Perfil Acadêmico

REGINALDO MIRANDA da Silva

(1964). Quarto e Atual Ocupante da Cadeira nº 27 da APL. Presidente da APL – Historiador, contista e cronista. Nasceu em 17 de agosto de  1964,  graduou-se em Direito  pela Universidade Federald o Piauí (1988). O Político. Foi vice-prefeito em sua terra natal. Bibliografia. Bertolínea: história, meio e homens (1983); Cronologia histórica do município de Regenaração (2002); Aldeamento de Acoroás (2003);

Posição: Atual
Antecessor: José Lopes dos Santos (1919-2006)
Data Nascimento: 17, agosto, 1064
Naturalidade: Bertolínia/PI
Data Posse: 18, outubro, 2006

(1964). Quarto e Atual Ocupante da Cadeira nº 27 da APL. Presidente da APL. 

A trajetória intelectual de Reginaldo Miranda da Silva, nascido em Bertolínia, a 17 de agosto de 1964, inscreve-se entre as mais vigorosas contribuições do Nordeste ao pensamento histórico brasileiro de seu tempo. Jurista por formação, historiador por vocação e genealogista por temperamento, Miranda construiu uma obra de rara coerência, alicerçada no primado da fonte e no exercício crítico da memória. Sua produção, que abrange história indígena, genealogia, biografia, direito e literatura, coloca-o na linhagem que vai de Clodoaldo Freitas e Odilon Nunes aos renovadores da historiografia regional nas últimas décadas.

Formação e primeiros anos

Filho de Abdon Rodrigues da Silva e Eunice de Miranda e Silva, iniciou a instrução em sua cidade natal, vindo a completá-la em Teresina, para onde se transferiu em 1978. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Piauí em 1988, prosseguindo estudos na Escola Superior da Magistratura do Piauí e especializando-se em Direito Constitucional (1998) e Direito Processual (2002). Atualmente cursa o Mestrado em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza.

Desde essa fase inicial, conciliou o exercício da advocacia com o cultivo das letras, desenvolvendo, no diálogo entre Direito e História, o método que caracterizaria sua obra madura. 

Carreira jurídica e atuação pública

Com quase quatro décadas de advocacia, Miranda firmou reputação de seriedade técnica e domínio institucional. Ocupa, desde 1988, o quadro efetivo da Assembleia Legislativa do Piauí, onde exerceu assessoramento legislativo, colaborou com a liderança do governo e integrou comissões de relevo, como a de Estudos Territoriais, responsável pela revisão dos limites intermunicipais e pela mediação do litígio na divisa Piauí–Ceará.

Exerceu ainda funções públicas no Emater, na Prefeitura de Bertolínia (vice-prefeito) e na de Regeneração (secretário de finanças). No âmbito da OAB-PI, participou de comissões de ética, história e prerrogativas, figurando em duas ocasiões na lista sêxtupla do Quinto Constitucional (2021 e 2024). 

Atuação cultural e institucional

Eleito para a Academia Piauiense de Letras, onde ocupa a cadeira n.º 27, presidiu a instituição entre 2010 e 2014, protagonizando notável revitalização administrativa e editorial. Durante sua gestão foram retomados periódicos, reeditadas obras fundadoras da literatura piauiense e lançadas coleções que restituíram à Casa de Lucídio Freitas seu papel formador.

Integra, ainda, instituições como o Instituto Histórico e Geográfico do Piauí, o Instituto dos Advogados Brasileiros e diversas academias regionais, participando de conselhos universitários e comissões de memória municipal. Suas distinções honoríficas, como a Ordem do Mérito Renascença, testemunham a relevância de sua atuação pública. 

Obra e produção intelectual

A obra de Miranda é múltipla e coerente. Seu primeiro livro, Bertolínia: história, meio e homens (1984), já revelava o gosto pela pesquisa direta em arquivos. Em Piauí em foco (2003), Notícias do Piauhy (2011) e Livros à mancheia (2019) consolidou-se como orador fluente e cronista da cultura piauiense, reunindo estudos que percorrem temas históricos, literários e institucionais. 

