A criança que escrevia com as duas mãos!

Jonathas Nunes (*)

Nasci canhoto. Fui alfabetizado, escrevendo com a mão esquerda. Os primeiros chutes com bola de pano e de borracha, no Cansanção e na praça da Igreja, hoje Dr. Sebastião Martins, em Floriano, eram instintivamente com o pé esquerdo. A perna direita não tem muita força, nem jeito. Chute certeiro só com o pé esquerdo. Nas competições de queda de braço, apoiava logo o cotovelo esquerdo sobre a mesa ou peitoril, e até meninos mais altos e mais fortes acabavam perdendo pra mim. Já com a direita, era visível a “capitis diminutio”.

Rabo-de-saia da mãe, o hábito é reforçado com a preferência do pai pelo mano mais velho para recado, mensagens, ida à rua, ida ao Puçá, e até viagem a Teresina a serviço. Desde ainda bem pequeno, minha mãe era, de longe e de perto, a pessoa que mais me cativava.

Aos sete ou oito anos de idade, num daqueles fins de tarde, na varanda do Cansanção em Floriano, ela conversa com algumas pessoas de fora, e, lá pelas tantas, se sai com essa: Doutor Demerval me disse que o Jontinha (meu apelido familiar) “tem o coração dilatado”. Próximo a ela, ouvi bem a afirmação de minha mãe comigo. Guardei-a sem entender do assunto. A tristeza, em tom de lamento, da palavra materna, de alguma forma excita um par de neurônios na mente daquela criança pela vida afora.

Nas sessões de ginástica de maior esforço físico, na Escola Preparatória, na AMAN, e já Oficial a frente de tropa, invariavelmente, traziam à tona, a história do menino do “coração dilatado”. Já tenente em Amaralina, Salvador(BA), numa dessas lembranças, decidi, por precaução e também pra tirar a “prova dos nove”, ser chegada a hora de procurar um médico especialista em coração. Fí-lo com o justo receio de que em havendo algo mais grave, estaria com a carreira militar comprometida. Agendei a consulta. Consultório bem ali na avenida Sete de Setembro, Centro de Salvador. Explico ao médico o motivo de minha ida ao consultório; este ausculta e manda me deitar numa mesa; não me lembro se chegou a tirar radiografia. Passou algum tempo me auscultando, sem dizer palavra. Não perguntou nada que me chamasse atenção.

Ao final, a explanação feita me deixa ainda mais intrigado. Disse: “tenente Jonathas, até uns vinte anos atrás, a anomalia que você tem era considerada uma doença. Hoje, porém, este fato é considerado apenas uma anomalia congênita. O problema é o seguinte: as pessoas em geral imaginam que a gente nasce com o músculo cardíaco do lado esquerdo do peito; não é verdade. A posição do músculo cardíaco é rigorosamente no centro da caixa torácica; a extremidade inferior no entanto é ligeiramente voltada para a esquerda. Ao palpitar com mais intensidade, a vibração mais acentuada da parte inferior dá a sensação de que o coração como um todo fica do lado esquerdo. No seu caso, porém, o coração como um todo, e não apenas a extremidade inferior, é ligeiramente voltado para a esquerda, dando a impressão de que ele assim está, por efeito de alguma dilatação, o que não é verdade. Trata-se simplesmente de uma conformação genética”.

Após deixar o consultório, viajo no tempo, aos primeiros dias de internato no Seminário Menor em Teresina. Regime de clausura. Ao me ver escrevendo com a mão esquerda, o Prefeito Isidoro, Seminarista do último ano, vira-se pra mim em tom de admoestação, e diz: “…olhe… dizem que quem escreve com a mão esquerda tem pauta com o diabo”. Aos treze anos de idade, longe da família, só gente estranha em volta, sinto-me emocionalmente atordoado. E disse pra mim mesmo: É, desse jeito, vou ter que tentar aprender a escrever com a mão direita.

Na época, o internato funcionava como se cada seminarista fosse uma espécie de redoma de vidro em que a gente vê todo mundo e todo mundo vê a gente, mas sem se falar, a não ser na breve hora do recreio ao meio-dia e à noite, após o jantar, e ainda assim, em voz comedida. Pergunta, confusão, dúvida começava na gente, rodopiava dentro da gente e acabava na gente.

Deixar a mão esquerda e reaprender tudo com a direita, por pouco não me custou caro. Discuto o assunto demoradamente. Comigo mesmo. E assim, aos treze anos, parto para o desafio de tentar desenvolver o hemisfério esquerdo do cérebro, responsável pelo lado direito do corpo. Mal sabia eu que os circuitos neurais desses dois hemisférios se cruzam na altura das cordas vocálicas. Foi o que aconteceu. Mensagens com direções conflitantes se cruzando na altura da garganta, me põem em situação difícil na pronúncia de fonemas diversos.

O Centro Cultural Dom Joaquim, formado pelos seminaristas, se reunia às quintas feiras, a noite, na hora do recreio, no pátio interno do seminário. Conduzido pelo seminarista-prefeito, este escalava o orador para de improviso falar sobre algum assunto por ele indicado ou deixado a critério. Passei meses com visível dificuldade na pronúncia de certas palavras na Tribuna improvisada (uma pedra de maior porte). A princípio atribui o fato ao nervosismo da hora. Cheguei a imaginar que eu estava começando a ficar meio gago, e ainda assim, sem atinar a causa. A dificuldade em emitir um fonema, me leva a trocar uma palavra por outra, gerando sensação de dislalia.

Já adulto, fui tomando conhecimento de que ao tentar escrever com a mão direita, em oposição ao circuito neural da esquerda, mensagens oriundas dos dois hemisférios do cérebro, acabam “se embaralhando” na altura das cordas vocais. Anos após, soube que a dislalia, tal como um dos futuros pokémons do netinho Tutu, bem poderia ter evoluído para algo irreversível.

Uma vez mais, o “esforço interior solitário” do adolescente de treze anos estava conseguindo remover … “uma pedra no meio do caminho”. Duas décadas, após, me vejo matriculado no King´s College da University of London. Era um prédio antigo, de uns oito andares, situado ali na Strand, uns quinhentos metros da Trafalgar Square. Integro o Departamento de Matemática Aplicada, e, como estudante de Doutorado, disponho de um bureau no “room F”, sala onde ficavam outros onze estudantes nessa mesma situação.

Quem me apresentou pela primeira vez a esses novos colegas, foi o amigo brasileiro Marcos Duarte Maia, que eu conhecera ainda em Brasília e me ajudou muito em detalhes da ida para Londres. O Marcos já estava com dois anos no King´s quando lá cheguei.

Voltando ao assunto da mão esquerda, estava eu já com alguns meses na Universidade, trabalhando no meu bureau, no Room F, quando, certa feita, entram dois senhores querendo falar comigo. Ao me abordar, foram logo dizendo o seguinte: Mr Nunes, olhe, nós pertencemos ao Departamento de Psicologia da Universidade, e tomamos conhecimento que você tem habilidade para escrever com as duas mãos. Gostaríamos então de fazer a você algumas perguntas, sobre esse assunto:- 1) com qual mão comecei a escrever;-2) o que me fez escrever com a outra mão;-3) se ao longo da vida tive algum problema ou dificuldade para falar; -4) se eu escrevo com as duas mãos indistintamente; – 5) se a grafia das mãos é diferente uma da outra;- 6) se eu escrevo indistintamente com as duas mãos a mesma palavra, ao mesmo tempo. E a pergunta final: se escrevo ao mesmo tempo com as duas mãos palavras diferentes, o que é impossível.

A visita londrina de dois especialistas me leva de volta aos treze anos, no Internato de Teresina, e me dou conta de que por pura ironia do destino acabei, ainda criança, servindo de cobaia para uma experiência rara na espécie humana.

Anos depois, me vejo de volta a Teresina, já agora como Professor Titular na UFPI. Ao utilizar o quadro negro em sala de aula, muitas vezes o fazia com as duas mãos. Ficavam espantados com o fato inusitado de escrever igualmente com as duas mãos. Não demorou muito e observei que este fato estava me fazendo mais conhecido na UFPI do que ser o primeiro PhD no Centro de Ciências da Natureza. Antes de saberem meu nome, estava ficando conhecido como o professor que escreve indistintamente com as duas mãos. Muitos alunos e até professores me indagavam sobre esse fato. Volta e meia me vejo retornando à ladainha dos treze anos. Invariavelmente respondia: olhe, pelo amor de Deus, não vá querer me imitar, pois o risco de adquirir sequelas na fala é razoavelmente elevado.

Dito isto, dia seguinte, na sala de aula, reprise do filme: começava a escrever com a mão direita do lado esquerdo e terminava com a esquerda do lado direito. A turma endoidava.

 

(*) Ocupa a Cadeira 2 da Academia Piauiense de Letras.

ARTIGO: Modernismo & Vanguarda

Imagens: APL

                                        Por Francisco Miguel de Moura*

Desde o primeiro ao último estudo do livro de Paulo Nunes, cujo título encima este trabalho, é um repositório de comentários sobre temas e livros que devem ser lidos, meditados, discutidos e, como ele próprio fez, comentados na rua, nas instituições literárias, no jornal, ou onde mais haja tempo e condição. Creio que é esta a razão do livro.

Antes de entrar nalguns detalhes, quero dizer que Paulo Nunes escreve bem, correntemente bem, coerentemente bem. Portanto, dá gosto lê-lo, mesmo que não o aprovemos em algum ponto, em algum ponto ou ponto vírgula. Seria elogio dizer que um professor escreve bem, sabe escrever? Talvez não, se com isto quiséssemos apenas referir à gramática. Mas nós falamos aqui de estilo. E aí já é literatura, crítica literária. M. Paulo Nunes é realmente um crítico de verdade, de peso, de confiança, desde quando se refere aos clássicos da nossa ou de outras literaturas até quando comenta os piauienses.

Dito o geral, agora passemos às miudezas.

Gostei de encontrar um capítulo de “Autores e Temas Piauienses”, o penúltimo do livro, com os seguintes artigos: “Lucídio Freitas”, “A Poesia Popular de João Ferry”, “Uma Página Esquecida de Da Costa e Silva”, “Ginásio Frei Henrique”, “Memória da Faculdade de Filosofia”, “Poetas Piauienses”, “História da Educação no Piauí”, “Clodoaldo Freitas”, “A Literatura Piauiense e a Crítica Nacional” e “Despedidas”. São 10 artigos que o absolvem da pecha de não tentar familiarizar-se com a juventude escritora de sua terra.

No sexto artigo da série, cita H. Dobal e Hardi Filho entre os poetas consagrados e, entre os novos, Carvalho Neto, Cinéas Santos, Graça Vilhena e Marleide Lins. Eu, apesar de não vir em nenhum dos grupos, considero um balanço razoável e uma crítica importante ao livro “Baião de Todos”, de cuja antologia participei com alguns poemas, por convite do editor. A falta de citação, “não importando em nenhum desapreço”, conforme referiu M. Paulo Nunes, claramente representa a escolha de gosto do crítico e sua independência, o que é, sem dúvida, louvável.

Com relação a outro artigo, “A Literatura Piauiense e a Crítica Nacional”, quando essa matéria saiu no jornal tive a oportunidade de referenciá-la, mas não fui bem entendido ou não me fiz entender, razão por que seria extemporâneo estender-me aqui, exceto que o considero uma grande peça crítica.

Já “Uma Página Esquecida de Da Costa e Silva” tem sabor todo especial. É através de M. Paulo Nunes que a Academia Piauiense de Letras toma conhecimento e adquire o texto do discurso de Da Costa e Silva ao assumir sua cadeira na “Casa de Lucídio Freitas“, em janeiro de 1923, no qual faz o elogio de seu patrono, o Pe. Leopoldo Damasceno Ferreira. Embora o escritor Cristino Castelo Branco houvesse escrito que o discurso de Da Costa e Silva tinha sido publicado na “Revista da Academia”, no ano seguinte, na verdade houve uma suposição da parte do informante, pois ali nem alhures a peça oratória foi encontrada. Por isto vinha causando espécie aos pesquisadores, historiadores e acadêmicos em geral. A crítica é também para essas descobertas, esses achados bibliográficos.

Na verdade, não sinto nenhuma melancolia em falar da literatura do Piauí, do Brasil ou de qualquer lugar. Na literatura, o que importa é a obra, como ela é (se boa, forte, vigorosa, segura, nova, inovadora, etc. etc.). Não importa o lugar onde ela foi produzida. Isto de chamar literatura daqui ou dali é apenas uma forma didática de arrumar umas coisas para distinguir outras. Literatura é literatura, é a obra bem escrita, criativa, transmissora de emoções, conhecimentos expressivos e qualidade linguística. Portanto, também boa para ser lida. Agora, para nós outros que não somos críticos alinhados ao estruturalismo, que somos críticos ainda considerados impressionistas – que eu teimo, porém, em denominar de expressionistas – penso que a vida do autor deve ter algum interesse porque ela se reflete inelutavelmente na obra. Aí a crítica se completa. É ler e sentir a obra, escolher e tentar decifrá-la, encaminhando o leitor para sua leitura produtiva. E como encaminhá-lo? Entregando-lhe alguns trechos considerados mais expressivos, indicando caminhos de leitura, ou seja, o texto. Primeiramente o texto, é claro. Mas também o contexto (dentre o qual a vida do autor é o mais importante). E só a integração texto-contexto pode ajudar o crítico a resolver como escreverá seu metatexto, seu “intertexto”, seu “intratexto”.  Registre-se que estas duas últimas palavras são novas na crítica.

Manoel Paulo Nunes faz interessante a crítica didática, em texto vivo, apaixonado, cheio de observações e notas (que podem ser biográficas ou não). Para mim, uma crítica expressionista.  Por isto mesmo desperta o gosto da leitura. E não seria este o primeiro dever do crítico?

Por todas essas razões, “MODERNISMO & VANGUARDA”, de M. Paulo Nunes, é um livro que deveria estar em todas as bibliotecas do Estado e do país.

(*) Francisco Miguel de Moura, poeta e prosador, ocupa a Cadeira 8 da APL.Publicado originalmente no jornal “Meio Norte”, 3-11-2000.

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Paulo Nunes, autor de “Modernismo & Vanguarda”, na APL.

