Perfil Acadêmico

Maria CECÍLIA da Costa Araújo MENDES

Maria Cecília da Costa Araújo Mendes nasceu em Teresina, Piauí, no dia 22 de junho de 1941, filha de Lineu da Costa Araújo e Zaíra Freire da Costa Araújo.

No Grupo Escolar Domingos Jorge Velho iniciou estudos que tiveram sequência no Colégio das Irmãs, Liceu Piauiense e Faculdade Católica de Filosofia, onde se bacharelou em Letras Neolatinas. Concluiu licenciatura na Universidade Federal de Minas Gerais e ali, mais tarde, cursou Mestrado em Educação. Na Universidade Federal do Piauí, fez bacharelado em Comunicação Social: Jornalismo. No Instituto Camillo Filho, curso de Especialização em História da Arte e da Arquitetura.

Posição: Atual
Antecessor: Niède Guidon
Data Nascimento: 22, junho, 1941
Data Eleição: 30, agosto, 2025
Data Posse: 10, outubro, 2025
Acadêmico(a) que o(a) recebeu: Maria do Socorro Rios Magalhães

Maria Cecília da Costa Araújo Mendes nasceu em Teresina, Piauí, no dia 22 de junho de 1941, filha de Lineu da Costa Araújo e Zaíra Freire da Costa Araújo.

No Grupo Escolar Domingos Jorge Velho iniciou estudos que tiveram sequência no Colégio das Irmãs, Liceu Piauiense e Faculdade Católica de Filosofia, onde se bacharelou em Letras Neolatinas. Concluiu licenciatura na Universidade Federal de Minas Gerais e ali, mais tarde, cursou Mestrado em Educação. Na Universidade Federal do Piauí, fez bacharelado em Comunicação Social: Jornalismo. No Instituto Camillo Filho, curso de Especialização em História da Arte e da Arquitetura.

É viúva do médico César Ataíde do Vale Mendes com quem teve quatro filhos.

Na carreira de Magistério lecionou em diversos colégios públicos e privados de Teresina, na FAFI e na UFPI onde se aposentou, após exercer funções de Chefia de Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino e Pró-Reitora de Ensino de Graduação.

Ocupou cargos públicos: Diretora de Ensino Primário da Secretaria Estadual de Educação e Presidente da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, da Prefeitura de Teresina.

Criou, manteve e dirigiu a Fundação CCEPLAR (Centro de Cultura e Educação Permanente Lineu Araújo), entidade sem fins lucrativos, de caráter educativo-cultural, que durante 15 anos, desenvolveu um projeto de Arte – Educação para crianças e adolescentes da periferia de Teresina.

Lecionou também na Faculdade Santo Agostinho e no Instituto Camillo Filho onde foi coordenadora de Extensão e Cultura.

Cecília Mendes publicou artigos nos jornais O Dia, Meio Norte e Diário do Povo e diversas crônicas na Revista Cidade Verde.

Na área das Artes fez diversos cursos livres de Pintura em Tela, Porcelana, Bordado e Teatro de Bonecos.

Há 19 anos integra a UAPPI (União dos Artistas Plásticos do Piauí), tendo participado de exposições no Piauí, Minas Gerais e no exterior.

Em agosto de 2025 foi eleita para a cadeira número 24 da Academia Piauiense de Letras, tendo tomado posse no dia 30 de outubro de 2025. Na APL, recebera, em 1993, a Medalha Mérito Cultural “Lucídio Freitas”, juntamente com Niède Guidon, de quem tornou-se sucessora na APL.

DISCURSO DE POSSE DE MARIA CECÍLIA DA COSTA ARAÚJO MENDES NA CADEIRA 24 DA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS

 

Teresina, 30 de outubro de 2025

Ilma. Sra. Fides Angélica Ommati, em nome da qual cumprimento todos os componentes desta mesa de honra

Ilmas. Senhoras Acadêmicas

Ilmos. Senhores Acadêmicos

Caríssimos familiares e amigos

Senhoras e senhores

 

Na certeza de que um dos sentidos da célebre imortalidade acadêmica reside no louvor e vivificação dos feitos daqueles que contribuíram significantemente para as letras, artes e cultura de um povo, obedeço à tradição desta augusta casa e inicio fazendo foco sobre as personalidades relacionadas à cadeira 24.

Esta cadeira tem origem na inteligência e arte parnaibanas. De Parnaíba vieram o Patrono e os dois primeiros acadêmicos eleitos.

O Patrono foi o Senhor Jonas Moraes Correia, cidadão honrado e generoso, comerciante e político. Nesta condição, foi deputado estadual e Intendente de sua cidade, de 1901 a 1904, quando demonstrou por atitudes que exercer o Poder significa servir a sua terra e a sua gente. Cuidou bem de sua cidade. Na tribuna, defendeu o tráfego ferroviário e a criação do porto de Amarração. Na seca de 1900 acolheu e protegeu retirantes oriundos do Ceará. Estudou e escreveu sobre a exportação do sal piauiense.