Historiador das nações indígenas

É, todavia, no campo da história indígena que sua obra alcança singular destaque. Com Aldeamento dos acoroás (2003), São Gonçalo da Regeneração (2005), A ferro e fogo (2006), Autos de devassa da morte dos índios guegués e Política indigenista no Sertão de Dentro (2016), Miranda deu forma ao mais consistente ciclo interpretativo já produzido no Piauí sobre as nações indígenas, suas dinâmicas sociais e a violência que as marcou.

A crítica — de Herculano Moraes, Antônio Fonseca Neto, M. Paulo Nunes, Francisco Miguel de Moura, Elmar Carvalho, Dilson Lages Monteiro e Enéas Athanazio — tem reconhecido nesses estudos não apenas a força documental, mas o vigor narrativo e a capacidade de reconstruir, com rigor e empatia, um capítulo silenciado da história colonial. 

Historiador e genealogista

Na genealogia, Miranda desenvolveu uma vertente original: compreender o sertão pela via das linhagens formadoras. A Coleção Genealogia Piauiense, inaugurada em 2014, e obras subsequentes — impressas e digitais — sistematizam redes familiares, trajetórias migratórias e estruturas sociais que moldaram o Médio-Parnaíba e outras regiões. Sua genealogia é histórica, crítica e segura, distinta das tradições meramente laudatórias. 

O biógrafo e o intérprete do Piauí

A faceta biográfica, iniciada com Vultos da história do Piauí, atinge maturidade na trilogia Piauienses Notáveis (2019–2025). Nessas obras, Miranda conjuga precisão documental e elegância de estilo, compondo retratos que recolocam personagens marginais ou esquecidos no centro da história regional. Seu livro Fidié, guerreiro em dois continentes (2022) exemplifica a síntese entre historiografia e narrativa, assumindo posição de destaque nas comemorações do Bicentenário. 

Estilo e método

A escrita de Miranda distingue-se pela clareza clássica e pela densidade argumentativa. Cultiva a sobriedade dos prosadores luso-brasileiros e pratica método de pesquisa apoiado em documentação primária — notarial, eclesiástica, cartorial — que examina com rigor.

Críticos como Herculano Moraes, Nelson Nery Costa, Jesualdo Cavalcanti Barros e Dilson Lages Monteiro têm destacado a seriedade metodológica, a amplitude temática e o impacto de sua obra na renovação da historiografia piauiense contemporânea. 

Legado e projeção

A contribuição de Reginaldo Miranda transcende o âmbito regional. Seu trabalho sobre história indígena, genealogia, biografia e memória confere-lhe projeção nacional e o insere entre os mais ativos intérpretes da formação social do Brasil interiorano.

Reginaldo Miranda, arquiteto da memória piauiense é, assim, mais que um historiador: é um construtor de identidade cultural, alguém que restitui ao Piauí a continuidade de sua voz histórica e oferece, às gerações futuras, um corpus documental e interpretativo de valor duradouro.

Bertolínea: história, meio e homens (1983); Cronologia histórica do município de Regenaração (2002); Aldeamento de Acoroás (2003); Piauí em Foco (2003); Vultos do História do Piauí (2004) e Arco do Velha (2004). Pertence à União Brasileira de Escritores (PI). Em 2002 foi agraciado com a Ordem do Mérito Municipal de Regeneração. Ex-Presidente da Academia Piauiense de Letras.

