Manoel PAULO NUNES

(1925). Primeiro e Atual Ocupante da Cadeira nº 38 da APL. 

Professor, conferencista, escritor, crítico literário e jorna lisa. Nasceu em Regeneração, Estado do Piauí, a 14-10-1925. Bacharel em Direito pela Faculdade

do Piauí. Pais: Francisco de Paulo Teixeira Nunes e Raimunda da Silva Nunes. Exerceu na área da educação e cultura os mais Importantes cargos e funções: professor de Português nos colégios “Demóstenes Avelino” e “São Francisco de Sales”. Lecionou Literatura na Faculdade Católica de Filosofia de Teresina e na Universidade Federal do Piauí, onde era professor titular. Presidiu a Fundação do Ensino Superior do Estado e a Fundação Cultural do Piauí. Foi membro do Conselho Estadual de Cultura e da Comissão de Especialistas na Área de Educação (MEC). Exerceu, também, os seguintes cargos e funções: técnico em Assuntos Educacionais (MEC), Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí e chefe da Representação da Universidade Federal do Piauí, em Brasília. Pertence à Academia Piauiense de Letras, ocupando a cadeira de nº 38, cujo patrono é João Francisco Ferry. A solenidade de sua posse ocorreu em 28-8-1967. Ex-presidente da Casa Lucídio Freitas. Ex- secretário de Cultura do Piauí. Colaborador assíduo e atuante da Imprensa piauiense. Tem trabalhos publicados nos jornais O Dia, Jornal do Piauí, Folha da Manhã, Correio Braziliense e no Jornal de Brasília. Publicou, também, trabalhos nas revistas Clube dos Advogados do Brasil, secção do Piauí, e na Panóplia. Bibliografia. A Geração Perdida, ensaios e notas críticas, 1979; A província Restituída, ensaios e estudos, 1985; O Discurso imperfeito, notas para a história da educação brasileira (1988), e Tradição e Invenção, discursos acadêmicos, 1992.

Manoel Paulo Nunes escreve sobre uma das maiores figuras de nossa cultura: um homem de expressão.

O EXEMPLO QUE FICA

Li há algum tempo interessante comentário de Josué Montello a propósito do desaparecimento de Antonio Lopes, mestre acatado da crítica histórica maranhense e espécie de guia espiritual das novas gerações daquele Estado.

O tema comporta uma larga meditação a propósito da contribuição que tem prestado à vida intelectual dos Estados, onde não existe grande imprensa e as ideias circulam geralmente pela oralidade, através da cátedra ou das bancas de cafés, o apostolado de figuras que se alteiam como verdadeiros luminares no panorama asfixiante da vida intelectual da província.

Tornaram-se eles perfeitos criadores de símbolos e responsáveis por uma salutar renovação de valores, no clima de desencanto em que muitas vezes mergulham, à falta de maiores estímulos, as mais afoitas inteligências.

O fato que me trouxe à lembrança a contribuição do saudoso professor Clemente Fortes à cultura piauiense. Embora não tenha deixado obra escrita através da qual pudesse ser julgado e admirado pelos pósteres, constitui-se, entretanto, em figura realmente de exceção na vida cultural do Estado.

O que sobretudo impressionava aos que de perto conviveram com Clemente Fortes não era apenas a figura do professor, e grande e brilhante expositor que se foi, dono de palavra fácil, rica de emoções e possuindo o invejável  dom  da comunicabilidade, fosse na explanação de sistemática jurídica, de teorias literárias, de linguística ou de doutrinas filosóficas.

O que nele nos causava admiração era, antes de tudo, a capacidade permanente de atualização, em quem, convivendo com os clássicos, bebendo-lhes aos jorros a elegância de estilo e sabedoria, não perdia nunca o contato com os temas atuais.

Recordo-me a propósito, de observação lida a respeito de Azorin, o mestre da novelística espanhola, de quem se disse que se ama o passado emocionante, e porque o ama emocionalmente pode e sabe trazê-lo ao presente, porém não mumificado, como restos anquilosados, com técnica de arqueólogo, senão vivo e palpitante, suculento, atual. E ainda nas contradições em que às vezes incorre ao julgar em duas épocas distantes uma mesma obra, mostra o renovado de suas vivências, o permanente atualiza-se.