Jonas Fontenele da Silva, o número um da cadeira 24, teve o nome proposto e aceito, por unanimidade de votos, na sessão inaugural desta Academia, na manhã de 30 de dezembro de 1917. Na mesma ocasião, tornaram-se membros efetivos as ilustres figuras de Félix Pacheco, Zito Batista, Da Costa e Silva, Amélia de Freitas Bevilaqua, Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves e Abdias Neves.

Jonas Fontenele da Silva era odontólogo e comerciante. Cedo mudou-se para Manaus onde se envolveu em negócios familiares e outras experiências comerciais, inclusive da área cinematográfica. Jornalista atuante e poeta, integrou também a Academia Amazonense de Letras. Publicou quatro obras poéticas: Ânforas, Uhlanos, Czardas e A chácara. A Academia Piauiense reeditou Uhlanos, na Coleção Centenário, de 2018 a 2020. Em seus poemas encontram-se indícios de que era adepto da escola simbolista.

Jônatas Moraes Correia sucedeu Jonas Fontenele da Silva. Foi político e militar, tendo atingido o generalato. Como político foi deputado constituinte. No Exército especializou-se em Geodésia, área em que desenvolveu notável trabalho na definição de limites do Brasil com o Peru. Destacou-se como excelente orador. Faleceu antes de tomar posse na Academia.

O terceiro ocupante era maranhense de Caxias, nascido em 1918, mas desenvolveu sua trajetória profissional no Piauí. Dr. Robert Wall de Carvalho foi desembargador, presidente do Tribunal de Justiça, membro do Tribunal Eleitoral. Lecionou diversas disciplinas do curso de Direito e História do Brasil na Faculdade Católica de Filosofia. Atuou no jornalismo local. Por seus méritos como Educador, foi escolhido e nomeado o primeiro Reitor da nascente Universidade Federal do Piauí. Produziu ensaios sobre temas sempre atuais: Induzimento, Instigação e Auxílio à Prática do Suicídio, Repressão e Prevenção do Homicídio e Inutilidade da Incriminação do Adultério.

Sucedeu o Professor Robert outro intelectual e grande nome do Direito: Paulo de Tarso Mello e Freitas. Foi juiz de São Miguel do Tapuio, Miguel Alves, Piracuruca e Teresina, onde ocupou os mais altos cargos da Magistratura. Também legislou como vereador que foi, de Teresina. Escreveu Borboletas, livro de poemas. Colaborou com diversos periódicos piauienses, inclusive as revistas da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí, entidades as quais presidiu com muita competência. No Magistério Superior lecionou Direito Processual Civil, Penitenciário, Eleitoral e Organização Judiciária, tendo começado o ofício de professor no tradicional Colégio Demóstenes Avelino.

Sucedendo Paulo Freitas, veio uma mulher – Niède Guidon – integrar o reduzido núcleo feminino da Academia, constituído de valorosas escritoras (Maria Nerina Pessoa Castelo Branco, Fides Angélica de Castro Veloso Mendes Ommati, Teresinha de Jesus Mesquita Queiroz e Maria do Socorro Rios Magalhães) que só enriquecem a Poesia, a História e a Literatura, bem como a Educação Superior de nosso Estado.

A menina Niède nasceu na cidade paulista de Jaú, em 12 de março de 1933. Era filha de Cândida e Ernesto Francisco que a batizaram com este nome francês em homenagem ao Rio Nied que banha parte do leste da França e corre para a Alemanha. Esta homenagem tem a ver com o avô paterno, Josef Guidon, francês de nascimento, que obrigava a menina a cantar toda a Marselhesa em troca de algumas moedinhas para compra de algodão doce.

Do lado materno, a avó Bertolina era indígena da etnia Kaingang, de habitantes do Oeste de São Paulo. Esta avó fora raptada da tribo, educada nos princípios cristãos e, aos 17 anos, casada com o militar português André Avelino de Oliveira. Com ele teve 14 filhos, entre os quais Cândida, a mãe de Niède.

Niède cedo se mostra uma criança inteligente, observadora, curiosa, ativa, questionadora e rebelde. Com Gilberto, o irmão mais velho, gostava de subir em árvores, tomar banho de chuva e outras brincadeiras ao ar livre. Aos cinco anos de idade, perdeu a mãe, no parto do irmão Cândido. O pai de Niède casou-se novamente e Niède ganhou mais dois irmãos, Ernesto e Antonio. Com a morte da madrasta, Niède, aos 15 anos, foi levada a estudar em regime de internato, em Campinas. Aos 18 anos entrou para o curso de Ciências Naturais da USP, na capital, onde começou a trabalhar e morar sozinha. Concluída a graduação, passou a atuar na seção de pré-história no Museu do Ipiranga e daí partiu para estudar Arqueologia Pré-Histórica na França.

Voltando ao Brasil, dedicou-se ao estudo das pinturas rupestres de Lagoa Santa, Minas Gerais, das quais montou uma exposição fotográfica no Museu. Nesta ocasião, em 1962, o piauiense Gaspar Dias Ferreira, na época prefeito de São Raimundo Nonato, que visitava o Museu, mostrou a Niède Guidon algumas fotos das pinturas rupestres piauienses. Este foi o ponto inicial, o encantamento de Niède pelas figuras diferentes de tudo que vira antes, no campo da Arte Pré-Histórica.

