DAGOBERTO Ferreira de CARVALHO JÚNIOR

(1948). Terceiro e Atual Ocupante da Cadeira nº 25 da APL. 

Médico. Pesquisador (Arquivo Histórico Ultramarino/Instituto de Cultura e Língua Portuguesa-Lisboa). Historiador (Mestrado em História pela Universidade Federal de Pernambuco). Natural  de  Oeiras,  Estado  do  Piauí  (1948).

“Historiador e intérprete da história política e social do povo do sertão de dentro e do Piauí”, prof. A. Tito Filho. Obras publicadas: História Episcopal do Piauí, 1980; Passeio a Oeiras, 1982; A Obstetrícia no Piauí, 1989; A Tábula de Retalhos no Piauí, 1990, e A Palavra e o Tempo, 1992. Opúsculos: José Luiz da Silva: de Cirurgião da Armada a Primeiro Médico do Piauí, 1980; Um Tempo do Recife, 1982, e A Cidadela do Espírito – considerações sobre a arte sacra na obra de Eça de Queiroz (1944). Pertence às seguintes instituições: Academia Piauiense de Letras, cadeira nº 25; Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco; Instituto Histórico de Oeiras; Comitê Norte- Nordeste de História da Arte; Academia de Artes e Letras de Pernambuco (Emérito); Instituto Histórico de Olinda; Instituto Histórico de Vitória de Santo Antão e à Sociedade Brasileira de Escritores Médicos – Regional do Piauí (presidente e fundador).

CATEDRAL DE OEIRAS (1733-1983)

Sinopse Histórica

A matriz de Nossa Senhora da Vitória de Oeiras é o primeiro templo regular do Piauí e a mais antiga igreja de todo o Estado. Sua construção data de 1733. A ereção canônica, de 1696. Nesse ano, criou D. Frei Francisco de Lima, Bispo de Pernambuco, jurisdição eclesiástica a que então se sujeitava todo o imenso Sertão de Rodelas, a Freguesia de Nossa Senhora da Vitória. O local escolhido, aceitas as sábias considerações do Padre Visitador Miguel de Carvalho em sua famosa Descrição do Sertão do Piauí, publicada, depois, por Ernesto Ennes em A Guerra dos Palmares, foi o Brejo da Mocha. A decisão, tomou-se na Fazenda Tranqueira em 11 de fevereiro de 1697, lavrando-se a ata que se transcreve pela importância documental do que para história registra:

Anno do Naçim.to de Nosso Senhor Je Chisto de mil e seissentos e noventa e sette aos honze dias do mês de fev.ro estando o R. do Vig.ro da Vara o Lecenciado Miguel Carvalho na faz.da do tranq.ra nas caza da morada de Antônio Soares Thouguiam, mandou vir perante si os moradores nomeados na Pastoral q. trazia do llustrissimo, e Reverendissimo senhor Bispo de Pernambuco, e em presença delles e dos mais Abayxo a asignados, a mandou ler, e declarar, por modo q. todos a entenderão e lhe pediu seos votos p. a eleição do lugar em q. se divia fundar a Nova Matris de Nossa Senhora da Victoria, e Conusultando entre todos, asentarão, votarão e detriminarão, que se fundaçe, e fizece a Ig.ja no Brejo, chamado a Mocha por ser a parte mais conveniente aos Moradores de toda a Povoação, ficando no meio della com iguais distançias, e Caminhos p. a todos os riachos e partes povoadas e detriminada a Sobre dita parte, se elegeu p. a todos os riachos e partes povoadas e detriminada a Sobre dita parte, se elegeu p. a lugar de Ig.ja e Cazas do R. do cura, o taboleiro que se acha pegado a passayem do Jatubá p. a a parte do todo o Breyo do sobre dito Riacho da Mocha, e de como assim o detriminarão Mandou o R. do Vig. Rio da vara fazer este termo, q. asignou com todos os que Baixo se Contem. E eu Antônio dos Santos e Costa escrivão eleito o escrivi.