Um romance de Assis Brasil

Capa do romance “O Prestígio do Diabo”, edição da APL (2017).
Rogel Samuel  (*)
Em ”O prestígio do diabo” (São Paulo, Melhoramentos, 1988) Assis Brasil apresenta o panorama da vida da pequena classe média daquela época com maestria, pois o personagem Lázaro é escriturário, bem comportado, humilde, correto, calmo, preocupado com as aparências (“o que vão pensar?”, “começaram a olhar”, “podiam pensar que fosse um ladrão”), cuidadoso com a mãe e a irmã, tímido (nunca se declarou para Cacilda) e de repente, depois de algumas “quedas” (em que sentia que algo o empurrava ao chão) perde o emprego e começa a mudar. A alteração é lenta, quase imperceptível, mas vai assim até o seu surpreendente fim. O livro é muito bem construído, como todos os de Assis Brasil, e exibe a sociedade carioca das décadas de 60/70, o clima, o cotidiano, o centro da cidade, o subúrbio, no caráter humilde e bem comportado do jovem Lázaro (cujo nome é significativo). Sua mudança lenta e terrível, assim como foi a transformação moral da sociedade carioca. Há no livro um velado questionamento da luta do Bem contra o Mal, onde o “prestígio” do Mal vence.
O principal personagem, porém, é a sociedade carioca, a classe média pobre do Rio de Janeiro, a rua, a decadência das ruas, a vida, a corrupção do meio urbano. O romance é pessimista. Descreve com sutileza a loucura das grandes cidades. Abre a vida sem sentido, o aviltamento da moral brasileira, não só dos políticos ou da classe dominante, mas da sociedade como um todo, e principalmente a perda dos valores morais da classe média, o desvalorizar generalizado da vida privada, a sua favelização. O que está em jogo não é só vida pública, mas a contaminação do familiar, pois o mundo somos nós. O mestre Assis Brasil desse modo se faz herdeiro do romance machadiano.
(*) Escritor e crítico literário. Texto publicado originalmente em 29/11/21, na página do autor do Facebook. Uma nova edição da obra analisada saiu em 2017, através da Coleção Centenário, da APL. 

Calou-se um homem de letras

Escritor  e acadêmico Assis Brasil, um dos grandes nomes da moderna Literatura Brasileira

Cineas Santos (*)

Saiu de cena hoje (28/11/ ) Francisco de ASSIS Almeida BRASIL ( 92 anos de idade), um dos grandes nomes da moderna literatura brasileira. Certa feita Assis afirmou: “Eu não vivi; tive apenas vida literária”. Não era força de expressão: o autor de Beira Rio Beira Vida escreveu mais de cem obras, de literatura infanto-juvenil a ensaios filosóficos.

Piauiense, de Parnaíba, Assis Brasil viveu quase sempre distante do Piauí. Jornalista, professor, ficcionista e crítico literário, tornou-se conhecido a partir de 1965 quando publicou Beira rio beira vida, romance que lhe rendeu o Prêmio WALMAP, obra integra a Tetralogia Piauiense, que se completa com A Filha do meio quilo, O salto do cavalo cobridor e Pacamão. Dez anos depois, voltaria a ganhar o mesmo prêmio com Os que bebem como os cães.

Quando H. Dobal foi homenageado pela Academia Brasileira de Letras (2002), na companhia de alguns amigos, fui ao Rio de Janeiro com o poeta. Já no final da homenagem, apareceu Assis Brasil escorando-se nas paredes do auditório. Com voz sumida, explicou: “Estou saindo de uma depressão terrível” e mais não disse. Cumprimentou o Dobal e desapareceu.

Em 2006, os organizadores do SALIPI resolvemos homenageá-lo. Coube a mim a incumbência de convidá-lo. Assis Brasil agradeceu a homenagem, mas afirmou que, por problemas de saúde, não poderia vir a Teresina. Recorremos à professora Francigelda Ribeiro, amiga do escritor, para tentar convencê-lo a vir. Depois de demorada negociação, Assis afirmou que viria, mas, em hipótese alguma, falaria ao público. Contrafeito, veio.

Às 19 h, Assis Brasil adentrou o auditório do Centro de Convenções de Teresina para a abertura da 4ª edição do SALIPI. Ao ser anunciado, as 700 pessoas que lotavam o espaço levantaram-se e o aplaudiram por mais de dez minutos. Aturdido, emocionado e feliz, Assis agarrou o microfone e falou mais de 40 minutos. Afável e cordial, respondeu às perguntas, distribuiu autógrafos, ressuscitou… Emocionado, não me contive e repeti G. García Márquez:” O que a felicidade não curar nada cura”. No ano seguinte, Assis Brasil mudou-se de mala e cuia para Teresina onde, festejado pelo público e sob o guarda-chuva do afeto de Leonardo Dias, escreveu mais uns dez livros.

Seu silêncio deixa-nos mais pobres e mais tristes. De qualquer forma, sua obra permanecerá viva.

(*) Professor, escritor, editor e membro do Conselho Estadual de Cultura.

“Bandeirantes”, de Assis Brasil

Escritor e acadêmico Assis Brasil, autor de “Bandeirantes” e outras mais de 100 obras

    

Francisco Miguel de Moura (*)

                                                                                                      

                       Primeiro pensei em falar apenas sobre o livro “Bandeirantes – Os Comandos da Morte”, Editora Imago, Rio, 1999, Volume I da série “500 Anos da Descoberta do Brasil”.  São 224 pgs. da epopéia do bandeirismo. De Borba Gato a Garcia Pais, Raposo Tavares, Fernão Dias e muitos outros personagens da História, sem contar os inventados.

– Não! – disse comigo mesmo, pois não se deve dizer muito sobre o livro no dia do lançamento, é indiscrição. Sugerir sua leitura, sim, é melhor homenagem ao escritor.

Depois pensei em falar sobre o Autor, Francisco de Assis Almeida Brasil, ou somente ASSIS BRASIL. Mas lembrei-me logo: São 106 livros publicados, contando com “Bandeirantes”, marca até então somente superada, ao que sei, por Coelho Neto. A singularidade de sua construção romanesca foi outra alternativa que me ocorreu. Mas não calha bem para o momento. Uma análise merece paciência e tempo mais do que me é dado.

Situemos, pois, a contribuição de ASSIS BRASIL como escritor. Depois que Jorge Amado parou de produzir, quem seriam os melhores romancistas deste país? Citam-se Rubem Fonseca, Ana Miranda e Assis Brasil. Para meu gosto, o primeiro é um grande contista mas deixa muito a desejar como romancista. Ana Miranda escreveu três romances bons, mas anda longe de possuir a versatilidade de Assis Brasil, que é, sem dúvida, o maior escritor vivo e em exercício, levando-se em conta quantidade e qualidade, sem esconder que Assis Brasil é também o maior crítico literário que possui o Brasil.

Resta dizer o óbvio. Que saiu muito jovem de Parnaíba, onde nasceu, que enfrentou o mundo no peito e na raça, e venceu, continuando os estudos em Fortaleza, onde começa a trabalhar.  E que depois vai para o Rio, onde continua a luta maior, faz-se escritor, participa dos melhores grupos de sua geração, é vanguarda, e torna-se grande. Grande sem vaidade, sem orgulho tolo. Como homem realizado no ofício de escritor, vem-lhe o desejo natural de participar da Academia de Letras de seu Estado e vai eleito, assume, participa, aqui lança seus livros, aqui convive. Embora não tenha exatamente um espírito acadêmico.

Em se falando de Academia, permitam-me uma indiscrição. Na última carta que me fez, Assis Brasil informa: “Ontem fui à posse da Stella Leonardos na Academia Carioca de Letras. Ela é esforçada, quer sair da marginália, mas comete o erro de tentar se afirmar pela periferia…  A coisa é complicada. Passou 15 anos levando bolinhos e chás para os acadêmicos da ABL: Aurélio, Montelo, et caterva, e aplaudiam-na. Era uma festa. Quando se sentiu segura para candidatar-se a uma vaga – merecia – não entrou. Agora, o inexpressivo Murilo Melo Filho, bava-ovo do Bloch… Bem, a Stella teve um voto… Nem a prima Rachel votou nela.”

Depois da morte de Carlos Castelo Branco, nosso Estado ficou sem a representação que possuía na Academia Brasileira de Letras.  Assis Brasil bem merece participar da ABL. O falecimento de Dias Gomes abriu uma vaga. Creio que ele teria mais que o voto que teve minha amiga, a escritora Stella Leonardos. Assis Brasil merece muito mais, já venho dizendo e escrevendo há muito tempo. E por que não o Prêmio Nobel de Literatura para o Brasil e para Assis Brasil? Por que nasceu no Piauí, não merece? Merece, sim. Outros escritores brasileiros também merecem. Mas no momento seria oportuno e justo que alguma entidade cultural o lançasse.

Para nós, é uma alegria tê-lo como amigo, a Academia Piauiense de Letras se orgulha de tê-lo em seu quadro.  O Piauí deve orgulhar-se disto. Os brasileiros devem orgulhar-se da sua inteligência, capacidade e operosidade, do trabalho que faz para que a literatura cresça e prospere. Porque um povo sem literatura é um povo incompleto. Um povo com uma literatura fraca é um povo fraco. Uma língua sem literatura é uma língua fadada a morrer.

Numa época de dificuldades econômico-financeiras como a que atravessamos, é um milagre tanto estímulo para escrever, para publicar, e existir quem dispense tanta atenção como Assis Brasil dispensa à literatura e aos demais colegas, embora reconheça que muitos “coleguinhas” têm ciúme do seu sucesso e porque publica muito. Ora, ora, vão-se às capembas!

Não posso mencionar todos os livros que escreveu. Quanto a “Bandeirantes”, aviso que a introdução de ensaios didáticos, necessários, é bem elaborada. Tendo paciência, aprende-se. É neste ponto que lembramos de “Os Sertões”, com seus capítulos iniciais de geografia, geologia e ciências sociais, antes de entrar propriamente na epopéia de Canudos. E o livro Euclides da Cunha é padrão em nossa literatura.  Também não custa referir-me a uma obra internacional, “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, que possui longa introdução teórico-filosófica. É a tendência universal, pós-moderna, do romance. Os romances históricos de Assis Brasil são assim, muito especialmente “Bandeirantes”.

Com base em historiadores de peso, uns mais criativos e outros mais anotativos, a Assis Brasil não lhe faltam boa matéria e imaginação. O imaginário para o romance histórico americano começa quando se sabe que não se sabe nada da origem dos povos primitivos da América, especialmente os do Brasil. Mas Assis Brasil investiga minuciosamente e coloca muitas perguntas de pé: se somos descendentes de asiáticos, dos atlantis, dos víquingues, dos fenícios, dos árabes ou autóctones. No final do capítulo introdutório, o Autor chega a uma conclusão. É quando escreve que “Ninguém, na realidade, sabe de onde viemos ou de onde se originaram os tupinambás (…)  …mas é simpático e curioso sabermos – talvez pelos desvãos mitológicos da História – que tupis e guaranis, em algum momento teriam exercido o papel de guarda-costeira dos vikings, do rio da Prata ao Amazonas e delta do Parnaíba. Na cidadezinha de Pedra do Sal, no Piauí, existiria um túnel viking, construído para a defesa da colônia e acesso a regiões mais seguras. Cremos que um dia será encontrado. No entanto, é estimulante para o romancista, cuja matéria prima é a imaginação, compartilhar da opinião de alguns pesquisadores que têm ligado a Àsia às Américas e seguido as pegadas dos enigmáticos migrantes, primeiro até a região central dos Estados Unidos, e depois até Monte Alegre, no Pará. Poderiam ter sido duas ‘pinças’ que, afinal, se encontraram. Mas, para os arqueólogos detalhistas, há diferença cultural entre os dois grupos a partir mesmo da ponta das flechas… Admitindo ainda os estudiosos do passado americano e brasileiro que poderiam existir outros povos nesse cadinho de especulação científica e histórica, resta saber quem eram os ‘intermediários’ entre os amazonenses e os norte-americanos.”

Por curiosidade, vão mais estas passagens, diante do que a gente se espanta com a crueldade daqueles homens, colonizadores e bandeirantes: a) –  Que Domingos Jorge Velho “recebeu francos elogios do arcebispo da Bahia por ter trazido, numa de suas entradas, 260 pares de orelhas de índios”;  b)  – que “os homens santos (jesuítas), em 1549, assistiram à cruel demonstração de força do comandante português (Governador Geral, Tomé de Sousa), ao estraçalhar, na boca dos canhões, o corpo de alguns índios velhos… e rebeldes”;  c) –  que “os membros da Companhia de Jesus, como José de Anchieta, diziam coisas tais como estas:  Para este gênero de gentes (os índios) não há melhor pregação do que espada e vara de ferro” .

“Bandeirantes”, de Assis Brasil, é um livro caleidoscópico no sentido próprio e no figurado, pois que apresenta seus personagens no presente, em ação.  Claro que se trata de  uma paráfrase, mas justo onde desponta a criatividade que falta à História, presa a documentos muitas vezes fictícios, forjados, apócrifos – especialmente a nossa. É justamente isto que se admira em Assis Brasil: não repetir-se na estruturação, enquanto escreve tanto, usando da técnica estilística da repetição. Forma, fórmula e fôrma. Assis é adepto da forma, abjura as fórmulas porque é criador, e da fôrma, nem falar, visto que quem a usa é o artesão. Primeiramente, como referi, vêm os ensaios. O romance começa mesmo lá pela pag. 71, com personagens da História que se transformam em personagens de romance, de drama, de tragédia. São eles João Ramalho, Borba Gato, Garcia Pais, Raposo Tavares, Fernão Dias Pais, Maria Betim, Maria Leite, Bartyra, Tanyyá, Tibiriçá, Brás Cubas e outros, em episódios diversos, sendo principais a fundação de São Paulo de Piratininga e Ipiroig.   Mas aí já é a estória da História, a qual nenhum bom apresentador  conta, quando muito aponta,  para que os leitores fiquem de água na boca.

Assis Brasil é um bandeirante das letras, no melhor sentido, enquanto caçador de pedras preciosas, com aquele ímpeto e a coragem indomável de quem sabe que busca o caminho da verdade, da beleza e das virtudes mais humanas.

Finalizando, refiro-me a um pequeno e comovedor episódio de “Bandeirantes”,  do capítulo “Estranho Leilão”.  O capitão Matias Cardoso e Fernão Dias Pais se encontram, descem de seus cavalos, abraçam-se e conversam sobre os entreveros com os índios mapaxós. Fernão Dias preocupa-se com os filhos José Dias e Garcia Pais e por um instante fica pensativo, coça a longa barba branca e diz que o primeiro “é veterano no combate e no matar”, mas Garcia Pais, embora animado, é inexperiente. Terá coragem de matar no fragor da batalha, mas, a sangue frio, que acontecerá? E se, chegado o momento, ele fracassar?

Matias Cardoso, entretanto, lhe assegura que Garcia Pais matará, “se é que já não matou”.  E acrescenta que o menino traz essa vocação no sangue.

Mas, inconformado, Fernão Dias contrapõe: – “Sei que não é hora nem tempo para tal assunto, primo Matias. Nunca conversaria sobre isso com Borba Gato ou com José Dias. Eles já estão macerados pelo que viveram e presenciaram de violência e de matança. O meu jovem Garcia Pais, sei, tem algo que os outros não têm… ou que já tiveram. É o lado bom da mãe dele. Não, não gostaria de vê-lo perder a face de misericórdia e de perdão. Tampouco posso dizer isso para Garcia Pais. Tenho me feito durão, frio, calculista perante ele. É que já fui como meu filho…”

Para os que acham que a arte não tem nada a ver com a moral,  o episódio do romance de Assis Brasil sirva de lição. Até àqueles homens turbulentos, cruéis, assassinos, o remorso chega pela pena do romancista:  é uma luz na escuridão dos  espíritos.