Em Paris, nos anos de 1961 e 1962, Niède frequentou Curso de Arqueologia Pré-Histórica na Sorbonne, tendo aprendido o método de pesquisa do Professor André Leroi-Gourhan. Também conheceu a obra de Annette Laming-Emperaire sobre Arte Parietal, o que levou Niède a incluir este conteúdo no Programa de Pesquisas do Museu Paulista. Madame Emperaire e Professor Leroi a ajudariam em projetos futuros, desenvolvidos no Piauí.

Voltando ao Brasil, em 1963, Niède tentou chegar a São Raimundo Nonato, num Fusca. Viagem fracassada pela cheia e queda de uma ponte do Rio São Francisco que impediram a equipe de chegar ao destino desejado.

Na França, Niède se tornou pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa Científica e, mais tarde, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais.

Em 1970, de novo no Brasil, estudou indígenas da tribo Gê, habitantes do Maranhão e, em 1973, em companhia de Vilma Chiara, visitou indígenas Kraôs em Goiás (hoje Tocantins) apreciando seus objetos utilitários, cerimoniais, decoração corporal, etc. herdados de seus ancestrais. De lá vieram para São Raimundo Nonato. Percorreram 4 abrigos pintados, de mais fácil acesso. Se em Minas Gerais as pinturas rupestres são encontradas dentro de grutas, no Piauí a arte foi aplicada nas paredes externas ou no teto dos abrigos ou tocas. Mateiros e caçadores, habitantes do lugar, as acompanharam e lhes disseram de outros sítios e urnas funerárias. Niède fez fotos das pinturas para diapositivos a cores e passou a estudá-las, bem como a história e etnologia da região. Ainda em 1973, organizou missão para vir ao Piauí, com Sílvia Maranca e Águeda Vilhena de Moraes, arqueólogas do Museu Paulista. Esta missão durou três meses. Cobriu 50 abrigos onde achou sete sepulturas, sendo duas ao ar livre e 2 aldeias chamadas Mocó e Zabelê. Enfrentou terríveis condições locais: o distanciamento, o clima severo, a falta de alimentação e de água, a inexistência de estradas. Reconheceu que a ajuda e a gentileza dos sertanejos foram fatores de sucesso na missão, além da boa vontade, coragem e resistência física e moral das colegas. Aplicou o método de pesquisa que estudara para a obtenção de cópias de desenhos usando plástico transparente e fino, emendando as folhas com adesivo e emprego de canetas com pontas de feltro. Chegaram a construir escadas para a coleta dos desenhos nos painéis mais altos, através de fotos.

Para cada um dos 50 abrigos ou sítios, fez croquis, mapas, descrição do lugar, caminhos, fontes e localização. O resultado da coleta: 600 metros quadrados de cópias dos desenhos, 2000 fotos, detalhes das sepulturas, das escavações e paisagens, 5 urnas funerárias, restos de 8 esqueletos humanos, restos de fauna, grande quantidade de cacos de cerâmica e material lítico, amostras de sedimentos de rocha e de carvão, entre outros. Todo esse material foi guardado em espaço adequado da Universidade Federal do Piauí. Niède teve total apoio do reitor José Camillo da Silveira Filho que contratou professores, pesquisadores e técnicos e fez instalar o NAP (Núcleo de Antropologia Pré-Histórica). Criou curso superior de Arqueologia e já houve três cursos de especialização em Arqueologia, sendo os dois primeiros coordenados por Niède Guidon e o terceiro pela professora Conceição Meneses Lage, parceira de Niède em várias pesquisas.

Em 1975, Niède defendeu sua tese de Doutorado sobre as pinturas rupestres da América do Sul para a qual teve orientação do professor Josef Darroche. Em seguida convenceu a França a manter uma missão permanente no Piauí.

Aproveitando férias escolares acumuladas, veio passar um semestre na Serra da Capivara, tendo antes, realizado um ciclo de palestras, em São Paulo, sobre a Arte Rupestre no Piauí. E iniciou tentativas, junto ao Governo Federal, através do então governador do Piauí, Dirceu Arcoverde, de criação de um parque nacional objetivando a defesa do rico patrimônio descoberto. Três meses após a morte de Dirceu, o Presidente da República decretou a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara, “com a finalidade de resguardar atributos excepcionais da natureza, conciliando a proteção integral da flora, da fauna e das belezas naturais com a utilização para objetivos educacionais, recreativos e científicos.” Era o Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho de 1979.

Este Parque somente instalado em 1986, é administrado pelo ICMBIO (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) em parceria com a Fundação Museu do Homem Americano, criado por Niède. Este Parque está situado numa área de 130.000 hectares, ocupando parte dos municípios de São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias. Compreende uma cadeia de serras de elevação de até 654 metros de altura, 200 a 300 metros acima do nível do mar. Consta que há 400 milhões de anos ali teria sido fundo do mar que em razão de um imenso movimento tectônico, escoou para o Ceará. Hoje apresenta características do bioma Caatinga. A população vivia da caça, da criação de caprinos e ovinos, da agricultura, da coleta de comestíveis. Mais tarde, da exploração da maniçoba e da produção de cal, derivado da extração e queima de rochas calcárias. O uso frequente do fogo prejudicou o solo, tendente à desertificação. Niède logo percebeu o perigo que corria o patrimônio descoberto.

