federal de Brasília e na Escola Superior de Guerra. Foi Prefeito Municipal de sua terra natal no período de 1951-1955. Na sua área de especialização profissional e cultural exerceu os mais importantes cargos e funções em nosso Estado, entre os quais destacamos: vice-diretor do escritório regional da SUDENE e secretário de Planejamento do Estado. O Escritor. Fundou o Movimento de Renovação Cultural do Piauí (1960) e o Centro de Estudos Piauienses (1957). Trabalha atualmente com o objetivo de fundar a Fundação de Apoio Cultural do Piauí. O professor Raimundo Santana desde jovem é inegavelmente um batalhador incansável em prol do desenvolvimento de nossa cultura. Pertence à Academia Piauiense de Letras cadeira nº 32, da qual foi seu Presidente. Membro do Conselho Estadual de Educação e do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense. Bibliografia. O Desenvolvimento Econômico Nacional na Teoria Econômica Geral, tese, 1959; Aspectos de Uma Ideologia para o Desenvolvimento; Introdução à Problemática da Economia Piauiense, 1957; A História da Obra de José de Alencar; A Evolução Histórica da Economia do Piauí, 1964; Vale do Longá e Perspectiva Histórica do Piauí, 1965, e Piauí: Formação – Desenvolvimento – Perspectivas, 1995.

O SALTO DO MILÊNIO

Este é o título do artigo de Joel de Rosnay, doutor em ciência e Diretor do desenvolvimento e das relações internacionais da “Cité des Sciences et de l’Industrie’’, em França, escrito em 1996, mas recentemente atualizado, no qual, trata, segundo pensa, dos choques enfrentados pelas sociedades industrializadas, em número de dois: a manifestação do universo imaterial e a emergência das pessoas. A exemplo da maioria dos pensadores atuais, ele faz sua leitura do mundo   limitada à contemporaneidade, marcada pela transição entre as sociedade industrial e “informacional”. Na zona de turbulência entre as duas, enfatiza a manifestação do poder dos grupos face ao poder centralizado e a das redes informáticas favorecendo a afirmação dos indivíduos face ao anonimato dos “usuários”.

A primeira dessas sociedades ele a caracteriza pela centralização dos meios de produção, pela distribuição em massa de objetos padronizados, pela especialização das tarefas e pelo controle hierárquico destas. Enumera em seguida os pilares que sustentam o contrato de trabalho na empresa: a unidade de local, de tempo e de função, que ora se despedaçam, tendo em vista a ocorrência da descentralização das tarefas, a dessincronização das atividades e a desmaterialização dasjrocas, que ora ocorrem, com o advento do chamado ciberespaço.”

A emergência das pessoas, ele a vê através do aparecimento de produtores/ consumidores de novos instrumentos interativos que multiplicam os poderes e a eficácia de cada um. Introduz, tendo em vista os novos instrumentos interativos, principalmente o computador pessoal, multimídia e comunicante, e os novos espaços de comunicação em que aparece a Internet, a idéia, em decorrência dessa lógica situacional, do que ele denota como “empresa unipessoal multinacional”, ou seja, uma pessoa dominando os instrumentos próprios das novas tecnologias comunicacionais e informacionais capaz de  concorrer com empresas já implantadas.

Trata, por fim, de dois aspectos realmente importantes: a impotência dos políticos diante da nova situação e das características do novo espaço econômico, social e cultural chamado de “ciberespaço”, para os quais as análises dos que vivem e racionam conforme o antigo modelo, tomado de empréstimo à geometria ou à mecânica, não bastam. São inservíveis.

A diferença cultural é exemplificada por ele com base no desenvolvimento da nova economia de redes. O esquema que regia a sociedade “industrialista” e a economia de mercado não pode mais ser aplicado. A economia mercantil não garante mais ao Estado os meios de que precisa, os quais, aliás, se tornam insuportáveis. Os “motores” do crescimento, por sua vez, deixaram de funcionar. Daí a manifestação de três graves fenômenos: a redução do crescimento econômico, o aumento do desemprego e a contestação do papel tradicional das elites políticas e econômicas.