Excerto do seu discurso de posse na Cadeira nº 27 da Academia Piauiense de Letras, proferido no dia 18.10.2006:

Essa história de academia vem de longe. Foi na França pré-iluminista de Luís XIII (1601-1643) que nasceu e se consolidou a primeira academia de letras da Era Moderna. Nascida sob o gênio de Richelieu (1585-1642), teve inspiração etimológica na vetusta escola grega do filósofo Platão, fundada por volta do ano 387a.C., nos jardins que anteriormente teriam pertencido ao herói Akademus. Professando a dialética socrática ensinava aquele célebre filósofo grego, que o conhecimento nascia do questionamento e do debate.

Inspiradas nesse ensinamento da escola grega, nos primeiros anos do ministério do cardeal Richelieu (1624-1642) nasceram diversas instituições literárias em solo francês. Todavia, de existência efêmera, todas essas instituições desaguaram na fundação da famosa Académie Française, em 1635. Por questão de justiça, registre- se também a fundação de duas instituições efêmeras na Itália, que antecederam a Académie Française, quais sejam: a Academia de Florença, de 1570, e a Academia dei Licei, de 1609, todas desaparecidas sem maiores consequências.

De fato, foi a instituição francesa que serviu de modelo para diversas outras que foram organizadas, posteriormente, a exemplo das falecidas academias dos Generosos (1647) e dos Singulares (1663), em Portugal. No Brasil colonial, pode- se relacionar a fundação da Academia Brasílica dos Esquecidos, na Bahia, em 1724, da Academia dos Felizes, no Rio de Janeiro, em 1736, e, por fim, novamente na Bahia, em 1759, da Academia Brasílica dos Renascidos, em nítida referência à anterior. Todavia, todas essas instituições desapareceram, somente sobrevivendo a francesa, que foi oficializada pelo Estado.

Depois dessas e de outras tentativas frustradas, sob a liderança de Lúcio de Mendonça, foi fundada a Academia Brasileira de Letras, nos moldes da francesa, com quarenta cadeiras e membros vitalíciosA sessão inaugural data de vinte de julho de 1897, presidida por Machado de Assis, eleito por aclamação. Desde então, cada Estado-membro tratou de criar a sua academia de letras. A do Piauí nasceu com certo atraso, vinte anos depois. A primeira tentativa de fundação data de 1901, sem sucesso. O segundo movimento que desaguou na fundação dessa academia de letras foi liderado pelo poeta e magistrado Lucídio Freitas, então residindo no Pará, quando de viagem ao Piauí. Inspirado no exemplo da academia de letras que ali vicejava, reuniu os intelectuais que viviam em Teresina, entre os quais seu pai Clodoaldo Freitas, grande referência literária daqueles dias e fundou a Academia Piauiense de Letras, cuja sessão inaugural foi realizada em trinta de dezembro de 1917. Estava, assim, criada e instalada a Academia Piauiense de Letras, sob a liderança já referida de Clodoaldo e Lucídio Freitas, contando com a adesão dos principais intelectuais piauienses, entre os quais, Abdias Neves, Higino Cunha, João Pinheiro, Jônatas Batista, Baurélio Mangabeira, e alguns outros. Ao longo do tempo, a “Casa de Lucídio Freitas”, como foi cognominada esta instituição cultural, abrigou os principais intelectuais e expoentes do Piauí, citando-se a título exemplificativo, entre os que já se foram, Esmaragdo de Freitas, Deolindo Couto, Cromwell de Carvalho, Mário Baptista, Celso Pinheiro, Fontes Ibiapina, Martins Napoleão, João Cabral, Camilo Filho, Cristino e Carlos Castelo Branco, Zito Batista, Odylo Costa Filho, Félix Pacheco, Renato Castelo Branco, Matias Olímpio, Gayoso e Almendra, Da Costa e Silva, Isabel Vilhena, Alvina Gameiro, Simplício Mendes, Arimatéa Tito Filho, Cláudio Pacheco e tantos outros.

Fontes: MIRANDA, Reginaldo. Aldeamento dos Acoroás. 2ª ed. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2012, Coleção Centenário nº 7.
Notícias relacionadas
Imagens do(a) Acadêmico(a)