No Parque, continuando as pesquisas, sua mentora trouxe equipes interdisciplinares, constituídas de arqueólogos, biólogos, geólogos, botânicos, zoólogos, paleontólogos e químicos, inclusive pesquisadores da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), da USP e da França.

Conquistava a adesão dos sertanejos para o trabalho e aprendizagem. Se um deles servia de guia para o biólogo, trocava com ele informações e lhe dizia de nossa medicina popular.

Todo o enorme trabalho de Niède Guidon começou pela Arte, seduzida pela originalidade de pinturas e gravuras rupestres, deixadas por grupos humanos que habitaram o Piauí. Estudou-as sob todos os aspectos: o tamanho de cada desenho (de 5 cm a 1 metro), as cores (amarelo, branco, cinza, azul e predominância de vermelho), tipos e origens dos pigmentos e respectivos médios empregados, texturas, linhas, formas. Agrupou os desenhos em três categorias chamadas de tradições: Nordeste, Agreste e Geométrica. A Nordeste reúne os desenhos mais antigos de objetos e figuras antropomórficas, zoomórficas e fitomórficas em cenas de danças, sexo, lutas, parto, acrobacias, cerimoniais. Caráter narrativo, ludicidade e movimento. Dentre os animais desenhados alguns não mais existentes na região, como camelídeos, preguiça gigante, capivara, veado galheiro, caranguejo, paleolhama, jacaré e peixe. Os desenhos desta tradição Nordeste foram produzidos pelos povos mais antigos que habitaram os sítios (de 6.000 a 12.000 anos). A tradição Agreste (de 5.000 anos) não apresenta zoomorfos nem objetos. Mostra figuras humanas bem maiores, estáticas, o corpo enfeitado com linhas perpendiculares, em zig zag. Muitas figuras se superpõem às da tradição Nordeste. A tradição Geométrica se constitui de grafismos abstratos, linhas, signos, pontos.

As inscrições se apresentam em número menor do que as pinturas rupestres. Indicam que foram cavadas com percutores ou instrumentos bem mais duros do que a rocha.

Foram encontrados também cacos de cerâmica com gravuras e pinturas em até 3 cores. Os grupos humanos que produziram esta Arte permaneceram na região até serem, pelos colonizadores, dizimados ou escorraçados para outras regiões.

A arte rupestre estudada por Niède Guidon vem, com frequência, sendo usada por artistas visuais do Piauí e de longe, como simples reproduções ou releituras. Os suportes, são os mais diversos: tela, papel, tecido (pintado ou bordado), cerâmica, porcelana, ferro, cestaria, madeira, em paredes, monumentos, embalagens, peças utilitárias e decorativas. Este fato sugere que a Arte Rupestre vem se tornando mais um elemento da identidade de nosso povo.

A análise dos achados nas escavações, feitas ao pé dos paredões da Serra da Capivara sob liderança de Niède, mostrou surpreendente descoberta que revolucionou toda a teoria aceita no mundo, relativa ao povoamento das Américas. Amostras de carvão resultantes de antiquíssimas fogueiras foram submetidas ao teste de carbono 14 e indicaram que povos habitaram a região há mais de trinta e dois mil anos. Este fato gerou enorme insatisfação, entre cientistas norte-americanos, para os quais, o Homo Sapiens entrou nas Américas há apenas 13 mil anos atrás, cruzando a pé o estreito de Bering que conecta a Sibéria, na Ásia, com o Alasca na América do Norte. Esta teoria da ocupação é chamada de “cultura Clóvis.” Em 1986, Niède publicou na Nature, respeitada revista científica britânica, um artigo divulgando sua teoria, o que foi secundado por outros veículos estrangeiros e nacionais. Segundo Niède, nossos antepassados vieram da África tanto pelo mar como por terra. Ela tentou convencer os adeptos da teoria Clóvis indo aos Estados Unidos em 1983, levando lotes do material, carvão coletado. Lá, os testes até ampliaram a datação: 39.000 anos. Pesquisas realizadas no Chile e México reforçaram a teoria de Niède. Nesta ocasião Niède promoveu no Parque importante evento que reuniu arqueólogos de diversos países com o objetivo de discutir o povoamento das Américas.

A criação do Parque Nacional veio tranquilizá-la quanto a possibilitar a preservação daquele patrimônio, entretanto outra luta teve de enfrentar com os moradores da aldeia Zabelê, situada na área do parque, habitada por cerca de cem famílias. Por conta da lei de criação do Parque, estas famílias tiveram de sair dali e isto provocou grande revolta contra a “doutora”, como chamavam Niède. Ela fez de tudo para conseguir-lhes recursos da indenização e terras fora do Parque para onde se mudaram. O cemitério ficou e nele Niède fez túmulo para cada um dos mortos das famílias expulsas. Isto agradou os moradores.