Uma nova dimensão cultural emerge, cujo estudo se faz necessário a fim de que se possa construir com lucidez o mundo de amanhã. Em seus próprios termos, Joel de Rosnay arremata: o pensamento cartesiano, analítico, linear, sequencial e proporcional partilhado por tantos homens de decisão pertence ao passado. E conclui: a cultura da complexidade, integrante do novo paradigma, refere-se ao pensamento sistêmico, ao não-linear, ao multidimen- sional e integra a dinâmica dos efeitos de amplificação (In Jornal Meio Norte de 19-9-1999).

Fonte: MONTEIRO DE SANTANA, R. N. Evolução Histórica da Economia Piauiense e Outros Estados. 2ª ed. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2018, Coleção Centenário nº 78.

HOMERO Ferreira CASTELO BRANCO Neto

(1943). Quarto e Atual Ocupante da Cadeira nº 31 da APL. 

Homero Castelo Branco, ou Homero Ferreira Castelo Branco Neto, nasceu na cidade de Amarante, Piauí, em 3 de abril de 1943, filho do Des. Herbert de Marathaoan Castelo Branco e de Hosana Pontes Castelo Branco. O que sabe de saber, seu pai lhe ensinou. O que sabe fazer, o Piaui lhe ensinou. Na universidade aprendeu a verdade. No interior piauiense, viu a injustiça. Sempre esteve sob a égide da ação e da defesa de novas ideias, desde universitário. Estudou Economia na Universidade Federal do Ceará, onde participou ativamente de movimento estudantil na década de 60, sendo presidente do Diretório Acadêmico “Nogueira de Paula” da Faculdade de Ciências Econômicas; presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Ceará; membro do Conselho Universitário por dois anos, representando os estudantes universitários; membro da Comissão Central de Pesquisa; da Comissão Central de Ensino e da Comissão de Assuntos Econômicos para Estudo da Universidade Federal do Ceará. Por determinação do Conselho Universitário participou da comissão de Ampliação da Universidade Federal do Ceará (1966/1967). Estagiário da Superintendência do Desenvolvimento Econômico Cultural – SUDEC/Ceará; estagiário do ETENE – Banco do Nordeste do Brasil e do Departamento Estadual de Estatística DEE/Ceará. Tem Curso Intensivo de Cálculo e Estatfstlca Geral Superintendência do Desenvolvimento Econômico e Cultural – SUDEC/Ceará; curso sobre Profissão de Administração Staff, Consultoria e Projeto – Universidade Federal do Ceará e Instituto de Pesquisa Rodoviária; especialização em Desenvolvimento Industrial (duração de 360 horas), no The Geórgia Institute of Technology – E.U.A. Administração Municipal Instituto Tecnológico e de Estudos Superiores de Monterrey, Nova Leon no México; concluiu o Ciclo de Extensão da Escola Superior de Guerra do Estado Maior das Forças Armadas – Rio de Janeiro. Diretor Comercial da Rádio Difusora de Teresina; redator do jornal O Liberal em Teresina. Economista da Comissão de Desenvolvimento Econômico do Estado do Piauí; economista do Departamento de Ciências Econômicas do CCHL da Universidade Federal do Piauí. Professor do Liceu Industrial do Piauí e da Escola Técnica “Leão XIII”. Professor do curso de Formação Pedagógica para o pessoal docente do Ensino Técnico, das matérias: Introdução ao Desenvolvimento Econômico e Estatística Educacional da Diretoria do Ensino Industrial, Centro de Educação Técnica do Nordeste, com ação política voltada para discussão de novas propostas. Elege-se deputado estadual pela primeira vez em 1974, quando se integrou à Assembleia Legislativa do Piauí, exerceu o mandato seguidamente até o dia 1º de fevereiro de 2007.