Esta foi a minha leitura, vocês farão outras, certamente. A literatura é o reino da liberdade. E o romance é o melhor gênero para exercê-la. Leiam o romance de Assis Brasil, é a melhor homenagem que podemos prestar a um autor.

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* Francisco Miguel de Moura é escritor e membro da APL. Apresentação de “Bandeirantes” na Academia Piauiense de Letras.

  Crônica para Nildomar

                                                                                                                                                                                                Humberto Guimarães (*)

Foi por volta de um pouco mais de duas décadas, o que significa no século passado, que eu o conheci – sem saber da sua identidade, do seu perfil físico, do seu semblante, da sua sombra; sabia apenas isto: que era um ente humano no sentido maior da raridade do que deveria ser frequente nos indivíduos do reino animália que falam, que pensam e que odeiam ser chamados de primatas, embora sendo; era o benfeitor invisível de alguém que necessitava de tratamento especializado para o estado combalido da saúde. A consulta era paga, a medicação era cara, tinha que ser mesmo a melhor, e o que é melhor é caro. Foi um tratamento demorado e custoso.

Um certo dia, anos à frente, começo de século novo, o já ex-cliente procurou-me, disse que queria fazer-me um pedido: queria meu voto. Eu ri, perguntei-lhe se ele iria candidatar-se a vereador, respondeu que não era para ele, era para o Dr. Nildomar da Silveira Soares, que se inscrevera na vaga do Dr. Gerardo Vasconcelos. Era o ano dois mil. Eu fui à APL conferir, tomei conhecimento, não tive dúvida, votei.

Eleito, Nildomar tomou posse da titularidade da cadeira 22 no dia 27 de setembro do ano 2000, tornamo-nos amigos, conversamos bastante quando das reuniões aos sábados, falamos um pouco das nossas biografias, eu lhe disse ter estudado no Ginásio Leão XIII, turma de 1960 a 1964, ele disse ah, então foste colega do meu cunhado Pedro. Sim, fui, ele era um cara engraçado, contador de piadas e gostava muito de rir; uma companhia agradabilíssima, ninguém ficava de cara fechada em sua presença. O que é feito dele? Ele já morreu, coitado, ainda muito novo – e disse da enfermidade e onde foi que o Pedro morreu.

E foi assim que conheci o desembargador Nildomar da Silveira Soares, um homem de estatura brevilínea, cabeça braquicéfala, semblante aberto pela satisfação de viver; simples, jamais simplório; humilde na aparência, econômico nas palavras, emitindo mensagens com boa síntese do pensamento; não recuava de tarefas que requeriam minuciosas pesquisas em alfarrábios. Jamais o vi antepor uma dificuldade, mesmo tendo seus quefazeres no tribunal – e surpreendia pela perfeição do trabalho, fosse um parecer jurídico, fosse uma realização enciclopédica, o que fosse; fazia-o com a mesma singela grandeza. Nunca lhe vislumbrei ares de vaidade ou lordóticas poses – nem no discurso, nem no gesto; e o seu silêncio à mesa das reuniões, entretanto, surpreendia pela tenacidade da atenção de começo a fim, sem o pestanejo do famoso cochilo acadêmico, sendo ele um verdadeiro acadêmico. Conviveu conosco desde o dia da posse até… 22 de agosto de 2021, e deixou a lembrança e os sinais de sua passagem na história desta casa.

Do que mais gostei no seu discurso de posse, foi da defesa da língua portuguesa, que está a cada dia sendo estuprada por uma enxurrada de palavras-clichês, locuções, lugares-comuns, estereótipos, maneirismos, corruptelas ou gírias estrangeiras. Não se trata de xenofobia; o problema é que chegam, assumem o lugar da nossa e permanecem absolutas com a maior cara-de-pau: aí estão as lives que escorraçaram as palestras, aulas ou conferências; as deliverys ou deliveres (que lembram a délivrace francesa dirigida à expulsão da placenta e anexos após o parto propriamente dito, e a livrança portuguesa do livrar-se ou ver-se livre) que expulsaram as entregas em domicílio; os drive thrus americanos (corruptela ou malformação da palavra throug)ou drive-ins aplicada na Europa estendendo o sentido para outros serviços além das comidas recebidas através do carro e por aí vai, enquanto as nossas se atrofiam e desaparecem por falta de uso. Estas coisas lembram-me as abelhas italianas e as africanas que invadiram a nossa flora, mataram as nossas abelhas nativas e se impuseram com rainha, zangão e tudo.

Nildomar, naquele discurso, reavivou a batalha inacabada do professor A.Tito Filho, e foi depois dele que eu mandei fazer um quadro grande com o soneto de Olavo Bilac, Língua Portuguesa, que doei à nossa Academia.

Mas, voltando ao ex-paciente que me apareceu para pedir voto para Nildomar, na eleição acadêmica, citado no começo destas linhas: “Você é amigo dele?” – perguntei. “Sou, doutor, ele é que pagou meu tratamento”.

Era este o Nildomar da Silveira Soares que admirávamos e que acabamos de perder!

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(*) Psiquiatra e membro da Academia Piauiense de Letras, onde ocupa a Cadeira 7.

Não vivemos um prenúncio de 64 (I)

Não vivemos um prenúncio de 64; como querem a direita e até a suposta esquerda. Mas, especialmente setores empresariais que detestam política partidária, com democracia, em sua maioria. Muitos preferem um teto ditatorial. O cenário atual do país não tem conotações e/ou características com a situação político-institucional preexistente e instável como naquele infausto ano de 1964.

As Forças Armadas de então não aceitavam o Vice-presidente João Goulart (PTB) tido como notário político de esquerda e “Comunista”, bem como alinhado com as políticas doutrinárias em ação no leste Europeu, na Rússia e na Itália, além de Cuba. Também identificado com os sindicatos, supostamente de esquerda, e com cabos, soldados, marujos e sargentos do Exército, Marinha e Aeronáutica, aos quais dera apoio proeminente. Não tinha diálogo com o Congresso Nacional – Senado e Câmara.

E o líder gaucho Brizola, cunhado do Vice presidente, concitava as massas alimentando convulsão social com o seu poder popular e oratória eméritas, convincentes.

O quadro atual é completamente diverso. As instituições funcionam regularmente. Os Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo trabalham, embora as divergências naturais e normais entre todos, resultado da democracia liberal consolidada no País. Embora ainda os problemas estruturais existentes na Educação e na Saúde; os milhares de famintos e analfabetos, além de forte desemprego. E problemas gravíssimos nas contas Públicas. Entretanto, reafirmamos, as instituições funcionam. E essas distorções sociais, políticas, econômicas, institucionais sempre existiram. Justamente porque não há políticas públicas permanentes e duradouras na área do planejamento estratégico de longo prazo. Os milhões, cerca de 5 milhões, sem habitação, por exemplo.

O país vive um momento difícil. Principalmente porque a ex-presidente Dilma Rousseff, despreparada por o exercício do cargo, e da suposta esquerda petista, foi desapiada da presidência pela ação de “impeachment” do Congresso Nacional. E o presidente Lula, então presidente, o líder popular mais relevante do Brasil, está preso por decisão democrática de Judiciário. Isto é, ação efetiva da Justiça; um dos pilares do regime democrático. Ação na qual o ex-presidente exerceu o amplo direito de defesa, o contraditório. E Lula foi um dos grandes construtores da democracia brasileira. Fez um Governo baseado em princípios republicanos. Desenvolvimentista. O País cresceu à taxa de 7,5% ao ano. Inédito! A liberdade de imprensa, termômetro da democracia, era e é exercida naturalmente.

Entretanto, compreendemos que Lula olvidara até do que conseguira construir para os brasileiros e o Brasil. A reforma do Poder Judiciário que havia  10 anos dependia de aprovação no Congresso Nacional.  Foi, talvez, uma das maiores ações do seu governo e gestão vanguardantes.

O pré-1964: as greves constantes; forte convulsão social existente; as instituições sem credibilidade e funcionamento muito baixo; moeda desvalidada; o Congresso Nacional sem credibilidade… O presidente da República não tinha diálogo com os políticos e o Congresso porque se identificava preponderantemente com a classe sindical e os militares de baixo escalão, como dissemos, cabos, soldados e sargentos, sempre amotinados, revoltosos e contrários ao Estado Maior. Havia uma grande indisciplina intra-militar, o que indignara o Estado Maior das Forças Armadas. Os militares entendem que eram estimulados à insubordinação pelo Presidente João Goulart e os seus líderes. Portanto, diante do quadro político, sem solução, o presidente renunciou a presidência e a Junta Militar assumiu. E, como resultado, 21 anos de ditadura militar.

O país não vive esse cenário relatado acima com o presidente Michel Temer. E Temer não cassou Dilma Rousseff. Foi uma ação político-institucional do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal – STF. Consequentemente, sem golpe, embora as falácias. Ademais, todas as instituições funcionam regularmente; ainda que com os problemas estruturais abundantemente existentes, que o presidente tenta corrigi-los e/ou contorná-los ou resolvê-los. Entretanto, não os lança para debaixo do tapete, cujo procedimento era o habitual. Ele os enfrenta determinadamente. Conversa, incansavelmente, com o Congresso Nacional. E consegue aprovar projetos do interesse do Brasil que estabilizam o seu Governo e o país. A economia cresce, embora lentamente. Há um rumo para estabilização da economia, sem recessão. A produtividade da indústria aumenta. O desemprego, ainda que muito alto, começa a refluir de sua grande quantidade. (Continua no próximo)

Magno Pires é membro da Academia Piauiense de Letras, ex-Secretário da Administração do Piauí, ex-consultor jurídico empresarial da Companhia Antactica Paulista (Hoje AMBEV) 32 anos. Portal www.magnopires.com.br com 101.650.000 acessos em 8 anos e cinco meses, e-mail: [email protected].

 

O Humor no Jornalismo de Zózimo Tavares

Pode-se analisar e considerar o jornalismo como uma instituição social formada historicamente para oferecer conteúdos que tenham características de atualidade e de relevância para um público amplo e diferenciado. Tal papel é executado pelo jornalismo que conquistou uma legitimidade social para produzir uma reconstrução discursiva do mundo, com base em um sentido de fidelidade entre o relato jornalístico e as ocorrências cotidianas.

A maior importância do jornalismo é que ele permite efetivamente que as pessoaspossam fazer uma análise de suas ações, para que possam compreender a evolução dos processos sociais marcados por discursos exaltando a liberdade e a democracia da imprensa, demonstrando o papel do jornalismo na construção da identidade nacional. (SIROTSKY, 2006)

Em referência ao fragmento que se cita acima há uma essência de informação e dos aspectos que a singularizam em relação outros elementos, os quais são tratados socialmente, como pontos de vista, que revelam determinadas ocorrências selecionadas do mundo social. A base de critérios e valores operacionais se encarrega de dar sentidos específicos a estas ocorrências selecionadas, ao utilizar linguagens e conteúdos comuns em uma coletividade.

O que se deseja é examinar a característica mais típica de sua produção: a irreverência no trato dos fatos políticos do Piauí. A forma bem humorada, às vezes sarcástica que Zózimo trata as notícias, do meio político e social locais é singular, embora as ocorrências não sejam comuns apenas no Piauí. (CUNHA, 1997, p. 04)

É interessante notar que o jornalismo aberto não possui uma unidade conceitual mínima que possa medi-lo. Zózimo Tavares utiliza-se de um artifício interessante, ele constrói através do “novo”, uma forma de expressar o que pensa, sendo isto, um critério marcante no jornalismo a que ele se propõe fazer. Seguindo ainda essa noção, em sua forma de transmitir a notícia, como o classifica outro expoente do jornalismo piauiense Paulo Cunha, “ressalta-se as diferentes maneiras de expô-la ao público que lê e admira o jornalista que tem de mais útil: a palavra serviço de verdade”.

O estudo está dividido em cinco capítulos, dos quais; o primeiro aborda de forma inicial uma breve definição para humor, aqui analisada, para que se entenda sua importância para o jornalismo; no segundo traça-se um esboço histórico do jornalismo piauiense, na busca de entender como o jornalismo começou no Piauí; no terceiro, buscou-se um aprofundamento teórico acerca do pesquisado como um estudioso do jornalismo e suas concepções; no quarto capítulo, analisa-se os conceitos e considerações sobre o formato do jornalismo de Zózimo Tavares, procurando abordar novos paradigmas e deliberações para a compreensão do tema em foco; no quinto, procura-se entender o humor satírico do jornalista que intitula esta obra, com atenção à realidade das construções críticas que ele elabora no decorrer de seu trabalho, incluindo novas acepções e perspectivas do jornalismo piauiense, elabora-se após estas construções as considerações finais.

CAPÍTULO I -UMA DEFINIÇÃO PARA HUMOR

É engraçada a forma de como ao longo do tempo, o homem vem buscando maneiras para solucionar seus problemas, resolver seus dilemas, indagar sobre suas angustias e fazendo um paralelo com a filosofia grega, “seu mero existir”. Para tanto, historiadores, arqueólogos, antropólogos, dentre outros estudiosos, vêm buscando analisar de forma coesa e prática, questões que pertinem a existência humana, desde a sua formação, e são repassadas de maneira hereditária. Por mais que se tente responder estes questionamentos, ainda carecem de indumentárias mais consistentes e por isto, devem ser discutidos com mais profundidade.

(…)O homem para resolver seus enigmas foi inventando mitos e deuses, filosofias e artes, para expressar suas idéias, sua perplexidade frente à vida. Olhar para poder penetrar os mistérios humanos e naturais. Foram os gregos que na Antigüidade criaram o teatro, a filosofia, a política e a literatura para expressar uma nova fase de descobertas, sobre o “estranho” ser humano, que sabe chorar e rir, que sofre e alegra-se. Nos famosos festivais de teatro na Helade, durante um dia inteiro, toda a população da cidade assistia tragédias e comédias, que eram “as diferentes janelas para a mesma paisagem humana”, escreveu Tchekov (…). (SLAVUTZKY, 2007).

Durante muito tempo a existência do homem foi baseada e norteada pela religião, fosse ela politeísta ou monoteísta e por isto, detinha um caráter extremamente teocrático, sendo tudo o que acontecia de bom ou ruim na vida dos seres humanos, responsabilidade dos Deuses, aos quais os mesmos reverenciavam.

Esta maneira de interpretar os acontecimentos através da fé, era no exemplo citado acima, uma maneira de dar razão ao seu existir e de criar formas de divertir ou mesmo preencher seu tempo repetindo de maneira crítica, às vezes trágica, às vezes cômica, os fatos do seu dia-a-dia. Segundo alguns estudiosos, neste processo de formação psico-social, houve as divisões do que seria triste ou alegre, certo ou errado. Por isto que a reprodução teatral da vida cotidiana possui como se costuma dizer, “uma moral da estória” e a partir destas noções, se repete de forma cognitiva o que se aprendeu.