Niède Guidon muito se preocupou com o tecido social do lugar. Trabalhou com afinco no sentido de melhorar as condições de vida dos sertanejos. Disse várias vezes que a população local precisava de Educação, Trabalho digno e melhoria das condições de vida. Envolveu-se em muitas questões pelas críticas que fazia à omissão de políticos locais. Enfrentou ameaças de coronéis. Defendeu-se como pode chegando até a recorrer a força policial de fora do Piauí. Em diversas ocasiões defendeu as mulheres locais do machismo dominante, da exploração, da violência doméstica. Ajudou muitas mulheres conscientizando, encorajando, conseguindo-lhes emprego e estudo.

Em parceria com a ONG italiana Terra Nuova criou cinco NACS (Núcleos de Apoio às Comunidades), entidades que reuniam postos de saúde e escolas de tempo integral com oferta de três refeições por dia aos alunos, além de atividades extra-curriculares em Artes e Meio Ambiente. A capacitação dos docentes e elaboração de material didático envolveram a UNESP (Universidade Estadual de São Paulo). Os NACS ofereciam também oportunidade de qualificação profissional de adultos, através de cursos e oficinas, como Corte e Costura, Cultura de Hortaliças, Produção, Purificação e Embalagem de Mel, Cerâmica, etc. Nas visitas que fazia aos NACS, Niède sempre falava aos alunos sobre a importância da preservação do Parque Nacional Serra da Capivara. Os NACS foram premiados pelo UNICEF.

Em dezembro de 1991, a UNESCO considera o Parque Nacional Serra da Capivara Patrimônio Cultural da Humanidade. Foi o reconhecimento da magnífica obra de Niède Guidon nas áreas artística, científica, histórica e ambiental.

Niède, que se mudara definitivamente para a Serra da Capivara, passou a empenhar-se em montar uma estrutura que, além de empregar os habitantes, atraísse o turismo arqueológico. Providenciou plataformas para que os turistas apreciassem de perto a Arte Rupestre onde foi encontrada, nos paredões rochosos. Cuidou de estradas para acesso aos sítios e entradas com vigilância em guaritas que protegem a área da matança da fauna, de incêndios, desmatamento e outras agressões ao meio ambiente. Construiu na cidade um bom hotel com restaurante. Para promover a arte cerâmica, criou uma fábrica e o Governo Estadual instalou loja, restaurante e pousada, voltados para a comercialização de peças utilitárias e decorativas, hoje vendidos no Brasil e no exterior.

Para financiar todos os empreendimentos, Niède buscou apoio, enfrentando muitas dificuldades, em diversas instituições: o governo francês, o Banco Interamericano, os ministérios brasileiros da Educação, Cultura, Turismo e Meio Ambiente, USP, Petrobrás, Terra Nuova da Itália, Embratel, Instituto Ayrton Sena, UNESP, UNESCO (braço da ONU), Incra, IPHAN, FAPEPI e Universidade Federal do Piauí. Por fim, conseguiu o Aeroporto, iniciado em 2004 e inaugurado em 2015.

Niède abriu, em 2018, o lindo Museu da Natureza, encravado em plena paisagem caatingueira, dotado de modernos recursos expográficos e interativos.

Hoje, a Fundação Museu do Homem Americano compreende dois museus com artefatos, esqueletos de animais, urnas funerárias e outros materiais encontrados nas pesquisas, um anfiteatro, biblioteca, auditório, centro de documentação e laboratórios de Arqueologia, Botânica, Paleontologia e Zoologia. Trata-se do complexo mais bem montado e rico da América do Sul, na área da Arqueologia.

Despedindo-se da Fundação Museu do Homem Americano, Niède entregou a direção à antropóloga Anne Marie Pessis.

Reforçando seu interesse em promover o turismo para a região, Niède inventou o Interartes, festival que envolvendo artistas brasileiros e estrangeiros vem oferecendo um espetáculo com diferentes expressões artísticas no belo cenário da Pedra Furada. O Interartes, hoje denominado de Ópera, é patrocinado pelo Governo do Piauí e visa o acesso à cultura aos habitantes da região.

Os últimos dias de vida, após quase 50 anos dedicados ao Piauí, Niède preferiu viver reclusa, na tranquilidade de sua casa, em silêncio, no aconchego de amigos fiéis, e cercada de seus pets queridos.

A escritora Adriana Abujamra, sua biógrafa, perguntou-lhe:

“Como acha que seria lembrada?”

Ela respondeu:

“Espero que esqueçam logo de mim. Niède Guidon, arqueóloga e ponto.”

Niède faleceu de infarte, no dia 5 de junho de 2025, aos 92 anos de idade.

Não, Niède, você não será esquecida! Pela Academia Piauiense de Letras, pela gratidão dos piauienses, você será sempre lembrada e enaltecida porque você merece.

Senhoras e Senhores:

Hoje quem bate à porta da Academia sou eu uma mulher bem idosa, feliz, que apesar das perdas sofridas, não perdeu a alegria de viver.

No soneto intitulado Artista, do primeiro ocupante da cadeira 24, Jonas Fontenele da Silva, encontrei, em dois versos, este conselho:

“Jamais da terra te fascine e iluda

A glória vã do brilho adamantino” 

Em outro soneto, Bronze Eterno, do mesmo autor, este quarteto diz:

“Um colosso de pedra e de argamassa

Que ergueu no Egito um faraó portento

Não vale um vulto preso ao pensamento

Ao coração de um povo e de uma raça.” 