Foi secretário de Planejamento do Município de Teresina, prefeito municipal de Teresina, subsecretário de Planejamento do Piauí’ secretário de Administração do Piauí, secretário de Fazenda do Piauí, secretário do Trabalho e Ação Social do Piauí. É cidadão honorário de 37 municípios piauienses e de Monterey no México. É condecorado em Nova Leon no México e Amarante de Portugal. Tem medalha do Mérito Legislativo, outorgada pela Assembleia Legislativa do Piauí; do Mérito Municipalista Piauiense, outorgada pela Associação Piauiense de Municípios; personalidade Cultural do Século, outorgada pela Academia de Letras da Região de Sete Cidades; sócio benemérito da Associação dos Engenheiros Agrônomos do Piauí; Medalha de honra ao mérito “Heróis do Jenipapo” outorgado pela Prefeitura e Câmara Municipal de Campo Maior; Sócio honorário da Academia Campomaiorense de Artes e Letras, por sua valorosa produção literária, Medalha do Mérito Conselheiro José Antônio Saraiva, outorgada pela Prefeitura Municipal de Teresina; Medalha Mérito Legislativo, outorgado pela Câmara Municipal de Teresina; Homenagem Especial da Assembleia Legislativa do Piauí em reconhecimento da valiosa participação nos trabalhos da Assembleia Constituinte de 1989. Certificado de reconhecimento da Associação Internacional de Lions Clubes; Láurea do Mérito cultural Firmino Teixeira do Amaral, da União Brasileira de Escritores do Piauí; Colaborador Emérito do Exército – 3o  Batalhão de Engenharia e Construção, Honra ao Mérito em reconhecimento pelos serviços prestados à Comissão de Desenvolvimento Econômico do Estado (CODESE), passo inicial da consolidação do Sistema Estadual de Planejamento; Mérito Cultural Poeta Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva; Mérito Cultural Bitorocara da Secretaria de Educação e Cultura de Campo Maior; Ordem do Mérito Pelicano de Ouro Lojas Maçónicas “Acácia Teresinense” e “Acácia Teresina II”; Comenda Cayru da Loja Maçónica “Fraternidade Campomaiorense”; Prêmio “Francisco Pereira”, da Academia Piauiense de Mestres Maçons (categoria Literatura e Civismo); participou da III Jornada de Integração Parlamentar Luso-Brasileira, realizada em Portugal e de vários outros seminários nacionais e internacionais. É maçom, foi orador, primeiro vigilante e venerável da loja maçônica “Caridade II”; Honra ao Mérito Parlamentar pela Grande Loja Maçônica do Piauí; Nome do plenário da Câmara Municipal de Marcolândia – Piauí; presidente do Jockey Club do Piauí; presidente do Lions Clube Teresina “Afonso Mafrense”. A produção literária de Homero é vasta e variada. São poucos os autores que conseguem, através da escrita, retratar com tanta fidelidade e leveza seus personagens. Parece até que você está assistindo ao desenrolar dos fatos onde o leitor imagina até o cenário onde acontecem. Escreveu e publicou os livros: Histórias do velho Homero; Auto Rosa; Padre Marcos; Temas de uma intensa vida parlamentar; Ecos de Amarante; Planejamento familiar e aborto:  uma  discussão  sem  hipocrisia;  100  dias  sem  rumo;  Agente  do desenvolvimento; João Paulo II; Do planalto a Guaribas; Voz do ontem; Grandes civilizações americanas; 2004 – Do sonho ao pesadelo; Acredito; Conversas soltas ao vento; Amor & outros males; Anjo ou demônio; Prevenção da cegueira; Ventos imprevisíveis; Instantes de eternidade; Alcides – o primeiro filósofo e o último coronel de Barras; Quando a porca torce o rabo; Sentimentos embalsamados; O Escritor; Imagem do Sol Poente e História do Piauí – Passageiros do Passado (2 volumes).

É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí; da Academia de Letras do Vale do Longá; da Academia de Letras do Médio Parnaíba, da Academia de Ciências do Piauí e da Academia de Letras e Artes de Floriano e Vale do Parnaíba (ALBEARTES); membro efetivo e perpétuo da cadeira nº 31 – Patrono João Crisóstomo da Rocha Cabral, da Academia Piauiense de Letras; Membro do Conselho Universitário da Universidade do Estado do Piauí – representando a Academia Piauiense de Letras; autor da lei que inclui o dia 13 de março de 1823 na bandeira do estado do Piauí e da criação de oito municípios. Casado com Hilma Martins Castelo Branco com quem tem três filhos: Geraldo, Verônica e Hosana Karinne e quatro netos. Católico apostólico romano, embora negligente participante. Gosta dos deuses pagãos para quem tem cantado em suas odes, mas não conta com eles para o dia da morte, que teme como uma noite sem madrugada.