 

Miguel D. Carvalho
Jozeph Gracia
Antº da Cunha Sotto Mayor
Francº Machado
Chistovão de Britto de S. Paijo
Antonio Soares Thouguia
Francº Cardoso da Rosa
Pedro Nunes Pinheyro
Pe. Alz dOlivrº
Ants Dantes de Azdº
Frc  Dias de Siqº
Antº Nunes Barreto”

 

Já a 2 de março de 1697, estava solenemente inaugurado, de taipa e pindoba, primeiro templo regular do Piauí em derredor do qual prosperaria a povoação do Mocha. Estava plantada entre nós a semente da fé. Esta capela primitiva constava, diz o termo, “de 24 palmos de comprido e doze de largo, feita com a decência possível…” Mas, já naquela data recuada em que “deu o Ver. Vigário da Vara posse ao novo Cura o Ver. licenciado Thomé de Carvalho e Silva, da nova capela, com todas as cerimônias costumadas de fechar e abrir portas, consertar altar, abrir e fechar missal, estender e dobrar corporais, dobrar e desdobrar ornamentos e ultimamente lendo publicamente ao povo a Provisão que trazia do Ilustríssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo de Pernambuco”, benzeu também o Padre Miguel “um quadro que de redor da capela consignou com marcos de pedra para sepultura de defuntos e donde se há de fazer a nova igreja, o qual tem cem passos de comprido e sessenta de largo”. A atual matriz de Oeiras, igreja principal do Piauí, estava, portanto, nos planos imediatos dos fundadores da freguesia. Thomé de Carvalho, Vigário fundador foi quem a construiu, como hoje a temos, de pedra e saibro, inaugurando-a trinta e seis anos depois da bênção da primeira capela. O documento maior, é, sem dúvidas, a inscrição latina contida em arranjo floral sobre a portada da nave: HOC EST DOMUS DOMINI – FIRMITER AEDIFICATA ANNO DOMINI 1733.

A própria cidade é, bem podemos dizer, um presente da Igreja de Nossa Senhora da Vitória. Criada a freguesia em 1696, definiu-se o povoamento. Em 1712, veio a Vila do Mocha que se instalou solenemente em 26 de dezembro de 1717. No ano seguinte criou-se a Capitania. Em 1758 nomeou-se o primeiro governador. Em 13 de novembro de 1761, impôs João Pereira Caldas, investido nessa função a 29 de setembro de 1759, o nome Oeiras à Vila do Mocha. Homenageava assim o Ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, então Conde de Oeiras, depois Marquês de Pombal. À Capitania deu Pereira Caldas o nome de São José do Piauí, em honra de S. M. o senhor D. José. Oeiras foi a capital do Estado até 1852.

Também a história religiosa do Piauí prende-se de tal modo à Matriz de Oeiras que de uma não se pode falar sem que da outra muito se diga. Sede do Vicariato Geral do Piauí desde 1769 até o governo eclesiástico do Cônego João de Sousa Martins (1840-1871), foi a referida igreja cogitada inúmeras vezes para Catedral da Diocese do Piauí. Se a tal não chegou em virtude da mudança do governo temporal – a Diocese do Piauí só foi criada pela Bula Supremum Catolicum Eclesiam de 10 de março de 1901 – é, desde 1944, sede da Diocese de Oeiras.

As reformas porque passou a igreja não foram muitas nem a descaracterizaram a ponto de não a podermos ter como monumento maior do Piauí. De arte e de fé. De história, sobretudo. É monumento tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e foi recentemente restaurada pelo Programa de Cidades Históricas e Coloniais do Nordeste, da Secretaria de Planejamento da Presidência da República.

Fonte: CARVALHO JR., Dagoberto. Estação Saudade: memórias recorrentes. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2015, Coleção Centenário nº 35.