Identifiquei-me com estas palavras. Sim, não me fascina a glória, o brilho, o aplauso. Desejo cada vez mais, prender meu pensamento à cultura, à história, à literatura e as artes de meu povo.

Aqui venho movida pela Esperança de aprender mais com os sábios colegas desta casa, os de ontem, pela leitura, e os de hoje. Aqui venho imbuída do propósito de, se Deus me permitir, colaborar para o alcance da finalidade da Academia, expressa em seu Estatuto: “a cultura da língua nacional e o desenvolvimento literário, científico e artístico do Piauí”.

Encontro aqui grandes artistas da palavra, mas sou apenas uma artesã de singelas crônicas, artesã dos pincéis e tintas para tela e porcelana, artesã de linhas e agulha do bordado, artesã de cacos para o mosaico, artesã de cola e pano para os bonecos que contam as histórias de minha terra.

Estou aqui porque meus pais Lineu Araújo (ele, sim, merecia estar aqui) e Zaíra Freire, ambos professores, me ensinaram a aprender não só para minha satisfação pessoal mas para partilhar que isto é o que faz todo professor. Neste momento, meu coração agradecido se volta para eles, para meus irmãos Vera, Antônio, Lineu, Ângela e Ronald, para meu primeiro leitor, meu marido César Mendes, que com a extrema bondade que o caracterizava, sempre elogiava cada texto escrito por mim e me estimulava a publicá-lo. Lembro meus filhos: Cristiane, Daniele, Gisele, Joel e Ana Cláudia, meus genros João de Deus, Olívio Filho e Celso, meus netos Rebeca e Rafael, João Fonseca,  Morgana e Matheus, Júlia Amélia e Carlos Estevam, Olívio Neto, Maria Cecília e meus bisnetos Rafael, Isabel, Antônio e Otávio. Todos são o apoio e o afeto necessários.

Acima de todos, Aquele que, em Mateus, capítulo 25, versículos 14 a 30, ensinou que os talentos recebidos devem ser multiplicados. Obrigada, meu Deus!

Relembro também meus professores: D. Luiza Oliveira, do extinto grupo escolar Domingos Jorge Velho, da professora de português, Irmã Veloso, tia da Fides, do Colégio das Irmãs, dos professores do Liceu, da FaFi, da UFMG, da UFPI e do ICF. Faço questão de citar os acadêmicos, mestres do passado: João Coelho Marques, Celso Barros Coelho, Arimatéia Tito Filho, Manoel Paulo Nunes, Wilson Brandão, João Gabriel Batista e a Raimundo José Ayremoraes Soares.

Digo muito obrigada a todos os presentes neste auditório, aos acadêmicos, às autoridades, familiares, amigos de trabalho na UFPI, amigos da União dos Artistas Plásticos do Piauí, amigas bordadeiras do grupo Mãos de Teresina e do Saci, colegas da Liga de Senhoras Católicas, das aulas de pintura e amigos de viagens e estudos do Piauí. Estendo meus agradecimentos à Igreja Católica de Teresina, na pessoa do Padre e acadêmico Tony Baptista pela cessão deste auditório para minha posse.

Finalmente, agradeço com admiração e todo o afeto de uma amizade que dura mais de 30 anos, à acadêmica Maria do Socorro Rios Magalhães pela extrema gentileza de, hoje, receber-me em nome da Academia Piauiense de Letras.

Disse.

Discurso de recepção da acadêmica Cecília Mendes na APL

Por Maria do Socorro Rios Magalhães

Senhora  Presidente da Academia Piauiense de Letras, acadêmica Fides Angélica de Castro Veloso Ommati, na pessoa de quem cumprimento os integrantes do disposistivo de honra.

Prezados confrades e confreiras, senhoras e senhores:

É com muita emoção e profundo senso de responsabilidade que tomo a palavra nesta noite memorável, em que a nossa Academia abre suas portas para acolher uma nova imortal — Maria Cecília da Costa Araújo Mendes, uma mulher das letras, das artes e da comunicação, cuja trajetória como educadora honra o espírito desta Casa de Lucídio Freitas.

Receber uma mulher é sempre um ato simbólico. É reencontrar, na tessitura da palavra, o fio de continuidade de tantas vozes femininas que, ao longo da história, precisaram lutar para serem ouvidas, publicadas e reconhecidas. Hoje, quando uma mulher adentra este sodalício, ela não entra sozinha: com ela vêm as ancestrais silenciadas, as escritoras esquecidas, as professoras e as leitoras que, como Cecília, acreditam que a cultura é também um lugar de presença e de poder feminino.

Nesse momento, reverenciamos a memória de todas as mulheres que nos antecederam na Casa de Lucídio Freitas: Luísa Amélia de Queiroz Brandão, patronesse da Cadeira  28; Amélia Carolina de Freitas Beviláqua, primeira mulher a tomar assento na Academia Piauiense de Letras, primeira ocupante da Cadeira 23, tornou-se famosa por ver recusado seu pedido de inscrição para concorrer a uma vaga na Academia Brasileira de Letras no ano de  1930;  Maria Isabel Gonçalves de Vilhena,  seguna ocupante da Cadeira 21; Emília Castelo Branco de Carvalho, (Lilizinha) primeira ocupante da Cadeira 37, Emília Leite Castelo Branco, segunda ocupante da Cadeira 37; Alvina Fernandes Gameiro, quarta ocupante da Cadeira 14 e, finalmente, Niéde Guidon, a ilustre antecessora de Cecília Mendes na Cadeira 24.