Esta a exata perspectiva em que poderemos situar no meio piauiense a atuação profunda e renovadora de Clemente Fortes. Professor, humanista, educador, homem de seu tempo, nele se sentia uma inteligência permanente, inquieta e perquiridora, sempre inclinada a uma nova atitude intelectual de que pudesse resultar a descoberta de caminhos novos, na deslumbrante aventura do espírito.

Isto lhe trouxe a facilidade no convívio com as novas gerações, descobrindo, em contato com os jovens, as mais diferenciadas tendências, procurado encaminhar- nos, dentro daquele clima de exigências que tanto o caracterizam como educador, ora para os estudos de história, de economia ou direito, ora para os de linguística ou literatura, forcejando por transformar cada um de nós em especialista, no campo do magistério, que todos os que de perto privamos de sua inestimável companhia fomos feitos professores.

Vale lembrar ainda em Clemente Fortes o gosto da análise, o impressionante dom de racionalizações, procurando extrair dos acontecimentos, sobretudo os de ordem política e social, nos quais repercute mais de perto a crise de nosso tempo, a exata perspectiva que eles nos possam oferecer, a fim de que nos situemos com objetividade e lucidez.

Daí porque mantinha sempre inalterável a capacidade de ver claro, lúcido o raciocínio, sereno o julgamento, livre de emoções de capacidade de sentir, quando a violência dos fatos e a mesquinharia das paixões imediatas nos tiram a isenção de ânimo e a frieza do julgamento.

Este estilo de vida de Clemente Fortes, mestre de uma geração, aquela que mais de perto sentiu o influxo de sua personalidade multifária, exuberante e comunicativa  e auferiu os benefícios prodigalizados pela sua riqueza intelectual.

Mas não poderia deixar de consignar aqui uma breve referência ao seu velado ceticismo, palpável quando a si próprio se propunha a angústia do temporal e meditava sobre a fugacidade das coisas terrenas, atitude que o faria aproximar-se do quietismo dos clássicos portugueses, com nítidas repercussões no seu culto a Montaigne e Machado de Assis.

Era esse seu ceticismo também uma defesa com que se amava para o julgamento dos fatos contemporâneos, sobretudo quando neles estão envolvidos os donos da verdade, os que procuram impor a todo o custo seus mitos de ocasião, que possuam quando mito aquela durabilidade do sol de um dia, invocada no soneto célebre de D. Francisco Manuel de Melo.

Durante toda sua breve existência, manteve-se ele fiel a este ideário, através de todas as vicissitudes de uma vida sempre alterada pelo mais constante exemplo de dignidade pessoal, quando o arrebatou a morte escura da trágica imagem do verso camoniano, neste último natal de dor e amargura para os que com ele conviveram e lhe sentiram a grandeza espiritual, deixando um pouco mais empobrecida a terra piauiense.

Em sua homenagem desejaria acrescentar as palavras finais do In Memoriam de Jorge Luís Borges dedicadas ao grande Alfonso Reys.

“No profenen las lagrimas el verso
Que nuestro amor inscribe a su memória.” 

Teresina, janeiro de 1975.

Comentários 

Educador na mais legítima acepção do vocábulo. Dedicou o melhor de seu esforço e inteligência à causa da educação brasileira| da qual é emérito estudioso e incentivador. Crítico literário percuciente e perspicaz, mercê de sua vasta erudição e acuidade intelectual que lhe permitem dissecar com proficiência e precisão a obra objeto de sua investigação e análise literária (Elmar Carvalho).

Fonte: NUNES, M. Paulo. Modernismo e Vanguarda – 3ª Série. 3ª ed. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2014, Coleção Centenário nº 22.
NUNES, M. Paulo. Modernismo e Vanguarda – 4ª Série. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2015, Coleção Centenário nº 54.
NUNES, M. Paulo. Modernismo e Vanguarda – 2ª Série. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2017, Coleção Centenário nº 98.