Por conta destes conhecimentos segundoSlavutzky (2007) nasce o conceito de uma das formas mais sui generis de se interpretar os fatos, o humor. “(…) A palavra é latina, humor “humoris”, é líquido, fluido, humores do corpo humano como o sangue, a linfa, a bílis, enfim as seivas da vida (…)”.

Ao se vislumbrar este conceito, entende-se que a origem e a primeira interpretação da terminologia é médica, e foi aplicada pelos gregos, cujas noções primordiais foram dadas por Hipócrates, este estabeleceu relações entre os temperamentos e reações dos seres humanos ao que ele chamou de humores, que eram os líquidos corporais. Seguindo esta corrente de entendimento, que tem sustentabilidade até o fim da Idade Média, os humores do corpo humano, ou seja, os seus fluídos, influiriam no caráter dos indivíduos, no temperamento e em outras questões pertinentes aos mesmos.

Por volta do século XVII, a palavra Humor começou a ter o significado que conhecemos na atualidade. Para Pablo Neruda, “foi em 1906 que Louis Cazamian,um jovem professor de literatura inglesa e um grande estudioso da literatura, escreveu um artigo cujo título era: Porque não podemos definir o humor”. Este título, portanto, era paradoxal e bem humorado, pois em seguida ele tenta definir o humor a partir de seu mecanismo estético.

O humorismo consiste no sentimento do contrário, provocado pela especial atividade de reflexão que não se esconde, como geralmente na arte, uma forma de sentimento, mas o seu contrário, mesmo seguindo passo a passo o sentimento como a sombra segue o corpo. Para o humorista, as causas na vida, não são nunca tão lógicas, tão ordenadas, como nas nossas obras de arte comuns. Aquele decompõe o caráter em seus elementos, mostrando as suas incongruências. O sentimento do contrário tão bem descrito por Luigi Pirandello (colocar referência) é uma das essências do humor, que permite relativizar tudo e quebra toda seriedade teórica e prática seja do que for. (SLAVUTZKY, 2007)

Considerando que o humor seja um ato de desdobramento e reflexão em um mesmo ato de concepção, e por conta disto, está involuntariamente ligado a todo sentimento, impulso, pensamento e reação que surge no humorista, e assim é descrito através de sua maneira crítica de fazer este humor, que se desdobra em seguida em um caráter contraditório e dúbio no qual, em determinados momentos, todo sim pode virar não e por vezes um não pode assumir o valor de um sim. E por isto, para alguns críticos da arte de fazer humor, esta forma de expressão não leva a sério nada, nem a si mesma.

Crônica do Fome Zero

Quanto ao programa social que é a menina dos olhos do governo Lula, o Fome Zero, tem muita gente falando sobre a fome de barriga cheia. Mas espero que ninguém venha a morrer pela boca, embora o programa precise de mais lingüiça e menos farofa. Se uns acham que ele não vai dar um caldo, outros acham que vai ser sopa.

Como a fome é um osso duro de roer, nessa panela todos querem meter a colher. Mas o governo puxa a brasa para a sua sardinha. E, já que o caldo está engrossando e esquentando, começa comendo pelas beiradas. É importante não morder a língua.

De qualquer forma, o Fome Zero é uma salada. Uma salada ideológica sem sal, para uns, e apimentada, para outros. Enquanto uns querem metê-lo de goela abaixo, outros não querem engoli-lo sem mastigar. Nem sei para quê tanta polêmica, se todos concordam que o programa é de fácil digestão.

Mas que o governo Lula não seja apenas um governo feijão com arroz! E que o Fome Zero, o filé do governo, não acabe em pizza! (TAVARES, 2007, Jornal Diário do Povo)

Vê-se no fragmento supracitado, que o autor do mesmo enfatiza um programa criado pelo governo e analisa a situação política de forma irônica, um tanto sarcástica e ao mesmo tempo crítica. Temos assim um exemplo palpável, do que se busca identificar no que seja o humor e algumas de suas ferramentas. Enfim, o que se pode denominar como semelhanças e diferenças entre os conceitos, ferramentas e quais as suas aplicações?

Ao tentar caracterizar o humor, são geradas diversas indagações e dúvidas sobre as relações deste com a comédia, com o cômico, com o riso, com a piada, dentre outros elementos que compõe o que alguns estudiosos chamam de “forma alternativa de ver a sociedade e suas relações”. Por conta destas noções, o humor é dividido por muitos dos que o utilizam, em diversas e inúmeras classificações, as quais se fossem citadas, tenderiam a uma exaustiva análise, o neste contexto não se faz necessário. Abre-se aqui, apenas uma pequena interlocução entre os elementos deste segmento.

Realmente estabelecer diferenças precisas não é fácil e às vezes pode até ser inútil. O cômico como fenômeno antropológico responde ao instinto do jogo, do lúdico, ao gosto do homem pela brincadeira e pelo riso, a sua faculdade de perceber aspectos insólitos e ridículos da realidade física e social. (SLAVUTZKY, 2007)

O cômico possui como principal noção a liberdade, ajuda a liberar as tensões e fazer as pessoas se olharem de forma diferente, algumas vezes, o cômico se utiliza do humor como ferramenta e instrumento para denotar nas pessoas tais sensações e sentimentos. Mas isso não implica dizer que ambos sejam iguais, logo, segundo Slavutzky (2007) “(…) O cômico expõe uma contradição engraçada e o humor cria uma reflexão, portanto o seu riso é filosófico”.

Historiadores afirmam que a comédia vem do grego Komedia, “Komos era uma canção ritual, parte de um desfile em homenagem a Dionísio, Deus do vinho, da alegria e da orgia”. Segundo esta linha de estudo, para os gregos, haviam três critérios os quais formam uma espécie de composição contrária a tragédia, uma oposição a mesma na qual: “os personagens eram em sua maioria de classe inferior, o desenrolar da narração é feliz, o que consiste em provocar o riso do espectador”. Sobre isto, entende-se

“(…) a comédia é uma imitação de homens inferiores. O riso do público é de cumplicidade e de concordância, o que protege quem os provoca, da angústia trágica de sua realidade, dando-lhe um sentimento de superioridade ante os mecanismos de exagero escreveu Aristóteles”. (PILETTI, 2006, p. 184)

O humor como tudo o que foi criado pelo raciocínio e pela lógica humana possui uma história, mas não se sabe, de forma exata, especificar como e quando ele começou. No entanto, é deveras mais fácil e possível avaliar o humor de um povo, a partir de sua literatura, manifestação esta que deve ser vista como principal na cultura de um povo, independente de quem sejam os personagens ou mesmo de quem a narre. Sem a literatura e suas diversas formas, seria impossível diferenciar os povos, suas sociedades e com elas sua evolução.

Por conta danecessidade de impressão do que é dito, o humor oral nem sempre é acessível e passível de entendimento. Cita-se como exemplo, as manifestações humorísticas e até mesmo lingüísticas, de algumas tribos indígenas americanas, africanas ou de qualquer continente, nas quais, de maneira quase que óbvia sabe-se que o humor e suas vertentes devem existir, mas que sem uma escrita e uma análise da mesma, torna-se muito difícil avaliar e estudar tais manifestações.

O que se entende com este breve estudo é que com o humor e suas formas, o homem aprende a viver com uma nova liberdade trazida pelo riso, e também com uma dita forma filosófica e inteligente, permissiva, na qual, através dele o ser humano ria de si mesmo e dos seus semelhantes, dos problemas e dilemas. Por isto, o humor cresceu nos últimos séculos, conquistando espaços a ponto de ir ocupando cenários e locais cada vez mais destacados nos meios de comunicação e formação de opinião, como no jornalismo e na propaganda.

CAPÍTULO II – UM BREVE ESBOÇO HISTÓRICO DO JORNALISMO NO PIAUÍ

Durante um bom tempo, no período colonial, pouco se tinha noção do que era imprensa oujornalismo no Piauí. Os jornais que se tinha acesso aqui na província eram advindos de outros estados, como Pernambuco, Ceará e claro, das províncias do sul. Haviam aqui apenas manuscritos, relatos e obras literárias do gênero, narrando ou abordando fatos pitorescos da cultura e da sociedade local da época.

Só no ano de 1832, surgiu o primeiro jornaldo Piauí, “O Piauiense” por iniciativa do Poder Público, em nome do governo da província, que na época estava sob responsabilidade de Manoel de Sousa Martins, que soube de maneira informal que o Padre Antônio Fernandes da Silveira, era tipógrafo e possuía uma máquina de tipografia. Segundo alguns relatos da época, padre Antônio, treinou dois seminaristas, que mais tarde foram ordenados padres e também se tornaram os primeiros redatores oficiais da província, os Padres Amaro Gomes dos Santos e Antônio Pereira Pinto do Lago.

Passados cerca de três anos, foi criada a Assembléia Legislativa Provincial, composta por influentes fidalgos e fazendeiros locais, e que inaugura no ano de 1835, o jornal “O Correio”, responsável pelas edições dos discursos e das pautas oficiais de discussões que ocorriam na Assembléia Legislativa Provincial do Piauí, possuindo também um caráter oficial. Mais tarde surge também sob a direção e financiamento do Barão da Parnaíba, o jornal “O Telégrafo”, que tinha como principal objetivo expor e instigar na opinião pública, de que o então Visconde da Parnaíba era a favor da conjuntura da Balaiada.

Foi em 1853 que surgiu o jornal “A Ordem”, criado pelo então Governador Antonino Freire, que também através de um decreto executivo, formulou e apoiou a criação de uma Imprensa Oficial, que tinha como função imprimir e fazer circular as opiniões do governo da época. Na cidade de Teresina foi criado O Dia, fundado no dia 1º de fevereiro de 1951, sendo ele o jornal impresso mais antigo do estado e que ainda permanece atuante e em circulação.

A luta política, nunca arrefecida, fez proliferar em Teresina o Jornalismo. Não havia na imprensa neutralidade política: escrevia-se a favor do governo ou contra ele. (…) Houve mesmo um louvável esforço de fixação de aspectos de nossa história, Miguel Borges Leal Castelo Branco, por exemplo, deve-se uma série de artigos, verdadeiras biografias de piauienses ilustres, que muito auxiliarão os estudiosos de hoje na reconstituição histórica do passado. (CHAVES, 2005, p. 50)

No fragmento que se cita acima, percebe-se uma característica, até hoje auferida e atrelada aos meios de comunicação do estado do Piauí, principalmente no jornalismo impresso, os quais, de alguma forma sempre estão a serviço de determinado grupo político. Razão pela qual, a maioria destes grupos sempre financiou ou é proprietária de um destes meios de comunicação, o que acaba por interferir em seu padrão de neutralidade e às vezes até de credibilidade.

Este estigma permanece e se prolifera desde a formação dos primeiros jornais que circularam no Estado e por isto, são determinantes até hoje, para a manutenção de alguns grupos políticos no poder. Na maioria dos casos, estes jornais utilizam-se de uma linguagem que pode ser denominada de fanática e apaixonada em defesa de seus interesses e também de seus jargões políticos, podendo por vezes, utilizar-se de abordagens um tanto ofensivas para replicar e combater aos opositores.

No Piauí, a imprensa insere-se no campo da política de tal maneira que essa incorporação não significa apenas o vínculo ao partido como também a apresentação em público através de textos que circulam no meio intelectual e da elite social. O conteúdo publicado nos jornais piauienses era intimamente marcado pelos interesses políticos dos partidos o que causava sérios danos à imparcialidade jornalística. (CHAVES, 2005, p. 98)

Sempre houve no Piauí uma defesa fervorosa e acirrada de teses de algumas facções políticas, por algum profissional da área jornalística, fosse ele simpático personalmente a causa ou por barganha de alguma vantagem, o que a seguir, acabava assimilando em suas produções o conteúdo por eles expressos. Criava-se com isto, um círculo de informações onde na maioria das vezes, gerava vínculos com determinadas siglas o que culminou redundantemente na filiação partidária de muitos jornalistas, que posteriormente tornaram-se políticos, para continuar mantendo suas idéias e jargões.

Nos séculos XIX e XX, a imprensa constitui instrumento importante para a legitimação de conservadores e liberais, a exemplo de outras capitais brasileiras, todos estes jornais, patrocinados por famílias, debatem questões ligadas à política. Seus proprietários e redatores têm sua origem nos núcleos familiares dominantes, divididos em correntes distintas. (RÊGO, 2001, p. 08)

Em maio de 1940, foi inaugurada a primeira emissora de radiodifusão do Piauí, a Rádio Educadora de Parnaíba, em uma grande solenidade e ato festivo do qual participaram muitas autoridades locais e estaduais. Já em Teresina, a primeira emissora de rádio: a Difusora de Teresina foi inaugurada em julho de 1948, e tinha na família Pacheco sua direção, sendo ela a principal proprietária.

Possuía a rádio Difusora de Teresina um grande alcance e interesse social, dentre outros aspectos, pelo poder de formar opinião. A Difusora como era chamada na época, depois passou a fazer parte e a integrar a grande cadeia de emissoras espalhadas por todo o país. Só na década de 80, foi que a rádio foi vendida, passando com isto, ao domínio de grupos empresariais locais.

A hoje conhecida e aclamada Rádio/TV Clube foi inaugurada em 1960, pelo professor Walter Alencar tendo como outro grande sócio e acionista o governador Chagas Rodrigues. Passados alguns anos, a família Alencar comprou a outra parte da antigasociedade e atualmente a emissora pertence apenas ao grupo Alencar. Foi em 1962 que o saudoso Dom Avelar Brandão Vilela, fez surgir outra emissora, a Rádio Pioneira, que na época possuía apenas uma programação mais evangelizadora e educativa, contendo também noticiários locais.

Foi só na década de 70 que o Piauí teve acesso ao meio de comunicação que revolucionaria a sociedade contemporânea, a Televisão. A primeira transmissão televisiva do Estado ocorreu pelas mãos do saudoso professor e visionário Walter Alencar, que ao fundar a TV/Rádio Clube, com o slogan de “A Força de Um Ideal”, mudaria os rumos da comunicação Piauiense. Desde a sua fundação, a TV Clube, consolidou uma parceria com a Rede Globo de Comunicação, retransmitindo através de seu sinal a programação diária da TV Carioca.

Mais tarde foram surgindo novas emissoras de televisão, que também foram criadas por grupos empresariais e com certo envolvimento circunstancial político, no intuito de consolidar suas ideologias e também de formar opinião de massa, devido ao grande alcance deste meio de comunicação, se implantaram em Teresina:

§A antiga TV PIONEIRA, hoje TV CIDADE VERDE, foi criada em março de 1986, atualmente transmitindo a programação do Sistema Brasileiro de Televisão – SBT, pertencente no Estado ao Grupo JELTA;

§TV ANTARES, fundada em agosto de 1987, pelo então governador Alberto Silva, a antiga TVE-PI, transmite atualmente o sinal da TV Cultura, e continua pertencendo hoje ao governo do Estado, sob a direção de Rodrigo Ferraz.