ÁLVARO dos Santos PACHECO

(1933). Terceiro e Atual Ocupante da Cadeira nº 30 da APL. 

Poeta, jornalista e político, nascido em Jaicós, Estado do Piauí (1933). Bacharel em Direito pela Universidade do Rio de Janeiro (1958). O jornalista. No Piauí, manteve durante muitos anos uma coluna diária no jornal Folha da Manhã. Tem uma intensa atividade na imprensa carioca e paulista. Foi redator e crítico literário do Jornal do Brasil e do O Jornal. Colaborou com as revistas O Cruzeiro e Manchete. Fundou e dirigiu a Revista Arquitetura. Editor e empresário. Proprietário e fundador da Editora Artenova Ltda. (1962), um dos maiores parques gráficos do País. Proprietário da Empresa Artenova Filmes Ltda., produtora e distribuidora de filmes. Bibliografia. Suas poesias o situaram como um dos poetas mais expressivos de sua geração. Álvaro Pacheco estreou na literatura nacional em 1958, com o livro de poesias Os Instantes e os Gestos (1958), seguindo-se com Pasto da Solidão (1965); Margem do Rio Mundo (1966), poesias; O Sonho dos Cavalos Selvagens (1967); A Força Humana (1970); A Matéria do Sonho (1971); Tempo Integral (1973); O Homem de Pedra (1975); Balada do Nadador do Infinito (1984), obra premiada com o Prêmio Nacional de Literatura do Pen Clube do Brasil, 1985; Itinerários (1984); Seleção de Poemas, e por último lançou a Geometria dos Ventos (1992). Suas obras literárias alcançaram dimensão internacional, muitas delas estão inseridas um enciclopédias nacionais e internacionais. Num trabalho organizado pela União Brasileira do Escritores foi incluído entre os poetas mais importantes da atualidade, ao lado do Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes. Pertence à Academia Piauiense de Letras. Membro doConselho Federal de Cultura. O político. Suplente de senador pelo Piauí na legislatura 1987 a 1995. Esteve no exercício do mandato nos períodos de 03- 11-1987 a 16-11-1989 e retorna a 26-10-1992. Signatário da Constituição Federal promulgada no ano de 1988.

SÍNTESE

Tua alma é uma província estrangeira
como este corpo que se entrega ao teu
orgasmo
e nele entorpecido
se mantém no limite da loucura.
Teu corpo é uma estação desesperada
em que esta alma se embebeda e se sufoca
na terrível busca das visões – e da sua origem.

E neste leito onde assim se despedaçam
se realizam em síntese única e imponderável
a flor, a pedra, o caule, a chuva e as raízes.

SONETO LÍRICO

Escuta, ó minha amada, o tempo nunca para
e o sorriso mais puro definha e emurchece.
Quer seja alma generosa ou seja alma avara
quer seja anjo ou demônio, seja choro ou prece.

seja o dia escuro, seja a noite mais clara
quer seja o ódio que mata ou o amor que enlouquece
o destino insensato pra tudo prepara
o seu sopro fatal que aniquila e emudece.

Escuta, pois, ó amada, meu apelo enorme
acorda em tua alma teu desejo que dorme
e dissolve em meus braços teus sonhos fatais.

