HEITOR CASTELO BRANCO Filho

(1929). Terceiro e Atual Ocupante da Cadeira nº 37 da APL. 

Engenheiro, escritor e jornalista, nascido em Teresina, Estado do Piauí, a 20-06-1929. Descende de uma família de escritores. Filho de Heitor Castelo Branco e de Emília Leite Castelo Branco. O pai, Heitor Castelo Branco, é patrono da cadeira nº 37 da Academia Piauiense de Letras. A mãe, Lili Castelo Branco, também foi ocupante da referida cadeira, que anteriormente foi ocupada por sua irmã, a escritora Lilizinha Castelo Branco de Carvalho. Obras publicadas: Rio Parnaíba Providências Suplementares à Construção do Porto de Luís Correia, trabalho técnico; Heitor Castelo Branco, Perfil de Um Republicano, biografia; O Sócio da Onça, aventuras; Paz e Guerra na Terra dos Carnaubais, romance histórico, 2ª edição em editoração; Vis Cômica, crônicas; O Pinto Calçudo e Outras Estórias Infantis, contos infantis; Crônicas Marajoaras, crônicas; Petrônio, uma Vocação, biografia; Coronel Pedro Freitas, uma Lição de Vida, biografia; Afinal, quem é Clidenor de Freitas Santos, biografia; O Marisqueiro da Amazônia, romance de aventuras; Piauí para Principiantes, crônicas; Amor de Uma Vida, Vida de Um Amor, romance publicado em capítulos no jornal O Estado; Porque Estava Escrito, romance publicado em capítulos no jornal O Estado; Antônio Gayoso, um Cidadão de Elite; Genu, a Musa de uma Geração; Crônicas da Vida, crônicas publicadas no jornal O Estado; As Academias: História e Importância, tese Acadêmica, no discurso de posse; Arrematei um Zumbi, romance; O Micro paro Principiantes, técnico-educativo. Membro da Academia Piauiense de Letras. Vice-presidente da Academia de Letras e Belas Artes, Vale do Parnaíba – ALBEARTES. Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Estado do Piauí.

A NOIVA DO BOTO

Rosilda era trigueira, olhos grandes e sonhadores, cabelos pretos como a seiva do jenipapo. Busto pequeno, ereto, cintura de pilão e com pernas muito bem torneadas. Pele que fugia da mulata para a cor dos apetitosos jambos, frutinha lasciva como a própria Rosilda.

Moravam em Marajó, na Fazenda Gavinho, dos Engelhard. Fazendo robusta de muitas mil cabeças de gado. Seu pai, o Bernardo, era um dos feitores da propriedade. Caboclo forte, exímio laçador de bois nas pradarias, era respeitado pelos vaqueiros da região, pela sua habilidade com o laço. Tinha meia dúzia de filhotes, duas moças.

– Rosa, já casada, Rosilda, e quatro rapazes, – quatro latagões, afeitos às lides do traquejo do gado.

A Fazenda Gavinho ficava à margem de um largo rio, no município de Soure, com trapiche de embarque para acostagem de grandes barcos que conduziam os bois produzidos, para Belém, onde eram abatidos no CURRO do MAGUARI, moderno abatedouro do Estado.

Rosilda, de uns tempos para cá, ao entardecer, deu de ir para a “fonte” na margem do grande rio. Batia alguma roupa e tomava seu banho vespertino. Voltava já quase escuro, após o pôr do sol.

A mãe sempre a advertia dos perigos das águas guajarinas, prenhes de grandes peixes e de botos, que volta e meia faziam das suas. Contavam-se muitos acontecidos com o boto Tucuxi, que encantava donzelas e as fecundavam. Rosilda sorria dessas abusões de sua ingênua mãe. Dizia:

– Mãe, num vê que isso tudo é pabulice do povo. Boto num mexe cum ninguém. Boto é bicho, cuma iria fazê amô cum moça? Inté tem um bando deles muito mansinho que vive perto da beira; tem um, intão, que todo dia eu jogo cumida pra ele!

Essas perorações, contudo, não modificavam o ponto de vista da mãe de Rosilda.

Ultimamente Rosilda andava mais sonhadora que o trivial Cantava modinhas dolentes, de amor, do folclore marajoara. Mas não tinha namorado, pelo menos à vista.

Certo dia Rosilda começou a ter vômitos, calores súbitos e mal-estares. Atribuiu-se ao consumo excessivo de bacuris, frutas que Rosilda consumia muito, mas que eram um tanto ácidas e indigestas.

O tempo foi passando e um belo dia a mãe desconfiou que a barriguinha de Rosilda estava crescendo além do normal.

Conversa vai, conversa vem, Rosilda admitiu que de fato o boto tinha se afeiçoado muito a ela. Quase todos os dias ela dava-lhe comida na boca, e certo dia confessara que tivera uma “dormição” repentina, e que quando acordara sentira um certo ardor em seu órgão mais íntimo.

O caso causou sensação. Todos admitiram que Rosilda engravidara do boto Tucuxi, já que ninguém vira, uma vez sequer, algum rapaz aproximar-se de Rosilda. Havia unanimidade nesse ponto.

Admitiu-se o fato consumado, como um dos tantos acontecidos.

Um mês decorrido do incidente, houve a novena de S. Sebastião, que é santo muito prestigiado na Ilha.

Apareceu um rapaz que morava às margens do grande rio, distante, porém, quase uma hora de canoa, – que é como os marajoaras medem as distâncias. O jovem chamou Bernardo para um particular, e sem maiores rodeios pediu a mão de Rosilda. Bernardo ficou perturbado com o inusitado da proposta. Pediu ao rapaz tempo para pensar um pouco e consultar a família. Dentro de algumas horas, mais precisamente, depois da novena, daria a resposta.

Reunida a família ficou acorde que teriam de esclarecer a gravidez de Rosilda. Não poderiam, hipótese alguma, enganar o pretendente. Também consultou-se Rosilda sobre se aceitaria o rapaz no caso em que fosse suplantada a dificuldade. Rosilda disse que o rapaz lhe era simpático. Faria gosto.

Após a novena, José, o pretendente, foi convidado para a casa de Tomaz. Reunidos os interessados, isto é, o pai, a mãe, Rosilda e José, foi esclarecido o problema de Rosilda, que estava grávida de dois meses de um boto.

  • Num queremo Já sabe do acunticido. Num causa disgosto rejeitar u pidido, – falou com franqueza Bernardo.
  • Eu arripito u pidido, seu Eu sou o boto que imprenhou a Rosilda.

(In Crônicos Marajoaras)

Comentários 

A convivência de nove anos com a natureza amazônica e as paisagens humanas e sociais que encantaram seus pais terminou inoculando no escritor o desejo de pincelar essas paisagens. […] O Marisqueiro da Amazônia e Crônicas Marajoaras, em que o estilo de um narrador seguro e consciente se projeta na fabulação bem concebida de histórias ricas de ensinamentos de vida. (Herculano de Moraes, in: Jornal Meio Norte, abril- 1998.