§TV ANTENA 10, fundada em 19 de dezembro de 1988, hoje é responsável pela programação da TV Record no Piauí e também é de propriedade do Grupo JET;

§TV MEIO NORTE, respondendo pelo sinal da TV Bandeirantes no Estado, esta emissora foi criada em 1995 e pertence ao Grupo Paulo Guimarães.

§TV ASSEMBLÉIA, fundada em 2007, sendo a mais nova emissora criada no Estado, tem uma total inserção e identificação política.

Está ultima emissora, citada acima, é responsável pela informação e cobertura de todos os fatos políticos e pitorescos, acontecidos nos plenários da Câmara Estadual e também por matérias e reportagens sobre o que ocorre na Câmara Federal, no intuito de manter a população informada e atenta em seus representantes. Também ainda fazem parte de sua transmissão, programas diários sobre diversos outros temas educativos e ainda jornais informativos.

No jornalismo, podem surgir variadas formas de abordagens, isto por existirem vários tipos de corrente de pensamento e tradições teóricas, que de acordo com a ideologia ou o comportamento dos políticos pertencentes a algumas siglas, estas abordagens podem conter variados tipos de análises, dando às vezes tons críticos, irônicos, sarcásticos ou até mesmo de concordância, dependendo com isto, da forma como se interpreta as correntes conceituais divergentes.

Alguns dos conceitos fundamentais do jornalismo, “como a neutralidade, a objetividade, a imparcialidade e a atualidade, diferenciam-se no modo como são considerados não passando, com isto, por vezes, de uma desconstrução conceitual a uma desconsideração como objeto teórico relevante para que se atinja defesa acrítica como princípio ideal” (FRANCISCATO, 2006). Num trabalho apresentado no VI Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom,uma das participantes do mesmo fala que:

“Jornalismo que cobre a área de notícias culturais, como por exemplo, filmes, peças de teatro, música etc.”, mas, essencialmente, mostra quão árdua é a tarefa de o jornalismo cobrir universo cultural tão amplo como o brasileiro(apud. CASTELO BRANCO, 2007,visitado em 30 de novembro)

O que se percebe com o fragmento citado acima é que em pleno século XXI, o jornalismo piauiense ainda tem pretensões e pendências para o domínio do colunismo social, sendo mais restrito ainda, por resumir-se ao colunismo local. De certa forma esse jornalismo possui uma abordagem interessante, com uma linguagem atual e dinâmica, mas que, sobretudo, não valoriza de forma eficaz a notícia, por ainda prevalecer o velho jogo de vaidades e interesses pessoais, como em coberturas de eventos sociais. Pensamentos como o de Zózimo Tavares acrescenta sobre o assunto:

(…) hoje o que se vê é que o suplemento cultural da maioria dos grandes jornais foi transformado em cadernos de variedades. Com o passar do tempo, as reportagens, perfis, entrevistas, resenhas críticas e polêmicas que diferenciavam o jornalismo cultural como uma prática saudável e inteligente foram substituídas por material que chega “pronto” às redações, despejado a mão cheia pelas assessorias de imprensa de artistas, editoras, produtoras, TVs, bandas musicais etc., com apelo crescente para o besteirol.( apud. CASTELO BRANCO, 2007,visitado em 30 de novembro)

Através desta citação, percebe-se como é caracterizado pelo patrono deste trabalho o jornalismo, que com seus 27 anos de carreira, corrobora com as idéias interpostas anteriormente e mais, são por ele reiteradas, quando Zózimo fala em entrevista concedida:

O nosso jornalismo tem as mesmas virtudes e fraquezas do jornalismo praticado em qualquer estado brasileiro. Temos muita coisa medíocre. Mas temos muita coisa boa. Temos um diferencial: não há uma só empresa de comunicação do Piauí nas mãos de grupos políticos. Há alinhamentos circunstanciais com o governo, com qualquer governo, de qualquer partido, mas mesmo essa relação vem mudando. (TAVARES, 2007, Entrevista Concedida.)

A partir da citação anterior, deve-se também salientar, as relações temporais presentes em algumas matérias e conteúdos jornalísticos, as quais, variam conforme o grau de contextualização e alinhamento dos profissionais que as elaboram. Por conta disto, conforme as relações estabelecidas pelos produtores entre estes conteúdos e situações ou temas vistos de uma perspectiva temporal mais ampliada, o que no jornalismo piauiense começa a ser aplicado e proposto.

Diferentes gêneros jornalísticos possuem variações de tratamento e amplitude da perspectiva de atualidade (ou de potencial desatualização) exemplo disto, é o jornalismo feito pelo homenageado nesta obra, o qual aborda a política de forma crítica e humorística e vice-versa. E como divide um dos grandes estudiosos da teoria jornalística, “(…). Os gêneros são formas assimiladas pelo hábito, formas que se pode ensinar e aprender” (GOMIS, 1991: p. 44).

CAPÍTULO III – UM ESCRITOR JORNALISTA

Zózimo Tavares Mendes foi o primeiro dos filhos do poeta e escritor João Tavares do Nascimento e da dona de casa, mas extremamente culta e inteligente dona Maria Helena Mendes do Nascimento. O reverenciado jornalista nasceu no dia 04 de abril de 1962, em Novo Oriente, estado do Ceará.

Na verdade eu só nasci no Ceará. A minha vivência toda está no Piauí, a minha infância e adolescência estão incorporadas em Água Branca e o período da maturidade e o profissional já em Teresina, mas sendo sincero, eu me considero um piauiense nato. (TAVARES, 2007, Entrevista Concedida.)

Zózimo teve grande parte de sua criação, infância e a adolescência na cidade de Água Branca (PI), que está situada a cerca de 100 quilômetros da capital Teresina, onde o jornalista firmou residência e domicílio desde 1978. Teve aos 7 anos, o início de sua jornada educacional e começou a receber instrução formal, no Grupo Escolar Dom Avelar Brandão Vilela, ainda em Água Branca, mas o mesmo pelo incentivo e cuidados de sua mãe já entrou na escola sabendo ler e escrever.

Fui alfabetizado, em casa, pela mamãe, Maria Helena Mendes do Nascimento, pela tradicional “Carta de ABC”. E com papai, que era o poeta e popular, João Tavares, aprendi nessa época a fazer versos, que como ele dizia eram de “pé-quebrado”. (TAVARES, 2007, Entrevista Concedida.)

Cursando primário, antigo (Ensino Fundamental Menor – de 1ª a 4ª séries) na Unidade Escolar Monsenhor Bóson, que pertence à rede estadual de ensino, Zózimo já se destacava pelas boas notas e facilidade em aprender. No Ginásio Dom Severino, fez o curso ginasial (Ensino Fundamental Maior – de 5ª a 8ª séries). Em janeiro 1978, Zózimo mudou-se para Teresina, em busca de dar prosseguimento aosseus estudos se matriculou na antiga Escola Técnica Federal do Piauí (hoje CEFET – Centro Federal de Ensino Tecnológico)de onde saiu e posteriormente profissionalizou-se, como jornalista.

Com menos de 15 anos, o jovem Zózimo ganhou destaque e conquistou respeito na profissão de jornalista. Ainda muito novo, conseguiu por competência alcançar alguns dos principais cargos do jornalismo piauiense, nos quais, ele desempenhou funções nos diversos meios e âmbitos profissionais como: rádio, jornal, televisão e assessoria de comunicação, provando uma grande versatilidade e credibilidade.

Em 1980, quando Zózimo iniciou sua carreira jornalística, o Estado do Piauínão possuía em nenhuma de suas instituições de ensino o curso de Comunicação Social. No entanto, em 1983, o Sindicato dos Jornalistas do Piauí, organizou e palestrou um curso intensivo de Comunicação Social, do qual, seletos 45 jornalistas e radialistas participaram, entre os quais, o jovem Zózimo se fez presente.

Outro fato marcante na trajetória e carreira do jovem Zózimo foi à visita do então líder sindical Luís Inácio da Silva, o Lula, à cidade de Água Branca, em 1980. O líder sindical, que posteriormente chegaria à presidência da república, esteve no Piauí e em outros estados do nordeste, com intuito de fundar e instalar bases do Partido dos Trabalhadores nas cidades por onde passava.Segundo relatos do próprio Zózimo:

(…) Lula conversou com os jovens sobre o momento político nacional – o começo do fim da ditadura militar – e os encorajou a prosseguirem na luta de conscientização da comunidade e no importante papel de mudar a atual situação política da época. (TAVARES, 204, p. 86)

Apesar da repercussão e das semelhanças com suas crenças e formas de analisar a conjuntura política da época, Zózimo já possuía de certa forma, algumas opiniões e convicções próprias, sobre alguns dos temas abordados na palestra de Lula. O jornalista corroborava com algumas de suas idéias e noções de mundo abordadas por aquele que 20 anos mais tarde, viria a se tornar presidente. Mas sempre se manteve neutro na política, característica essencial para quem quer ser um bom “jornalista” e ter “imparcialidade”, segundo o próprio Zózimo.

Só em 1984,que a Universidade Federal do Piauí implantou em seus cronogramas o curso de Bacharelado em Jornalismo, pelo qual o reverenciado jornalista não despertou interesse em graduar-se, já que em sua concepção, era necessária uma melhor estruturação e organização para o curso. “Eu achava que não ia aprender muita coisa lá, nós jornalistas, temos mesmo um defeito muito grave, de ‘nos acharmos’ muito auto-suficientes”.

Aos 37 anos, já conhecido, com um trabalho muito intenso no jornalismo piauiense e com grande experiência literária e social, Zózimo Tavares resolveu ingressar na universidade. Por gostar muito e ser um estudioso da língua Portuguesa, possuindo por isto, uma boa base teórica e uma constante curiosidade pelos conhecimentos gerais, o jornalista prestou vestibular e foi aprovado para o curso de Letras/Português na Universidade Estadual do Piauí – UESPI, no qual, graduou-se em 2002.

Após sua graduação, o jornalista concluiu uma pós-graduação lato senso, na área em que se tornou ícone e atua por tantas décadas que é Comunicação e Marketing, especialização feita pela Universidade Federal do Piauí, em 2005. O tema abordado em sua monografia foi um trabalho sobre a política de comunicação no primeiro mandato do governador hoje deputado Alberto Silva (1971-75). No ano de 2007, o incansável Zózimo concluiu outra especialização, esta em Lingüística, pela Faculdade Santo Agostinho.

Durante um bom tempo, Zózimo Tavares presidiu o Sindicato dos Jornalistas e exerceu diversas funções nos vários nichos do jornalismo, atividades como repórter e redator da Rádio Difusora de Teresina e mais recentemente editor-chefe no Jornal Diário do Povo. Além dos meios de comunicação do Estado, o jornalista piauiense também foi correspondente do Jornal Correio Brasiliense no Piauí, durante cinco anos, e ainda foi. Secretário de Comunicação do Município de Teresina, de janeiro de 1993 a março de 1999, nas gestões dos prefeitos, Wall Ferraz, Francisco Gerardo e Firmino Filho.

Após este período de formação, no qual adquiriu muita experiência e conhecimento como jornalista, Zózimo foi convidado a fazer parte do corpo de docentes da Universidade Federal do Piauí, no qual, já ministrou diversas disciplinas, principalmente as do curso de Comunicação Social, sua maior área de domínio e conhecimento, sendo reconhecido pelos alunos como um competente professor.

Zózimo Tavares sempre fez muitas coisas ao mesmo tempo, mantém suas atividades como jornalista trabalhando e produzindo textos diários e factuais. Dentro desta rotina diária, ele nunca deixou de escrever e elaborar suas crônicas e continua escrevendo outros textos quando chega em casa, sendo por muitos considerado um bom literato e poeta, obras estas que posteriormente foram publicadas e que fizeram do jornalista um grande escritor e imortal da APL (Academia Piauiense de Letras). Publicou vários livros e títulos, os quais os mais conhecidos são os sobre humor, política e literatura de cordel, cita-se abaixo alguns deles:

§Vote Lá Que Eu Voto Cá (1986);

§Falem Mal, Mas Falem de Mim (1989);

§Céu da Terra – roteiro turístico do Piauí em versos (1990 – em português; 1997 – em espanhol);

§Pra Seu Governo (1991);

§O Pulo do Gato (1994);

§O Voto é Inseticida Contra Praga de Ladrão – guia eleitoral (1994);

§O Atentado a Nossa Senhora Aparecida (1995);

§Zé da Prata, Poeta da Sátira (1995);

§Sonetos de Cantadores (1996);

§Meus Senhores, Minhas Senhoras (1997);

§Filosofia Barata (1999);

§100 fatos do Piauí no Século 20 (2000);

§O Velho Jequitibá (2002);

§Sociedade dos Poetas Trágicos (2006).

Ao assumir um dos assentos da APL – (Academia Piauiense de Letras), o imortal iniciou e encabeçou um movimento de valorização da literatura piauiense, contribuindo com o lançamento, do livro Sociedade dos Poetas Trágicos em 2006. Segundo o próprio escritor:

O livro é uma tentativa de resgate através de dez grandes vultos literários piauienses, reverenciando, com isto, suas memórias ao retirar do anonimato, grandes nomes da literatura e poesia que caíram no esquecimento, com o objetivo de fazer com que sobrevivam na lembrança e na admiração dos leitores. (TAVARES, 2006. p. 09)

Em suas obras literárias e textos publicados, Zózimo trata em sua maioria de fatos históricos e políticos, como por exemplo, a conhecida obra “100 fatos do Piauí no século 20”, na qual, o escritor conta fatos e acontecimentos do Estado, de forma fulgaz e por vezes expositivas, sem a necessidade de aplicar ou exprimir, sua conhecida opinião crítica e às vezes satírica, utilizando-se de uma linguagem didática e extremamente narrativa.

Zózimo Tavares é um jornalista conhecido pelo estilo elegante com que escreve os mais diferentes assuntos da crítica amais severa aos assuntos mais engraçadas, ele passei com desenvoltura pelo reino das palavras, ora suaves, ora desconcertantes.

Com este novo livro, ele aguça nossos sentidos, mais uma vez, por meio de um relato objetivo dos fatos que marcaram a história do Piauí ao longo do século. Não é um livro com pretensões históricas, (…), muitas vezes mais interessantes que o próprio assunto principal.

Sempre pautado pela ética, o Zózimo escritor volta à cena com um livro que serve como referência e pesquisa pelos próximos cem anos. É ler e conferir. (TAVARES, 2000, apud Cláudia Brandão)

Em geral na extensão de toda a sua obra, Zózimo não exibe construções lingüísticas estilosas e com fins acadêmicos, nem tão pouco se aprofunda em aplicar em seus trabalhos uma linguagem rebuscada que considera para alguns, “inacessível”. Propõe-se como jornalista, a ter o que para ele deve ser a principal das qualidades de um bom jornalista, “a imparcialidade”, é interessante ressaltar que o papel de um bom jornalista é simples, ele deve apenas narrar fatos importantes para que estes sobrevivam na memória do povo piauiense.