Atualmente a Academia Piauiense de Letras tem quatro mulheres nos seus quadros: a decana Maria Nerina Pessoa Castelo Branco, Fides Angélica de Castro Veloso Mendes Ommati, nossa presidente, Teresinha Queiroz e esta oradora, Maria do Socorro Rios Magalhães, passando, a partir de hoje, a contar com o extraordinário reforço da presença de Maria Cecília da Costa Araújo Mendes, que traz um novo fôlego à nossa instituição. Sua chegada a esta Casa amplia o nosso olhar, enriquece o debate e reafirma a vocação plural desta Academia, que se quer guardiã da memória, mas também promotora do futuro.

A Academia Piauiense de Letras foi criada sob a inspiração da  Academia Brasileira de Letras, que,  por sua vez, foi foi  inspirada no modelo da Academia Francesa, o que influenciou muitas regras e práticas iniciais. Inclusive no que se referia à eleição de sócios: havia uma forte tradição de eleger apenas homens como acadêmicos.

Essa norma explícita (“somente homens”) ou mesmo implícita impedia que qualquer mulher fosse admitida oficialmente — seja como fundadora, membro correspondente ou efetivo — o que perdurou até 1977, quando foi eleita Rachel de Queiroz, primeira mulher a ingressar na ABL..

Nesse contexto é exemplar o episódio envolvendo Júlia Lopes de Almeida, escritora muito produtiva, bastante reconhecida. Foi cronista, contista, romancista, dramaturga. Publicou muitas obras e participou ativamente das letras brasileiras no final do século XIX e início do século XX.

Quando começaram as discussões para a fundação da Academia Brasileira de Letras, Júlia Lopes de Almeida foi incluída numa lista de nomes cogitados para figurar como os fundadores da ABL, no entanto, no momento da fundação, em 1897, foi decidido que a instituição seguiria o modelo da Academia Francesa, que só admitia membros do sexo masculino, o que serviu de justificativa para que Júlia Lopes de Almeida, não fosse aceita como fundadora. A Cadeira número 3, que fora sugerida para ela, acabou ficando com seu marido, o escritor Filinto de Almeida.

Assim, Júlia se tornou um símbolo dessas “ausências institucionais” — pessoas que tiveram reconhecimento literário, mas foram excluídas institucionalmente pela norma de gênero.

Episódio semelhante aconteceu com a piauiense Amélia Beviláqua escritora nascida em 1860, na cidade de Jerumenha. Foi pioneira em várias frentes no Nordeste, fundadora e presidente de entidades literárias, como jornais e revistas redigidos por mulheres. Em 1930, Amélia Beviláqua fez uma tentativa de candidatura formal para uma cadeira efetiva na ABL. Entretanto, não obstante o prestígio de  sua obra e de sua reputação, ela não foi aceita. Razão alegada: o regimento da Academia até então não permitia em seus quadros a presença de  mulheres.

A ABL só alterou formalmente seu regimento para permitir mulheres como membros efetivos, décadas depois, quando finalmente ingressou nos seus quadros a já citada Rachel de Queiroz.. Tanto no caso de Júlia Lopes de Almeida quanto no caso de AméliaBeviláqua, suas histórias apontam para o que algumas estudiosas chamam de “vazios institucionais” — momentos em que pessoas capazes e qualificadas são excluídas por normas sociais ou institucionais.

A Academia Piauiense de Letras, entretanto, foi pioneira no preenchimento desses vazios institucionais, elegendo Amélia Beviláqua, no ano 1921, como primeira ocupante da cadeira 23, hoje pertencente à historiadora Teresinha Queiroz. A partir daí, embora de forma esparsa, mulheres começaram a marcar presença na Casa de Lucídio Freitas: Maria Isabel,  Lilizinha, Lili, Alvina, Nerina, Fides Angélica, Teresinha, Maria do Socorro, Niéde e agora mais uma:Maria Cecília.

Ao adentrar a Academia Piauiense de Letras, Cecília traz consigo uma grande bagagem de serviços prestados à coletividade piauiense, nas área da educação e cultura. Professora de Língua Portuguesa, com bacharelado pela Faculdade Católica de Filosofia de Teresina e licenciatura pela Universidade Federal de Minas Gerais, onde também cursou o mestrado em Educação, com ênfase em metodologia do ensino. Graduou-se também em Comunicação Social – Jornalismo, pela Universidade Federal do Piauí. Fez ainda especialização em História da Arte e da Arquitetura, pelo pelo Instituto Camilo Filho.

Além de Língua Portuguesa, Cecília Mendes lecionou Francês em várias escolas de Teresina, como Colégio Diocesano, Colégio das Irmãs, Leão XIII e Escola Normal. Sua formação na língua francesa conta com diploma em Estudos Franceses pela Universidade de Nancy na França.

