Fundada em 1917, instituição atravessou mais de um século de transformações, reuniu gerações de intelectuais e teve na eleição de sua primeira mulher presidente um dos marcos de sua trajetória.
Em uma sala de Teresina, no dia 30 de dezembro de 1917, um grupo de intelectuais decidiu transformar um sonho em instituição. A proposta era reunir escritores e pensadores em torno de um objetivo comum: cultivar a língua portuguesa e fortalecer a literatura produzida no Piauí. Nascia ali a Academia Piauiense de Letras (APL), uma casa que, mais de um século depois, continua guardando parte importante da memória cultural do estado.
A fundação reuniu nomes como Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, João Pinheiro, Lucídio Freitas e outros intelectuais que acreditavam na força da palavra escrita. Na primeira eleição da diretoria, Clodoaldo Freitas foi escolhido presidente. Começava, assim, uma história que seria construída por diferentes gerações, cada uma com seus desafios, suas contribuições e sua maneira de compreender o papel da literatura na sociedade.
A trajetória da Academia não se resume a uma sequência de mandatos. Ela acompanha as mudanças da própria vida intelectual piauiense: da organização dos primeiros círculos literários à consolidação de uma instituição centenária, dedicada à preservação da memória, à produção cultural e à valorização de seus escritores.
Os primeiros anos e a construção de uma tradição
Depois de Clodoaldo Freitas, que presidiu a instituição entre 1917 e 1919, Higino Cunha assumiu a liderança. Seu primeiro mandato foi de 1919 a 1924, retornando ao cargo em 1929 e permanecendo até 1943. Entre esses dois períodos, Mathias Olímpio esteve à frente da Academia, de 1924 a 1929.
A longa permanência de Higino Cunha na presidência demonstra a importância da continuidade nos primeiros anos da entidade. Em uma época na qual manter instituições culturais exigia mobilização e compromisso de seus integrantes, a Academia procurava firmar seu espaço na vida intelectual do Piauí.
A partir de 1943, a presidência passou por Martins Napoleão, que permaneceu até 1946, seguido por Álvaro Ferreira, de 1946 a 1954. Clidenor Freitas Santos assumiu em 1954 e conduziu a instituição até 1959. Eram diferentes nomes e trajetórias reunidos por uma mesma missão: manter viva a literatura piauiense e preservar a memória de seus autores.
De Simplício Mendes a A. Tito Filho: décadas de transformação
Em 1959, Simplício Mendes assumiu a presidência e permaneceu no cargo até 1971. Sua gestão antecedeu um dos períodos mais longos e marcantes da história da Academia.
Foi em 1971 que A. Tito Filho chegou à presidência. Jornalista e escritor, ele permaneceu à frente da instituição até 1992, atravessando mais de duas décadas da história cultural do estado.
Durante esse período, a Academia consolidou sua presença institucional. Um marco importante ocorreu em 1986, quando conquistou sua sede própria, instalada na Casa de Lucídio Freitas, em Teresina. O espaço tornou-se referência para as atividades acadêmicas e para a preservação da memória literária piauiense.
A conquista da sede representou mais do que a obtenção de um endereço permanente. Significou a possibilidade de fortalecer a identidade da instituição e oferecer um espaço próprio para reunir escritores, preservar documentos e manter viva a tradição que havia começado em 1917.
A virada do século e a continuidade da missão literária
Com o encerramento da longa gestão de A. Tito Filho, M. Paulo Nunes assumiu a presidência, de 1992 a 1995. Nos anos seguintes, a instituição foi conduzida por Wilson de Andrade Brandão, entre 1996 e 1997, e Celso Barros Coelho, entre 1998 e 1999.
Na virada para o século XXI, R. N. Monteiro de Santana presidiu a Academia de 2000 a 2001. Em seguida, Paulo de Tarso Mello e Freitas esteve no cargo de 2002 a 2005, e Manfredi Mendes de Cerqueira, de 2006 a 2009.
A sucessão desses dirigentes revela uma característica fundamental da APL: sua capacidade de atravessar diferentes períodos históricos sem abandonar o compromisso com as letras. Mais do que uma entidade dedicada a homenagear escritores, a Academia se mantém como espaço de encontro entre diferentes áreas do conhecimento e de preservação da produção intelectual do estado.
Entre 2010 e 2013, a presidência ficou com Reginaldo Miranda da Silva, historiador ligado à pesquisa e à memória piauiense. Na sequência, Nelson Nery Costa assumiu a direção e permaneceu por três mandatos consecutivos, de 2014 a 2019.
Já entre 2020 e 2023, foi a vez do jornalista e escritor Zózimo Tavares conduzir a instituição. Sua gestão atravessou o período da pandemia de Covid-19, quando instituições culturais precisaram enfrentar desafios para manter suas atividades e sua relação com o público.
Fides Angélica e um marco para a história da Academia
Em 2024, a Academia Piauiense de Letras passou a ser presidida por Fides Angélica Ommati, que se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo em mais de um século de história.
Sua eleição representou um momento significativo para a instituição. Tradicionalmente presidida por homens, a APL passou a ter uma mulher na liderança, ampliando a representatividade feminina em um espaço historicamente marcado pela presença de intelectuais de diferentes gerações.
Durante sua gestão, Fides Angélica esteve à frente da entidade até a transmissão do cargo, em janeiro de 2026. Sua passagem entrou para a história da Academia não apenas pela quebra de uma tradição, mas também pelo significado simbólico de uma nova etapa na composição de sua liderança.
Antônio Fonseca Neto e os próximos capítulos
Em dezembro de 2025, os acadêmicos elegeram Antônio Fonseca dos Santos Neto para presidir a instituição no biênio 2026–2028. A posse ocorreu em 24 de janeiro de 2026, marcando o início de um novo capítulo na trajetória da Casa de Lucídio Freitas.
Historiador e intelectual, Fonseca Neto assume a responsabilidade de conduzir uma instituição que carrega mais de cem anos de história. Sua gestão sucede a de Fides Angélica e reafirma a continuidade de uma tradição construída por diferentes gerações de escritores e pesquisadores.
A presidência da Academia representa, nesse contexto, mais do que uma função administrativa. É também a responsabilidade de preservar um patrimônio intelectual, valorizar a produção literária do Piauí e manter a instituição conectada às transformações culturais de seu tempo.
Uma história que continua sendo escrita
De Clodoaldo Freitas a Antônio Fonseca Neto, a história dos presidentes da Academia Piauiense de Letras revela a permanência de um projeto iniciado em Teresina, em 1917. Ao longo desse percurso, a instituição passou por diferentes lideranças, conquistou sua sede própria, ampliou sua presença cultural e abriu espaço para mudanças importantes em sua representação.
Cada presidente deixou sua marca em uma trajetória coletiva. Alguns permaneceram por décadas; outros estiveram no cargo por períodos mais curtos. Todos integram a sucessão de dirigentes que ajudaram a manter viva a missão da Academia.
Mais de um século depois de sua fundação, a APL continua diante de uma tarefa que vai além da preservação do passado: fazer com que a literatura e a memória intelectual do Piauí permaneçam relevantes para as novas gerações.
A história dessa instituição, afinal, não está guardada apenas em livros, arquivos ou paredes. Ela continua sendo escrita por aqueles que acreditam que preservar a palavra é também preservar a identidade de um povo.
Por: Sol Castelo Branco