O menino que foi dado como morto aos 2 anos chega aos 100

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Celso Barros na Academia Piauiense de Letras.
Celso Barros na Academia Piauiense de Letras.

Zózimo Tavares

Presidente da APL

Ele nasceu em Pastos Bons, verdejante município do Sul do Maranhão, e criou-se às margens do Rio Parnaíba.

Com dez anos de idade, seu pai, Francisco Coelho de Sousa, chegava com a família a Benedito Leite, cidade maranhense localizada na foz do Rio Balsas, defronte à próspera cidade de Uruçuí, no Sul do Piauí.

A família se mudava da cidade natal a convite de uma irmã paterna, Maria Rocha Leal (Arica), casada com Manoel Mendes Leal, pais de Sebastião da Rocha Leal e Raimundo da Rocha Leal, que fizeram carreira política no Piauí e no Maranhão, respectivamente.

Os dois irmãos chegaram à presidência das Assembleias Legislativas dos dois Estados. Sebastião Leal foi também vice-governador do Piauí.

Orfandade

Francisco Coelho viria a morrer dois anos depois da chegada a Benedito Leite, aos 34 de idade.

Com seu precoce falecimento, coube à viúva, Alcina Barros Coelho, a criação dos sete filhos que deixara.

Passaram os filhos, então, aos cuidados e à educação dos parentes, dado o estado de pobreza em que ficara a viúva, entregando-se ao trabalho doméstico e de costureira.

Celso passou a viver na companhia da tia Arica, como ajudante do estabelecimento comercial do marido dela.

Mas o menino de 12 anos não sentia atração pelo trabalho, embora tenha a ele se entregado com dedicação, de tal sorte que granjeou confiança e amizade filial, naquele convívio.

O que o garoto gostava mesmo era de ler. Ora estava com um jornal ora com um livro em mãos. De modo que, quando um freguês entrava na loja para fazer compra, ele estava quase sempre distraído, lendo.

Seminário

E foi aí que uma parenta notou que a queda do menino era para outra coisa, e sugeriu que o mandassem para o seminário, em Teresina.

Com as providências tomadas pela família, Celso desceu o Rio Parnaíba de balsa, no começo de 1938, e entrou para o seminário na capital piauiense.

Estava a pouco tempo de ser ordenado padre quando chegou para o bispo, Dom Severino Vieira de Melo, e disse-lhe que não dava para o sacerdócio, pois não suportaria o celibato.

Foi dispensado, porém o prestígio de seu saber era tanto que imediatamente foi contratado como professor do seminário.

Começava ali a sua intensa atividade no magistério, que se prolongou por décadas a fio, até à aposentadoria.

Direito e política

Em 1953, bacharelou-se em Direito e logo tornou-se professor do mesmo curso.

Brilhante em ambas as carreiras – advocacia e magistério – Celso Barros Coelho já se fazia uma legenda, ingressou na política e foi eleito deputado estadual em 1962, sendo cassado um ano depois da posse, quando irrompeu o movimento de 64.

Voltou à política na década de 1970, dez anos depois da cassação, como deputado federal, pelo MDB, o partido de oposição ao regime autoritário.

Exerceu o último mandato na Câmara dos Deputados no início da década de 1980.

Nas duas legislaturas na Câmara Federal, exerceu as funções de vice-líder e conviveu com os principais líderes de seu tempo, como Petrônio Portella, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves.

Nos dois mandatos, atuou como relator e autor de importantes projetos, como o Código Civil Brasileiro (relator do Livro V – Direito das Sucessões).

De volta à terra-berço

Já fora da atividade pública e da sala de aula, mas com intensa atividade em seu Escritório de Advocacia, aos 85 anos fundou a Academia de Letras, História e Ecologia da Região Integrada de Pastos Bons.

Na verdade, um pretexto para voltar à terra-berço pelo menos duas vezes ao ano (em julho, nos festejos de São Bento, e em janeiro), na companhia de pessoas queridas, como o professor e acadêmico Fonseca Neto e o acadêmico Pedro da Silva Ribeiro.

Essa rotina só foi interrompida com a explosão da Pandemia da Covid-19. Mas ele continuou reunindo a Academia virtualmente.

A última sessão da instituição foi realizada na segunda-feira passada, com sua presença.

(A propósito, Celso foi infectado pelo coronavírus, no começo deste ano, mas só soube disso semanas depois, em exame de rotina. Nada sentiu).

A mortalha

Uma curiosidade da infância de Celso: aos 2 anos, o menino caiu doente. Os dias passavam e ninguém descobria qual era seu mal. A criança definhava a cada dia.

Já sem esperanças, os pais encomendaram a mortalha e fizeram o seu batismo às pressas, para que não morresse pagã.

Um caixeiro-viajante que passava por Pastos Bons, vendo aquela aflição da família, prescreveu um remédio para verme.

A criança tomou a beberagem e ficou boa em poucos dias. Sua mortalha foi dada para outro “anjinho”, naquela época em que a mortalidade infantil era assombrosa no sertão nordestino.

Pois bem! Aquele menino que foi dado como morto aos 2 anos chega hoje (11/05) aos 100 anos de idade, lúcido e com vontade de viver.

O centenário

Estas e outras histórias sobre ele serão lembradas a partir de agora, nas celebrações que a Academia Piauiense de Letras e a seccional da Ordem dos Advogados do Brasil, juntamente com outras instituições, farão em sua homenagem.

Não é para menos. Como enfatiza, apropriadamente, a professora e acadêmica Fides Angélica, ex-presidente da OAB-PI e presidente da Academia Piauiense de Letras Jurídicas, Celso Barros é um patrimônio vivo do Piauí, do Maranhão e do Brasil.

Glória dos dois Estados, ele presidiu tanto a OAB-PI como a Academia Piauiense de Letras.

No caso da Academia, o regozijo é ímpar, pois é a primeira celebração do centenário de um acadêmico com ele vivo.

Ou vivinho da Silva, como diria o poeta e acadêmico Elmar Carvalho.

Parabéns, mestre Celso!