Vivamos com avidez o minuto que passa
amemo-nos por hoje, que tudo é fumaça
e nós dois amanhã não existiremos mais

(Os Instantes e os Gestos, 1958)

Comentários 

Encontro em O Sonho dos Cavalos Selvagens a confirmação de uma poesia que eu sentira viva e em desenvolvimento, e que agora se realiza em várias direções e experiências. O resultado é um impressão forte e duradoura. Poemas como “Mulher” encerram uma funda meditação lírico-existencial,em que o verso serve ao conhecimento, iluminando-o. (Carlos Drummond de Andrade)

Li os originais do seu novo livro, Balada do Nadador do Infinito, e quero louvar a originalidade do tema, o alto nível poético da forma, alcançado em clima de tensão que não decai ao longo dos numerosos poemas. Partindo do suicídio de um homem desconhecido, você como que teatralizou a angústia existencial em face do desconcerto do mundo. Saiu-se bem, sem resvalar nos lugares-comuns e no óbvio das coisas, ao entrecruzar vivências e ideias. Em resumo, não sacrificou a poesia com a abordagem fatual.

Esta Balada enriquece a sua obra literária, já valiosa. Mas não a subverte. Ajusta-se ao seu sentido geral, de alguma maneira clarificando-a. Parabéns. As inovações artesanais, as incursões no ministério demonstram que a sua poesia está em fase de plena vitalidade. (Vitto Raphael dos Santos)

MANFREDI Mendes de CERQUEIRA

(1925). Terceiro e Atual Ocupante da Cadeira nº 28 da APL. 

Magistrado, jurista, professor e conferencista, nascido em Piracuruca, Estado do Piauí, a 25-11- 1925. Pais: Francisco Paulo de Cerqueira e Judith Mendes Andrade Rocha. Bacharel em Direito pela Universidade de Minas Gerais. O Magistrado. Ex-promotor público das comarcas de Alto Longá, Buriti dos Lopes, Piracuruca e Teresina; advogado-geral do Estado; procurador da Justiça junto ao Tribunal de Contas. Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado (1978); presidiu o Tribunal Regional Eleitoral e o Egrégio Tribunal de Justiça. Na qualidade de presidente do Tribunal de Justiça do Estado, assumiu interinamente em setembro de 1990, as funções de Governador do Estado. Foi diretor da Escola da Magistratura Piauiense. Secretário de Interior e de Justiça do Estado. O Professor. Dirigiu o Ginásio Municipal de Piracuruca; chefe do Departamento de Ciências Jurídicas do Centro de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal do Piauí; membro da Comissão Permanente do Concurso de Vestibular. O Jornalista. Um dos mais atuantes da imprensa teresinense, destacando a sua colaboração com preciosos trabalhos no campo social e jurídico entre os quais destacamos: A Pobreza em Face de Dois Códigos, Abandono Voluntário do Lar, Da Representação no Crime, Dano ou Incêndio. Bibliografia. Como o Direito É, 1989; Teoria e Prática Falimentar; Justiça Criminal; Matéria Eleitoral, 1989, e Estudos da Organização Judiciária, 1989. Pertence à Academia Piauiense de Letras, ocupando a cadeira nº 28.

Excerto extraído da Revista da Academia Piauiense de Letras, ano 1993, escrito pelo Professor Manfredi Cerqueira:

A REGRA JURÍDICA É PRODUTO DO ESPÍRITO

A regra jurídica é pensamental, abstrata, geral, impessoal, contendo uma declaração de vontade do Estado sob a forma de preposição normativa, que tem como base o “fato axiologicamente dimensionado”, no dizer do Professor Arnaldo Vasconcelos, em sua Súmula de uma Teoria da Norma Jurídica – Revista do Curso de Direito, volume XXIII/1, 1982.

Assim, a princípio o legislador sente o fenômeno social e procura discipliná- lo por meio da lei, visando à adaptação social. No entender do mesmo Professor, “a norma jurídica incide sobre o fato, resultando daí o Direito, do qual decorrerá a prestação como dever-ser ou a não prestação, uma vez não se realize o dever-ser. Verificada a não prestação, poderá ocorrer a sanção, que antecede obrigatoriamente e autoriza a coação”.