Em uma homenagem prestada a Zózimo pelo amigo e ex-presidente da Assembléia Legislativa do Piauí,o ex-deputado analisa o folclore político do Estado e a forma irreverente no qual o jornalista utiliza para abordar aspectos pitorescos da política piauiense, o ex-deputado diz que:

Zózimo Tavares escreve sobre o folclore político agradável sob todos os aspectos. Embora contando fatos, jamais tem a pretensão de atingir pessoas ou aviltar situações. (TAVARES, 2002, apud. Jesualdo Cavalcanti)

Pelo que se explicita o jornalista Zózimo Tavares, ao longo de seus 45 anos, construiu uma considerável biografia e bibliografia que abrange desde temas sobre episódios engraçados acerca dos políticos, jornalistas, etc. à literatura de cordel. Com um grande número de obras escritas, cerca de treze livros, sendo que apenas nove delas já foram publicadas. Zózimo afirma ainda, “(…) sei que já dei uma grande contribuição do ponto de vista político, histórico e literário, mas minha vida assim como a política, é uma continuasucessão de fatos, que precisam ser registrados e que enquanto eu puder,hei de continuar minha jornada”.

CAPÍTULO IV – O JORNALISMO DE ZÓZIMO TAVARES

A trajetória de Zózimo Tavares no jornalismo piauiense começou de forma inusitada e como classificam outros colegas de profissão “pré-matura”. Ainda adolescente, o futuro jornalista, já possuía uma escrita muito eloqüente e ao participar de um grupo de jovens na cidade em que residia, foi um dos fundadores de um jornalzinho mimeografado denominado de “O Águia”, o qual foi decisivo ao influenciar a escolha de sua profissão como jornalista e também, ajudou a desenvolver sua criticidade e objetividade, noções estas que passaram a ser suas principais marcas.

O “informativo” como o próprio Zózimo o caracteriza, conseguiu grande repercussão na cidade de Água Branca, principalmente após o prefeito José Ferreira Soares, “o Dedino” que era filiado ao Arena-PDS, ao se sentir agravado, com as denuncias que foram feitas à sua administração, decretar através de uma medida executiva o seu fechamento. Vários jovens não concordavam com o entendimento político e o jeito de administrar do então prefeito, por conta disto, rejeitaram o mandado e resistiram ao fechamento.

Tal ato de coragem trouxe ao jornalista muito reconhecimento na capital Teresina, onde ele já possuía um ciclo de amizades cativadas, por correspondência, com alguns dos principais profissionais de imprensa da época. Zózimo devido ao seu senso crítico e seu gosto pela política, principalmente em relação a alguns aspectos, dantes pouco conhecidos, como a transparência e responsabilidade administrativa, sempre denunciou irregularidades e formas burocráticas, as quais os políticos da época estavam muito acostumados. Convicções estas, que permeiam até hoje sua forma de entender as conjecturas partidárias e que também o influenciaram na forma de como ele escreve e descreve fatos políticos em seu jornalismo.

A presença de Zózimo Tavares no jornalismo piauiense é, com certeza, um marco preciso de uma experiência resultante em uma imensa busca pela liberdade de imprensa, onde se ressalta marcas de um sábio profissional que através do humor transmite seu jornalismo irreverente e satírico. ( ADRIÃO, 2005, Usina de Letras)

Zózimo é um profissional extremamente versátil e polivalente, afirma de forma categórica que “(…) satisfaço-me com meu trabalho, fazendo-o em qualquer dos meios onde me comunico desde a imprensa escrita até televisão”. Segundo Zózimo, a natureza do meio de comunicação é tão importante quanto o público e o formato da atividade que ele possa vir a desempenhar, o que mais o atrai é modo de como são encaminhadas as informações,declarando ainda que:

Cada veículo tem a sua natureza e a sua importância. Eu me realizo em todos eles. Quando eu trabalhava na rádio, eu gostava daquela comunicação instantânea, porque a rádio tem essa característica em sua comunicação e uma interatividade que a TV não possui. Na TV, você está sempre sendo visto, isso é bom. Já o jornal, dá muita relevância ao que escrevemos, pelo registro que fica. (TAVARES, 2004, Entrevista Concedida)

O jornalismo de Zózimo Tavares possui como uma de suas principais características a utilização de uma linguagem factual, escrevendo de forma atual e dinâmica, na qual, a notícia é tratada no intuito de informar. De maneira geral, pode-se dizer que este jornalismo aplicado segundo alguns teóricos do tema, “é um recorte no espaço e no tempo em relação a processos sociais mais amplos, e os limites deste recorte são, em parte, estabelecidos por critérios de noticiabilidade”. Estes limites são mutáveis, mas variam dentro de marcos culturais:

Se os jornalistas não dispusessem – mesmo de forma rotineira – de “mapas” culturais do mundo social, não poderiam “dar sentido” aos acontecimentos invulgares, inesperados e imprevisíveis que constituem o conteúdo básico do que é noticiável. (HALL, 1993, p. 226).

Ao se analisar a abordagem feita por Zózimo Tavares em suas reportagens e textos, torna-se visível que ele é um escritor com aptidão ao jornalismo, sendo perceptível que ele revela através de sua forma própria de fazer jornalismo, a presença marcante de uma linguagem inovadora, incisiva, que vai direto ao ponto, e como diriam alguns de seus ilustres admiradores, sem muitos “rodeios”.

É esta forma diferente e própria, às vezes irreverente e subjetiva, outras vezes incisiva e crítica, que fazem de Zózimo um profissional completo, na sua forma de retratar vários assuntos como à política, o meio social e a história do Piauí. Outra questão relevante é que como jornalista político, Zózimo não aborda em suas interlocuções apenas a simples transmissão dos fatos, através do jornalismo simplório, ele é analítico por usar o humor como argumento filosófico, repassando com sua forma de escrever um lado, diga-se de passagem, crítico dos fatos e acontecimentos do dia-a-dia.

Vale à pena ressaltar a grande importância e notoriedade das obras e textos deste jornalista. Noticia-se que algumas de suas histórias e livros foram traduzidas em vários idiomas, como para o inglês e o espanhol, sendo publicadas em revistas importantes como na revista bilíngüe “Líder Magazine”, que é publicação da empresa Líder Táxi Aéreo. Cita-se ainda, que o autor promoveu um lançamento de seus trabalhos em várias capitais e em junho de 1997 levou sua cultura e talento até Havana – Cuba.

De forma geral a obra de Zózimo está subdividida e pode ser classificada em crônicas políticas, obras de humor, literatura de cordel, jornalismo e obras literárias de outros gêneros. Na maioria de seus livros, se não em todos, a característica mais marcante e que predomina no trabalho do escritor é uma linguagem simples, cujas interpretações são claras e fáceis, como as de um contador de histórias e causos.

Mesmo tendo uma vida um pouco conturbada e com uma agenda cheia de compromissos como jornalista, na qual ele se classifica como analista político, Zózimo sempre foi atuante presença em grupos de defesa de Direitos Humanos e afins. Ainda possui em sua vasta grade de aptidões a função de pesquisador e divulgador da poesia popular, sendo também um grande cordelista, de vasta e reconhecida produção, com muitos trabalhos publicados e alguns inéditos.

Alguns de seus versos receberam o endosso e foram reconhecidos pelo grande poeta Patativa do Assaré. Em uma de suas muitas correspondências trocadas, o poeta em versos refere-se a Zózimo, com muito carinho, Patativa avalia:

(…) Se você no Piauí;

Vive a fazer reportagem;

De vantagem e desvantagem;

Que acontece por aí,

Mando lhe dizer daqui;

Que isto você aprendeu;

Muito leu, muito escreveu;

Porém, se verseja bem;

É porque nasceu também;

Com o dom que Deus lhe deu(…). (ASSARÉ, carta pessoal)

Avalia Zózimo Tavares, que “o exercício de reproduzir a cultura do folclore popular existe como característica essencial”. A interação e convivência da literatura com o jornalismo é de suma importância, tendo em vista, que ambas as formas de abordagem são complementares, seja no meio acadêmico, seja no meio social ou político. Por isto, esta visão privilegiada tornou possível que o jornalista pudesse vivenciar seu atual momento de esplendor e notoriedade.

Passou a aplicar tais noções e idéias, no exercício diário de sua profissão, utilizando-se do domínio lógico e apropriado da palavra, com muita desenvoltura e liberdade que em outros tempos não eram permitidos. Domínio este, que de acordo com o próprio Zózimo, torna-se cada vez mais indispensável e marcante em sua forma de escrever, “hoje se tem mais liberdade de expressão do que na época da ditadura, mas ainda há muitas limitações na manifestação do pensamento”.

Para Zózimo ainda persistem algumas limitações na imprensa, na maioria dos casos, está ligada ao fato de que no Piauí ainda se vive em uma província. Na qual, todas as pessoas possuem algum laço de parentesco, todos se conhecem, ou possuem grupos em comum e esta rede de ligação se estende em todos os ramos e lugares, até mesmo onde não existe uma relação de interdependência política ou econômica. Segundo ele, isto afeta de forma trágica e danosa os meios de comunicação no Piauí:

(…) na sua maioria, são propriedades de grupos empresariais, ou seja, tratam-se investimentos privados. Esse fato dá ao jornalista certa margem de liberdade na execução de seus trabalhos. Ao contrário de outros estados, como Maranhão e Ceará, onde a imprensa sofre fortes influências de políticos. (TAVARES, 2007, Entrevista Concedida).

Seguindo a linha de raciocino entendida por Zózimo, Celso Pinheiro Filho, em um de seus livros, em especial na obra sobre História da imprensa no Piauí, faz referência à desvinculação da liberdade de expressão:

(…) o problema da liberdade de imprensa dificilmente será desvinculado da necessidade de controle pelo poder político, qualquer que seja o regime governamental. Este controle, ora mais severo, ora mais suave, pode ficar situado entre os chamados males necessários. (PINHEIRO, 1997, p. 149)

Indagando-se Zózimo sobre sua relação direta com a política, ele afirma não ter filiação partidária e na visão dele, nenhum jornalista que queira manter uma postura profissional deve assim proceder. Diz-se ainda de certa forma, amigo de alguns políticos independente de sigla, mas que mantêm com a maioria deles laços e relações apenas superficiais.

Vendo-se desta posição percebe-se em Zózimo, um seguidor do pensamento de Machado de Assis, que escreveu: “quando a gente entra na política, a primeira coisa que perdemos é a liberdade”. Zózimo tem nesta liberdade de expressar o que pensa e entende a característica que mais aprecia e lhe dá prazer no exercício de seu papel como jornalista, apesar das limitações impostas por alguns dirigentes e mentores da imprensa piauiense.

Para se envolver com a política, o profissional do jornalismo deve possuir certo cuidado e saber administrar suas condutas, o que gera muitas responsabilidades a estes profissionais que trabalham com informações. Quando alguém se coloca a disposição da sociedade como seu representante, cabe a esta pessoa uma grande disponibilidade para atender os anseios da população e isso exige muito do legislador.

Mui Amigos

Para que ninguém julgue ou insinue que o presente trabalho seja um despeito contra os políticos, abro a série de crônicas que fazem este livro com um caso em que o personagem principal sou eu.

Em 1982, aos 20 anos e empolgado com a estima popular conseguida em minha cidade adotiva, Água Branca, decidi disputar o mandato de vereador. Estava certo da eleição, pois me subiu a cabeça à popularidade obtida dois anos antes por minha atuação à frente dos movimentos culturais, artísticos e filantrópicos dos grupos de jovens local e – mais ainda – pela fundação e publicação do jornalzinho mimeógrafo “O ÁGUIA”, que muita dor de cabeça deu ao prefeito José Ferreira Soares, o “Dedino”.

Na época eu já residia em Teresina. Era a campanha eleitoral lá e que cá. Nas poucas vezes em que me dispus a participar de comícios, meus companheiros de partidos me atalharam:

“Você não precisa fazer campanha. Já está eleito”. Na verdade, eu não tinha nenhum motivo para duvidar disso. Nas ruas da cidade, na casa de meus pais, não eram poucas as promessas espontâneas de apoio. E atravessei a campanha sem pedir um voto sequer.

Da cabeça aos pés, dominado pela ingenuidade, nem suspeitava de que, no corpo-a-corpo, os que disputavam comigo o mesmo cargo me jogaram às feras, quando um eleitor se manifestava simpático ao meu nome:

“Não vote em Zózimo. Ele já está eleito. Assim, ele vai acabar ficando com toda a votação de vereador e nós não teremos maioria na Câmara Municipal.”

Abertas as urnas, veio a surpresa: esbarrei na terceira suplência. Ali mesmo aprendi a lição: em política, quem tem determinados correligionários nem precisa de adversários. (TAVARES, 1989, p. 11)

Quando se perguntou a Zózimo sobre que medidas tomaria, se um dia chegasse a ser governante de estado, ele foi bem categórico ao afirmar que nunca se imaginaria neste papel. “Ele nunca freqüentou meus sonhos nem minhas ambições. No entanto, não posso deixar de dizer como eleitor, que bastaria deixar de fazer o que o atual governador vem fazendo”. Como incansável e atuante formador de opinião, Zózimo aproveita o momento para mostrar um de seus textos no qual faz uma crítica ao governo atual:

E o que fez depois? Juntou os cacos das forças do atraso em seu palanque, na busca desesperada da reeleição. Resultado: teve que ratear todo o governo e o Piauí hoje está praticamente parado, sem nada de novo. O Piauí está desperdiçando uma chance de ouro de dar a volta por cima. Quando o Piauí contou com um governador com prestígio pessoal com o presidente da República? E qual é o partido que nosso Estado tem tirado disso? Que obra estruturante foi construída nestes cinco anos? Que grande empresa ou grande projeto veio para cá, para gerar emprego e renda? O Piauí tem hoje um dos governos mais medíocres de sua história, que sobrevive da cooptação das lideranças políticas, dos sindicatos, da exploração da miséria e da ignorância e da propaganda enganosa. Faz tudo o que condenava. E com menos competência. (TAVARES, 2007, Entrevista Concedida).

Para Zózimo o novo governador foi eleito através do voto da mudança, da esperança, da reformulação e da limpeza política. Foi esta a missão confiada pela população que já estava cansada e mazelada, cheia de desilusões, descrente na que para alguns, era a antiga forma de fazer governo e foi por esta razão que esta população se mobilizou e desmontou nas urnas, um esquema político antigo e tido como imbatível. Coisa que, no entanto, mais tarde com o abrir das cortinas do novo governo, não se mostrou tão moderno quanto se prometia e nem tão honesto, quanto se esperava.

CAPÍTULO V – O HUMOR SATÍRICO DE ZÓZIMO TAVARES

Uma das grandes sacadas de Zózimo Tavares foi explorar o que para alguns, se pode dizer que é um veio inesgotável e inspirador para um humorista: o folclore político. Mas por vezes, sempre aconteceram fatos os quais o próprio jornalista, não poderia abordar de forma mais sutil, e que por isto, aquilo às vezes nem sempre poderia ser exatamente publicado no meio jornalístico informativo, por variadas razões.