Na Faculdade Católica de Filosofia, substituiu o Prof. Manoel Paulo Nunes na Cadeira de  Literatura Portuguesa,  e ministrou também Teoria Literária e Didática. Como docente da Universidade Federal do Piauí, lecionou Didática, Prática de Ensino, Recursos Audiovisuais, Avaliação da Aprendizagem, Metodologia da Linguagem e Fundamentos da Arte. Na UFPI exerceu vários cargos de direção e administração: chefe do Departamentos de Métodos e Técnicas de Ensino, Pró-Reitora de Ensino de Graduação, Coodenadora do Projeto Novas Tecnologias e membro do Programa de Apoio ao :Desenvolvimento do Ensino Superior, entre outros cargos e funções.

Quando Presidente da Fundação Cultural Monsenhor Chaves da Prefeitura Municipal de Teresina, deu início ao seu principal projeto cultural para crianças e jovens, os Encontros com a Leitura, que promoviam encontros com escritores de literatura infantojuvenil, que faziam palestras para professores e estudantes e debatiam com a plateia questões relacionadas à formação do gosto pela leitura. Os Encontros com a Leitura extrapolaram a sua gestão na Fundação Monsenhor Chaves, continuando no período em que exerceu o cargo de Coordenadora de Extensão e Cultura do Instituto Camilo Filho.

Ainda com relação à mediação de leitura exercida por Cecília Mendes não podemos deixar de citar o trabalho que empreendeu na Fundação CCEPLAR – Centro Cultural de Educação Permanente Lineu Araújo da qual foi criadora e mantenedora durante 15 anos.No CCEPLAR, desenvolveu um Projeto de Arte-Educação para crianças e jovens, que contava com aulas de música, literatura, artes plásticas, teatro de bonecos, entre outras atividades artísticas.

Assim, é motivo de imensa satisfação para a Casa de Lucídio Freitas, templo da palavra e guardiã da memória intelectual do Piauí, receber hoje uma mulher que honra a tradição e renova o futuro da nossa Academia. Professora, jornalista, escritora e incansável promotora da leitura, Cecília Mendes chega a esta Casa com a naturalidade de quem sempre habitou os espaços da palavra — seja na sala de aula, na escrita de seus artigos jornalísticos, ou nos projetos que, com afeto e criatividade, têm aproximado crianças e jovens dos livros, da literatura e do pensamento crítico e criativo.

Sua trajetória é marcada por uma coerência admirável: o compromisso com a educação e com a cultura. Nas páginas que escreveu e nas mentes que formou, Cecília deixou um rastro luminoso de sensibilidade e de fé no poder transformador da leitura.
Ela entende, como poucos, que formar leitores é também formar cidadãos, sujeitos capazes de sonhar, interpretar o mundo e transformá-lo.

Permitam-me dizer que, para mim, é uma alegria particular recebê-la. Como mulher e como intelectual, sei o que significa ocupar este lugar — um espaço que durante tanto tempo nos foi negado. Que esta cerimônia seja, portanto, também uma celebração da resistência e da permanência das vozes femininas nas academias de letras do Brasil e nos espaços onde persistam os vazios institucionais criados pela auência de mulheres.

Que a passagem de Cecília por esta Casa seja fecunda, fraterna e inspiradora! Em nome de todos os acadêmicos e acadêmicas, declaro-lhe as mais calorosas boas-vindas. Que esta sua nova jornada seja repleta de realizações e que a nossa convivência seja marcada pela amizade, pelo respeito mútuo e pelo amor comum à literatura, às letras e à cultura do Piauí.

Ao longo de sua vida profissional, Cecília Mendes construiu pontes entre o jornalismo e a pedagogia, entre a palavra pública e o gesto íntimo da leitura. Em tempos de dispersão e ruído, ela reafirma o livro como lugar de encontro e de permanência.

Assim, querida amiga Cecília, ao adentrar a Academia Piauiense de Letras, você se junta a um coro de vozes que atravessa o tempo — Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, Lucídio Freitas,  Monsenhor Chaves, O. G. Rego de Carvalho, Manoel Paulo Nunes, Monteiro de Santana, Celso Barros Coelho e tantas outras figuras que fizeram da literatura e da educação uma forma de pensar o Piauí e o Brasil.

Sua chegada aqui a esta Casa  representa também o fortalecimento da luta feminina por espaço e reconhecimento nos territórios da cultura e do saber. Você soma-se às mulheres que abriram caminho, que desafiaram o silêncio e escreveram a própria história e, com certeza, constará dentre as que inspirarão as mulheres do amanhã para continuarem essa longa e maravilhosa jornada de inclusão.

Por tudo isso, em seu nome, celebramos também o vigor de uma geração de professores e mediadores de leitura que acreditam que o futuro começa no olhar de uma criança que descobre o prazer de ler.

Que a sua cadeira, agora ocupada, se torne um lugar fértil de criação e de diálogo, onde a sua voz — firme, generosa e inspiradora — continue a ecoar em favor da educação, da literatura e da infância leitora!

Seja muito bem-vinda à Academia Piauiense de Letras!

 

MUITO OBRIGADA!

 

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