No entendimento de Pontes de Miranda, “Direito, Moral, Arte, Religião, Política, Economia e Ciências são funções sociais, e por meio delas o indivíduo consegue viver em sociedade; são os seus instrumentos de adaptação social; a própria Ciência entra naquele rol e não é essencialmente diferente dos outros”. Se o seu fim específico é conhecer com segurança, – religião e moral, estética e política também acertam, porque todas são atividades contidas na função geral adaptação. Há, apenas, a favor da Ciência, a vantagem da maior firmeza, que deriva da objetividade de seus métodos. A Moda também é processo social da adaptação, sem a principalidade dos outros – “Sistema de Ciência Positiva do Direito”, III, 59, nº 8, edição de 1972.

O Ministro Firmino Ferreira Paz defende o ponto de vista de que o Direito se distingue dos demais fatos sociais de adaptação, por ser preventivo ou extintivo de conflitos sociais – Incidência de Regra Jurídica, Lex, 1988.

Consequentemente, a regra jurídica é pensada, criada, elaborada pelo Estado, instituído para servirão homem em sociedade.

A propósito, Kohler, vendo na lei, que é a expressão do Direito, “uma autonomia funcional que exige do intérprete um preparo mental extenso e sólido, para bem determiná-la”, assim pontifica: “Interpretar, diz ele, é procurar o sentido e a significação, não do que alguém disse, mas do que foi dito”. Complementando este raciocínio, Lehrbuch afirma:

“É um erro supor que o pensamento é escravo da vontade. A expressão, que o traduz, nem sempre o expõe em toda sua extensão e profundeza. Deve-se atender a que, em nosso pensar, existe uma parte sociológica ao lado da individual. O que pensamos não é somente trabalho nosso, é alguma coisa de infinito, por ser o produto da ideação de séculos e milênios, oferecendo uma tal conexão de ideias que o próprio pensador não percebe. Não se tem atendido, convenientemente, à significação sociológica da lei, e ainda se supõe que, para a formação da lei, apenas atua a vontade de legislador, quando se sabe que não é indivíduo, mas, sim, o grupo social, que faz a história.

Mas as leis não se deve interpretar de acordo com o pensamento e a vontade do legislador, e, sim, sociologicamente, como produções do grupo social de que o legislador se fez órgão” – citado por Clóvis Beviláqua, Teoria Geral do Direito Civil, 3ª edição, Livraria Francisco Alves, página 53, 1946.

Insta reconhecer, com apoio em Petrocelli, que o Direito se realiza tendo como base a vontade do homem e por meio da vontade humana. E como afirmavam os Escolásticos, é ele um acidente pessoal.

Comentários 

Manfredi Cerqueiro é o exemplo de uma vida dedicada ao ensino, ao estudo do Direito, ao exercício de atividades públicas. Uma vida consagrada à cultura. Uma vida impregnada de nobres ideais que alentam a mocidade. Queremos realçar, sobretudo, nesta oportunidade, a faceta mais saliente de vosso espírito: o jurista, o estudioso do Direito, o Professor Universitário, o Desembargador. São atividades convergentes para um mundo em que operam os fatos na moldura das regras jurídicas, da norma disciplinadora da atividade social do homem e dos fenômenos que entram no plano da valorização jurídica. (Paulo de Tarso Melo e Freitas)

Fonte: Revista da Academia Piauiense de Letras, 1988.
CERQUEIRA, Manfredi Mendes de. É Preciso Filosofar. 2ª ed. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2017, Coleção Centenário nº 97.

REGINALDO MIRANDA da Silva

(1964). Quarto e Atual Ocupante da Cadeira nº 27 da APL. Presidente da APL. 

Historiador, contista e cronista. Nasceu em 17 de agosto de  1964,  graduou-se em Direito  pela Universidade Federald o Piauí (1988). O Político. Foi vice-prefeito em sua terra natal. Bibliografia.

Bertolínea: história, meio e homens (1983); Cronologia histórica do município de Regenaração (2002); Aldeamento de Acoroás (2003); Piauí em Foco (2003); Vultos do História do Piauí (2004) e Arco do Velha (2004). Pertence à União Brasileira de Escritores (PI). Em 2002 foi agraciado com a Ordem do Mérito Municipal de Regeneração. Ex-Presidente da Academia Piauiense de Letras.