Quando por ventura alguma personalidade cometia uma grande gafe, ou mesmo, ocorria algum fato pitoresco e engraçado nos bastidores ou na vida política de uma autoridade, Zózimo não poderia deixar de fazer algo cômico. Esta situação ocorria por conta de sua tão aclamada imparcialidade e credibilidade jornalística, por ele não poder criticar ou analisar na imprensa aberta, ele os transcrevia com sua criatividade e depois os colocava em seus livros, utilizando-se muitas vezes da sua conhecida ironia, sátira e sarcasmo.

Sempre notado pelo refinado humor, passou a retratar os políticos em seus momentos caricaturais, cômicos, pitorescos, sem descer ao escrachado ou apelativo. Seu sucesso foi instantâneo e imediato, em pouco tempo os livros atravessaram as fronteiras do Piauí. Na maioria de suas obras ele se utiliza da ironia e do sarcasmo, sendo que estas são características inerentes ao seu humor, das quais o escritor Zózimo faz uso de suas particularidades, em sua forma única de abordagem dos temas em seus artigos e crônicas.

Cita-se aqui o exemplo de um dos seus textos mais conhecidos e que foi lido pelo então senador Mão Santa, na tribuna do Senado Federal, texto o qual traz em seu conteúdo, um repúdio extremamente objetivo e duro. O texto foi uma ironia baseada no resultado de uma pesquisa sobre o Produto Interno Bruto – PIB:

Que PIB que nada! É feliz quem vive aqui!

Que números do Produto Interno Bruto que nada! Se eles mostram que o PIB do Piauí agora é o menor do Brasil, azar do Maranhão, que era o Estado que segurava a lanterna! Esse pibezinho do Piauí não é nada! Nós temos é a Serra da Capivara, o berço do homem americano; o Delta do Parnaíba, o único das Américas a mar aberto, e a última fronteira agrícola do Brasil, nos cerrados!

Nós temos também um projeto de biodiesel que vai ser o maior sucesso nacional! É verdade que ele é da iniciativa privada. Hoje é uma rocinha pequena, mas temos potencial para produzir mamona no Sul do Piauí até dizer chega! E se juntar isso ao mel, à castanha e ao camarão que produzimos não se espante se o Piauí liderar a pauta das exportações brasileiras!

Nosso ímpeto desenvolvimentista é tão forte que o “Programa Luz Para Todos” não foi adiante porque a Cepisa não tinha condição de garantir uma sobrecarga de energia tão grande de uma hora para outra. Então, o jeito foi pisar no freio e esperar que, primeiro, a Cepisa se prepare para a nova demanda de energia elétrica.

Ah! Tem mais: desde julho de 2006, o programa Bolsa Família foi universalizado no Estado, superando a marca de 260 mil famílias atendidas. Atualmente, o programa chega a 375.702 lares piauienses. Foi por isso que o Governo do Piauí não quis brigar para levar assistência aos flagelados da seca no semi-árido.

O ensino público do Piauí foi reprovado pelo MEC, mas isso não há de ser nada, também. O importante é que nossa auto-estima é elevada e vamos dar a volta por cima. A saúde pública também vai bem, graças a Deus! O atendimento nos hospitais é vapt-vupt. Não há fila de espera para cirurgias. Nem falta remédio. E a segurança? Ora, essa é que está boa mesmo!

É pouco? Pois fique sabendo que também temos o “Governo do Desenvolvimento”, aprovado por mais de 70 por cento dos piauienses. E por quê? Ora, simplesmente porque ele está empenhado em implementar políticas e ações públicas que estão levando à geração de emprego e renda e ao desenvolvimento do Piauí.

Nunca, na história deste Estado, se fez tanto em tão pouco tempo! É feliz quem vive aqui! (TAVARES, 2007, 180graus)

A repercussão deste texto foimuito maior do que o próprio jornalista pensava, visto que, ele é uma crítica ferrenha ao governo do Estado. Mas ela se expande a todos os dirigentes políticos, atacando sem distinções todas as esferas de poder, inclusive ao legislativo, esfera onde se encontra quem divulgou o texto e ao executivo, que de certa forma foi o mais afetado e atingido com tais críticas.

Em outro de seus livros de grande repercussão Falem Mal, Mas Falem de Mim, que foi publicado em 1989, Zózimo conseguiu alcançar muita visibilidade e um reconhecimento privilegiado da imprensa nacional, principalmente de um dos veículos escritos mais respeitados do Brasil que é o jornal Folha de S. Paulo. A folha, como é conhecida, sempre abriu espaço em suas publicações para as historietas do folclore político, feitas pelo jornalista piauiense na seção Contraponto, da prestigiada coluna Painel.

O livro, que alcançou um sucesso, teve duas edições e foi bastante vendido. Esta obra apresenta uma linguagem extremamente fluente e com muitos colóquios, mas também é um de seus livros mais sérios e importantes, principalmente por que narra uma versão popular da História do povo piauiense. Através de seus feitos,faz-se possível perceber que as estórias vão mudando na boca do povo, como diria Sebastião Nery, “como nuvens na boca do vento que sopra na janela do amanhã”.

Pelo conteúdo da maioria de suas obras e pelo teor de crítica a figuras que estavam ou ainda estão no poder, Zózimo Tavares tem muita sorte de poder publicar o folclore político do Piauí em tempos de plena liberdade. É perceptível e óbvio que sempre aparecerão pessoas que se sintam atingidas ou laceradas com alguma das histórias, ficando irritados com as anedotas do livro Falem Mal, Mas Falem de Mim.

Mas mesmo com essa possibilidade, de uma coisa pode-se ter certeza, segundo os comentários de um grande amigo e também conceituado jornalista, Sebastião Nery: “caiu na boca do povo, é patrimônio público”. “As esquinas não pagam alvará”. O estilo de escrever de Zózimo às vezes curto e seco, direto e claro, dá uma sabor a mais para o leitor, que mesmo partidário ou fora da discussão política, sorri do cômico escrito, através da lição de um texto enxuto e iluminado, que é livre de amarras e rico em informações históricas abordadas da forma mais instigante que se conhece: o humor.De acordo com sua opinião:

O humor é um dos traços marcantes da política definida por Aristóteles como a arte do possível. E ai dos políticos se não soubessem quebrar com a graça a tensão que trás o exercício desta fascinante atividade. (TAVARES, 1989, prefácio)

Percebe-se com isto que em seus livros, o escritor-jornalista utilizando uma linguagem simples e direta, límpida e bem humorada desempenha com maestria seu papel de formador de opinião e homem de responsabilidade pública. No entanto, aparentemente, escrever com humor e sátira para Zózimo, nem sempre lhe parece uma atividade lúdica e dedivertimento, porém, o próprio autor dá outras interpretações a sua forma de escrever quando revela que, “a intenção vai, além disso.”

Alguém já disse que a história é como uma procissão: vê-se o cortejo(e suas conseqüências) conforme a posição do observador. No caso da história piauiense, podemos dizer que Zózimo Tavares tem posição privilegiada. Como jornalista atento ao seu tempo, anda atracado ao andor, participante dos fatos, vivenciando cada momento fundamental; como cidadão consciente de cada passo de um povo na construção do seu destino. Zózimo é um arguto, observador, postado no alto da colina, capaz da análise fria só possível aos que enxergam de fora. Fenelon Rocha, Jornalista e professor do curso de Comunicação Social da UFPI. (TAVARES, apud CASTELO BRANCO, 2000, p. 11)

É possível se perceber a partir da interpretação do fragmento acima o quantoZózimo é arrojado e instintivo, mostrando-se extremamente antenado com os acontecimentos do meio político, retratando através de uma aguçada sensibilidade e grande relevância a história do Piauí. Em sua jornada de pesquisas, ele sempre busca manter-se atento aos eventos e aos fatos correntes, na busca de nunca perder o fio de continuidade e repercussão das notícias, prezando claro, pela ética profissional e pela moral jornalística.

Em um contexto tão rico e inspirador, Zózimo alça novos ares, enxergando neles a oportunidade de tecer suas produções. Através do humor o jornalista transfere aos seus leitores o seu entendimento e às vezes visão pessoal, das discussões políticas que estão sendo travadas naquele momento de construção histórica, sendo o humor também utilizado por ele como forma de denunciar os fatos que estão ocorrendo na política.

O interesse de Zózimo pelo humor, diga-se de passagem, começou muito cedo, ainda na infância. Em uma de suas entrevistas concedidas informalmente, o jornalista relata:

(…) acho que foi vendo o palhaço do circo, quando eu era criança lá em Água Branca. “Para mim, o palhaço era melhor parte do espetáculo”. O gosto adquirido foi estimulado com leituras posteriores acerca do assunto, (…)depois saí por aí lendo sobre o assunto, desde os gregos clássicos com suas comédias até os nossos contemporâneos. (TAVARES, 2007, Entrevista Concedida).

Ao indagar-se Zózimo sobre suas noções de jornalismo e qual o motivo de ele traçar um elo com outras formas de fazer jornalismo, questionou-se o porquê de sua opção pelo humor? O jornalista argumentou de forma exímia, repetindo partes de seu discurso de posse na Academia Piauiense de Letras, que em uma delas, ele justifica a sua opção pelo humor como uma das melhores formas de linguagem e expressão, opção essa que de tão bem escolhida, acarretou na publicação da maioria de seus trabalhos.

Porque o humorista, como o poeta Fernando Pessoa, também é um fingidor, embora se diga que o humor não se apresente como tarefa das mais fáceis. Cada povo, cada época, cada cultura tem, do humor, uma visão particular, muitas vezes intraduzível a outra linguagem que não seja a sua própria.

O humor pode aparentar-se ao cômico, se bem que, nem sempre, persiga o riso e, muitas vezes, mesmo ao fazê-lo, ultrapasse esse objetivo e alcance a lágrima. Cervantes, em Dom Quixote de La Mancha, esplende como monumento universal do humorismo, com sua obra-prima insuperada e insuperável do gênero.

O humorista se dá ao luxo de rir de si mesmo. Realça as mil e uma contradições humanas e, através da candura, da malícia, da observação rara, do cinismo levado à lucidez, revela as incongruências ou a tragicidade da vida. Humor é coisa séria. Por isso, torna-se eficientíssima medida da infinita e infindável comédia humana. (TAVARES, 2002, p. 03).

No fragmento acima se percebe que o jornalista tem o intuito de complementar e arrematar seu raciocínio, ao responder o questionamento anterior. Zózimo, como bom leitor e grande conhecedor de literatura, traça uma analogia de seu pensamento com o do poeta mor da língua portuguesa Fernando Pessoa, ao fazer a referência de que ser humorista também é ser um fingidor, logo, como já se comentou anteriormente neste trabalho, na visão do jornalista “(…) fazer humor nem sempre se apresenta como tarefa das mais fáceis”.

Ainda no livro Falem Mal, Mas Falem de Mim, Zózimo reuniu anedotas conhecidas, de diferentes épocas e fases da política piauiense, transcrevendo-as com seu grande talento e apenas uma pitada de seu tão reverenciado humor. A realidade desta obra, no entanto, não possui a pretensão de ironizar ou tecer uma crítica aberta, a nenhum dos políticos ou ao meio eleitoral, com essas Crônicas.

Para olhos e mentes mais cultas, ao se ler o livro, a principal idéia que se percebe nas entrelinhas é a de que o escritor-jornalista quer apenas revelar a astúcia, esperteza e algumas das artimanhas utilizadas pela maioria das figuras políticas do estado do Piauí. Este livro mesmo tendo um cunho mais literário, não deixa de ser um referencial sobre alguns dos casos que marcam o cenário da história política local.

Em um artigo que alcançou grande repercussão e foi publicado no dia 03/12/2007, no site 180 graus em uma coluna para a qual Zózimo escreve, o jornalista se utiliza de um humor discreto e digressivo, no intuito de enfatizar o futuro político do Vice-Governador, passados alguns meses de sua vitória nas eleições 2006, que só foi possível pela aliança feita com o partido do então Governador de estado, Wellington Dias:

Wilson Ganha Espaço

Em seu estilo obstinado, o vice-governador Wilson Martins ganha espaço político no governo. Todos sabem que ele entrou atravessado na chapa petista encabeçada pelo governador Wellington Dias. Foi assim: em 2006, o PMDB governista perdeu a convenção para o senador Mão Santa e o PT tinha que emplacar imediatamente um vice, para não dar sinal de abatimento com a derrota dos aliados.

Com a vitória do PMDB chapa-branca na convenção de junho do ano passado, tudo estaria resolvido: o candidato a vice seria naturalmente o deputado Kleber Eulálio. Mas os peemedebistas foram derrotados e perderam a vez de indicar o companheiro de chapa de Wellington. Foi aí que Wilson Martins entrou em cena e se deu bem.

O deputado estava montando o PSB, viu a brecha da candidatura a vice-governador, mexeu-se e entrou na chapa. Muitos petistas fizeram beicinho. Mas não havia tempo. A campanha estava em cima. Era pegar ou largar. E foi assim que, quase na última hora, Wilson Martins, cujo perfil ideológico não se encaixava nas exigências e especificações dos petistas, se tornou candidato a vice-governador.

Com a vitória do governo, Wilson, já empossado vice-governador, recebeu de Wellington Dias a missão de coordenar o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) no Piauí. Por enquanto, ele está como trovão: muito barulho e pouca chuva. Mas tem sabido tirar proveito da situação. Em política, é o que importa. Se receber mais um “C”, o PAC vira o Programa de Aceleração do Crescimento de sua Candidatura.

Hoje Wilson transita com desenvoltura em várias correntes do PT, principalmente naquelas que acreditam na saída do governador Wellington Dias para disputar o Senado, em 2010. Nesse caso, Wilson ficará com a caneta, a vontade de ser governador a partir de 2011 e todos os DAS’s. Ele é pragmático. Então, ai de quem não rezar em sua cartilha! Por isso, os petistas estão deixando o orgulho de lado e se aproximando, cada vez mais, do vice. (TAVARES, 2007, 180graus)

Zózimo através deste artigo aborda, com sua ironia e sarcasmo, deixando explícito que o Vice-Governador, na época apenas candidato, abraçou a causa do Governo Federal e complementou a chapa que concorria ao Governo do Estado, apenas para satisfazer seus próprios interesses. Utilizando-se de uma conjuntura política desfavorável e desarrumada dos aliados do governo, ele funda e passa a dirigir um novo partido no Estado, completa a chapa como vice e tira com isto, proveito para si.

Como sua visão política é muito apurada, a idéia que alguns dos seus leitores e críticos passam a ter, é a de que Zózimo possui poderes paranormais, como premunição e leitura de mentes. Nota-se de assalto, que é como se o jornalista pudesse prevê a verdadeira intenção até considerando-a oportunista, em razão da situação do político citado. O jornalista ainda ironiza, enfatizando a forma de trabalho do atual Vice-Governador, isto fica perceptível quando Zózimo complementa que o programa coordenado pelo Vice, “PAC”, deveria ser acrescentado mais uma letra “C” à sigla, se referendo a sua candidatura no pleito seguinte.