Excerto do seu discurso de posse na Cadeira nº 27 da Academia Piauiense de Letras, proferido no dia 18.10.2006:

Essa história de academia vem de longe. Foi na França pré-iluminista de Luís XIII (1601-1643) que nasceu e se consolidou a primeira academia de letras da Era Moderna. Nascida sob o gênio de Richelieu (1585-1642), teve inspiração etimológica na vetusta escola grega do filósofo Platão, fundada por volta do ano 387a.C., nos jardins que anteriormente teriam pertencido ao herói Akademus. Professando a dialética socrática ensinava aquele célebre filósofo grego, que o conhecimento nascia do questionamento e do debate.

Inspiradas nesse ensinamento da escola grega, nos primeiros anos do ministério do cardeal Richelieu (1624-1642) nasceram diversas instituições literárias em solo francês. Todavia, de existência efêmera, todas essas instituições desaguaram na fundação da famosa Académie Française, em 1635. Por questão de justiça, registre- se também a fundação de duas instituições efêmeras na Itália, que antecederam a Académie Française, quais sejam: a Academia de Florença, de 1570, e a Academia dei Licei, de 1609, todas desaparecidas sem maiores consequências.

De fato, foi a instituição francesa que serviu de modelo para diversas outras que foram organizadas, posteriormente, a exemplo das falecidas academias dos Generosos (1647) e dos Singulares (1663), em Portugal. No Brasil colonial, pode- se relacionar a fundação da Academia Brasílica dos Esquecidos, na Bahia, em 1724, da Academia dos Felizes, no Rio de Janeiro, em 1736, e, por fim, novamente na Bahia, em 1759, da Academia Brasílica dos Renascidos, em nítida referência à anterior. Todavia, todas essas instituições desapareceram, somente sobrevivendo a francesa, que foi oficializada pelo Estado.

Depois dessas e de outras tentativas frustradas, sob a liderança de Lúcio de Mendonça, foi fundada a Academia Brasileira de Letras, nos moldes da francesa, com quarenta cadeiras e membros vitalícios. A sessão inaugural data de vinte de julho de 1897, presidida por Machado de Assis, eleito por aclamação. Desde então, cada Estado-membro tratou de criar a sua academia de letras. A do Piauí nasceu com certo atraso, vinte anos depois. A primeira tentativa de fundação data de 1901, sem sucesso. O segundo movimento que desaguou na fundação dessa academia de letras foi liderado pelo poeta e magistrado Lucídio Freitas, então residindo no Pará, quando de viagem ao Piauí. Inspirado no exemplo da academia de letras que ali vicejava, reuniu os intelectuais que viviam em Teresina, entre os quais seu pai Clodoaldo Freitas, grande referência literária daqueles dias e fundou a Academia Piauiense de Letras, cuja sessão inaugural foi realizada em trinta de dezembro de 1917. Estava, assim, criada e instalada a Academia Piauiense de Letras, sob a liderança já referida de Clodoaldo e Lucídio Freitas, contando com a adesão dos principais intelectuais piauienses, entre os quais, Abdias Neves, Higino Cunha, João Pinheiro, Jônatas Batista, Baurélio Mangabeira, e alguns outros. Ao longo do tempo, a “Casa de Lucídio Freitas”, como foi cognominada esta instituição cultural, abrigou os principais intelectuais e expoentes do Piauí, citando-se a título exemplificativo, entre os que já se foram, Esmaragdo de Freitas, Deolindo Couto, Cromwell de Carvalho, Mário Baptista, Celso Pinheiro, Fontes Ibiapina, Martins Napoleão, João Cabral, Camilo Filho, Cristino e Carlos Castelo Branco, Zito Batista, Odylo Costa Filho, Félix Pacheco, Renato Castelo Branco, Matias Olímpio, Gayoso e Almendra, Da Costa e Silva, Isabel Vilhena, Alvina Gameiro, Simplício Mendes, Arimatéa Tito Filho, Cláudio Pacheco e tantos outros.

Fontes: MIRANDA, Reginaldo. Aldeamento dos Acoroás. 2ª ed. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2012, Coleção Centenário nº 7.