Vale a pena ainda citar aqui o prefácio do livro Filosofia Barata, no qual o cartunista Paulo Moura, um dos responsáveis pela abertura do livro, diz que “(…) em tempos de crise, a primeira coisa que fica em baixa é o humor”. A preocupação constante com tudo ao seu redor faz referência à idéia de Zózimo ao criar, “(…) é que o maior barato é fazer comédia das tragédias da vida”. Entende-se com isto, que o cronista político Zózimo Tavares ao criar e lançar frases com tanto efeito, faz o leitor relaxar e refletir sobre as “fatalidades da vida”.

Deu no jornal: “Governo substitui leite em pó dos flagelados da seca por farinha”. Ou seja: o governo acha que leite em pó e farinha são farinha do mesmo saco(…).(TAVARES, 1999, p. 11).

É com este nível de ironia e sarcasmo jornalísticos, presente no fragmento acima, que o grande escritor-jornalista anima a manhã dos seus leitores e os faz refletir, sobre as tendências e decisões políticas, que interferem diretamente na vida de cada indivíduo componente da sociedade e também em seus grupos de atuação. Demonstra ainda, com sua forma direta e incisiva o quanto é importante se ter consciência política, no intuito maior de mostrar que sem ela, ninguém pode considerar-se cidadão.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pelo que se estudou e entendeu sobre o jornalista Zózimo Tavares, percebe-se que ele em muitas matérias, artigos e obras, demonstra muito conhecimento e consciência da conjuntura política do Estado do Piauí. Tais requisitos são primordiais e por conta deles, ele conseguiu sempre estar à frente de muitos de seus colegas e por isto, deu muitos “furos” e antecipou muitos acontecimentos políticos relevantes.

Em sua extensa e invejável biografia, o escritor-jornalista já entrevistou muitos políticos, alguns deles de grande e relevante projeção nacional como Ulisses Guimarães, Leonel Brizola, Carlos Prestes, FHC, etc. Ainda também foi pioneiro e conseguiu entrevistas de muitos intelectuais e influentes figuras, do meio literário, como Antônio Houaiss, José de Nicola e Paulo Cunha,intelectuais estes que como ele, também o admiram e respeitam.

Também já se exauriu, de forma extrema, a sua opinião de que “envolver-se com a política requer certo cuidado por parte do profissional que trabalha com o jornalismo”. “Ao se colocar à disposição da população como seu representante, exige do legislador uma disponibilidade para atender os anseios das pessoas”. Provando que para Zózimo, manter vínculos com as pessoas dedicadas à carreira política, é de suma importância para a atualização de informações, mas que a distância, também é necessária para se conseguir a imparcialidade e credibilidade características fundamentais a um bom jornalista.

Indagado sobre o que ainda lhe falta como literato e jornalista, Zózimo afirma que pretende compilar em um livro, os fatos ocorridos nos últimos dez anos na política piauiense e ainda diz que:

Estou reunindo esse material em um livro a ser lançado brevemente. Por exemplo, em 1994, nós tivemos uma agitação muito grande na política do Piauí, a eleição do Mão Santa que era uma coisa impossível, tivemos depois a queda dele, também foi uma coisa inimaginável, tivemos ainda a eleição do Wellington, uma coisa muito fora de cogitação. Eu estou fazendo uma seleção das matérias e dos artigos que eu fiz nesse período para que fiquem como registro dessa época. (TAVARES, 2004, Entrevista Concedida).

Com este fragmento, percebe-se outra de suas características, também já citadas e que é muito particular em sua forma de escrever, o jornalista-escritor está sempre antenadoe observando os acontecimentos políticos, sejam eles de qualquer importância, a fim de traçar elos entre as posturas eventuais dos políticos que fazem a história do Piauí. Todo esse trabalho é necessário, para que ele mantenha seus leitores informados dos eventos cotidianos, evitando a descontinuidade das notícias, sempre com imparcialidade e ética profissional.

Zózimo mesmo sendo uma pessoa muito culta e de extremo racionalismo, ainda carrega consigo mensagens bíblicas inspiradoras que para ele, são norteadoras e conduzem sua vida pessoal e profissional. “Acho que a principal delas é a de Jesus Cristo. Somente a verdade é quem nos torna livre”. Ávido leitor, Zózimo cativa um grande respeito e uma admiração maior, por vários autores como Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis e José Lins do Rego, todos como ele, expoentes literários e grandes jornalistas.

Ainda adentrando-se em sua opinião sobre mais ícones e pessoas que ele considera como exemplos de profissão e vida, Zózimo destaca que mantém um apreço pessoal e um respeito profissional por outros jornalistas de seu tempo, como Carlos Castelo Branco, Bóris Casoy e Gilberto Dimenstein. Estes para ele são destaque no jornalismo brasileiro, por demonstrar muito profissionalismo e credibilidade nas informações e na formação de opiniões sobre os mais diversos assuntos. Este apreço e admiração é estendido a jornalistas locais como Arimatéia Azevedo, Cláudia Brandão, Mussoline Guedes e Durvalino Leal.

O maior intuito e função deste trabalho monográfico é ajudar aos estudiosos da comunicação, e também a todas as pessoas interessadas em conhecer um pouco mais sobre a trajetória e o estilo irreverente, de Zózimo Tavares. Esta obra não esgota o que se tem a dizer e analisar sobre a relevância e a contribuição deste jornalista. Logo, está-se falando de um jornalista que não para nem no tempo e nem no espaço.

Todos os dias, Zózimo relata e escreve, sobre os fatos que estão em pauta na opinião pública e no meio político. Utiliza-se como principais argumentos, a realidade e a analise imparcial, com o máximo de veracidade e uma linguagem direta, que não enfada e nem enjoa a quem lê, pelo contrário, entrete e diverte informando. Zózimo pode ser considerado privilegiado e esperto em ter optado por pincelar e enriquecer seus textos com seu humor, algo que está quase esquecido, mas se faz necessário na vida do homem ultimamente. Em um último questionamento que foi realizado, Zózimo diz:

Olha, o humor é uma coisa imprescindível na vida da gente, sobretudo nesses hábitos pós-modernos estressantes, o que é preciso é achar a medida entre o humor e o deboche. Muita gente se perde aí. (TAVARES, 2007, Entrevista Concedida).

Ao se entender a importância destas críticas sociais, percebe-se no humor crônico de Zózimo Tavares a nivelação do jornalismo com a qualidade, onde a notícia é recebida com um novo formato, levando o leitor a ter uma curiosidade de saber do que se trata a reportagem, ao ver a crítica acerca da temática que ele escolhe. Analisando-se este formato, as notícias jornalísticas são tratadas como uma mensagem operativa, na construção do conteúdohistórico vendo-se através da junção delas, a formação no leitor de uma consciência crítica mais que factual.

REFERÊNCIAS

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TAVARES, Zózimo. Falem Mal, Mas Falem De Mim: O Folclore Político do Piauí. 2 ed. Teresina: Editora Júnior, 1989.

_________________. O Velho Jequitibá. 1.ª edição. Teresina: Gráfica do Povo, 2002.

_________________. Meus senhores, minhas senhoras. 1.ª ed . Teresina: Halley, 1997.

_________________. O pulo do gato. 1. ª edição. Teresina: Editora Júnior, 1994.

_________________. 100 fatos do Piauí no século XX. 1.ª edição. Teresina: Halley, 2002.

VICENTINO, Cláudio. História Geral: ed. Atual. e Ampl., São Paulo: Scipione, 2002.

ANEXOS

ANEXO I

Entrevista Realizada com Zózimo Tavares Para Este Trabalho em 03/10/2007.

1. Qual a importância do profissional de jornalismo que leva o humor para a vida das pessoas?

Olha, o humor é uma coisa imprescindível na vida da gente, sobretudo nesses hábitos pós-modernos estressantes. O que é preciso é achar a medida entre o humor e o deboche, muita gente se perde aí.

2. Quando começou seu interesse pelo humor?

Acho que foi vendo o palhaço do circo, quando eu era criança lá em Água Branca. Pra mim, o palhaço era melhor parte do espetáculo. Depois saí por aí lendo sobre o assunto, desde os gregos clássicos com suas comédias até os nossos contemporâneos.

3. O que o jornalismo piauiense tem de bom e de ruim?

O nosso jornalismo tem as mesmas virtudes e fraquezas do jornalismo praticado em qualquer estado brasileiro. Temos muita coisa medíocre. Mas temos muita coisa boa. e temos um diferencial: não há uma só empresa de comunicação do Piauí nas mãos de grupos políticos. Há alinhamentos circunstanciais com o governo, com qualquer governo, de qualquer partido, mas mesmo essa relação vem mudando.

4. Cabe ao jornalismo informar os fatos. Em sua opinião, quanto o papel de agir ou ajudar nas denúncias de grandes escândalos?

O papel do jornalismo é buscar a verdade. Se, nesse processo, a verdade aparece como escândalo, o que se há de fazer? Mesmo essa coisa de escândalo cansa, porque mal acaba um surge outro.

5. Você considera o humor uma das suas maiores descobertas?

É um diferencial. O Carlos Castello Branco, que foi nosso maior analista político da segunda metade do século 20, não pôs humor em seus textos, mas eles eram irretocáveis. O Machado de Assis, que também foi um cronista político, no Império, já foi diferente: escreveu com humor. e seu texto era também irretocável. O Sebastião Nery, que é hoje o decano do jornalismo político brasileiro, também escreve com humor. olhe, uma frase de humor bem feita, dita na hora certa, é avassaladora. É como um beijo bem dado: ninguém esquece.

6. Você já declarou que é mais útil à sociedade como jornalista do que como político. Por quê?

Quando fiz esta declaração, a situação política do Piauí não era tão grave quanto agora. Então, sem falsa modéstia, hoje me considero ainda mais importante como jornalista. O governo do Estado é hoje um rolo compressor, passando por cima de tudo e de todos. É preciso que alguém sem afetação, sem amarras com grupos políticos, possa fazer uma crítica a esse estado de coisas. E, dentro de minhas limitações, sem ser oposição, tenho procurado cumprir meu papel.

Quando fiz aquela declaração, meu objetivo foi o de dizer que fiz do jornalismo minha profissão de fé. Já tem político por aí saindo pelo ladrão. Eu não acrescentaria nada. Mas ta faltando na praça jornalista com preparo intelectual, desafetação ideológica, independência e ousadia. Então, tenho me esforçado para ser um deles. Se ainda não cheguei lá, não foi por falta de tentativa. Eu tento isso todos os dias.

7. Diante da situação deletéria que se encontra o Piauí se fosse político quais as principais medidas que vc tomaria (como governador)?

Sinceramente, nunca me vi em tal papel. Ele nunca freqüentou meus sonhos nem minhas ambições. Mas entendo que bastaria deixar de fazer o que o atual governador vem fazendo. O governador se elegeu com o voto da mudança e da esperança. Ele desmontou nas urnas um esquema político tido como imbatível. E o que fez depois? Juntou os cacos das forças do atraso em seu palanque, na busca desesperada da reeleição. Resultado: teve que ratear todo o governo e o Piauí hoje está praticamente parado, sem nada de novo. O Piauí está desperdiçando uma chance de ouro de dar a volta por cima. Quando o Piauí contou com um governador com prestígio pessoal com o presidente da República? E qual é o partido que nosso Estado tem tirado disso? Que obra estruturante foi construída nestes 5 anos? Que grande empresa ou grande projeto veio para cá, para gerar emprego e renda? O Piauí tem hoje um dos governos mais medíocres de sua história, que sobrevive da cooptação das lideranças políticas, dos sindicatos, da exploração da miséria e da ignorância e da propaganda enganosa. Faz tudo o que condenava. E com menos competência.

8. Durante os seus 27 anos de carreira, qual o texto ou publicação que mais repercutiu?

Não posso avaliar isso. Muitos deles tiveram seu momento. Mas, sem dúvida, entre os mais recentes, um dos que alcançaram maior repercussão foi o que escrevi sobre o drama de um filho meu envolvido com drogas. Mas aí escrevi como pai, não como jornalista.

 

9. O que você faria para mudar o estigma de o Piauí ser “um cemitério de obras inacabadas”?

Era acabar, concluir, as obras que aí estão abandonadas, por falta de recursos que não representam nada para o Governo Federal. O governador é aliado do presidente da República e de vários ministros do PT, que são os mais fortes. A bancada federal do Piauí, com exceção dos senadores Mão Santa e Heráclito Fortes, é toda governista. E por que esse dinheiro não vem? Falta empenho da bancada, falta força. Pelo visto, nossos parlamentares federais só pensam em cargos.

10. O que vc acha da denominação dada por Mão Santa a você:”o novo Castelinho do Piauí? Você acha que em seu texto existe semelhança com os escritos de Castelinho?

Olhe o senador Mão Santa é chegado a arroubos de oratória. É por isso que vem me chamando de Castelinho. O Carlos Castello Branco não teve par. Foi ele quem ensinou a fazer jornalismo político sem engajamento partidário ou ideológico. Foi um intelectual admirável e um brasileiro exemplar. Eu sou um mero repórter de província.

11. Paulo José no prefacio de “Meus senhores e minhas senhoras” lhe chamou de carequinha, tem algum apelido atribuído a vc que o incomoda?

Não! De jeito nenhum! Mas, sobre o fato de eu ser careca, tenho uma frustração: é que, quando vou ao salão cortar o cabelo, pago inteira. Devia pagar meia, né?

12. Depois de um ano do fato envolvendo o seu filho, a violência urbana continua avançando. Pra vc qual(is) o(s) grande(s) vilão(ões) que agrava(m) essa realidade?

Bem, são muitos. E o pior é que ainda não passamos pelo pior. O poder público tem sido incompetente no combate ao tráfico de drogas. E a droga não tem barreira, não tem limite. Tem muita gente lucrando com o comércio da droga. Gente sobre a qual não lançamos a menor suspeita. Mas a polícia sabe quem é. As famílias são despreparadas para prevenir e enfrentar o problema. O Estado também não tem políticas públicas eficazes de prevenção e recuperação dos dependentes químicos. As drogas estão fora de controle e só temos a visão criminal e penal do problema. Mas a que pode ajudar a resolver é a social. Já soube, com tristeza, que alguns dos que não entenderam o drama de minha família e me atiraram pedras também se descobriram com problemas idênticos. Alguns até mais graves. E só faz um ano! Meu filho está no CEM (Centro Educacional Masculino), cumprindo pena e tentando se recuperar. Já caiu, se levantou e caiu de novo várias vezes. Mas o nosso dever é tentar, tentar e tentar.

A gênese de nossa criação literária

Por Dilson Lages
Acadêmico da APL – Cadeira 21

“A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta. Ignoro onde o vi, e se uma parte do caso remoto não desaguasse noutro posterior, julgá-lo-ia sonho. Talvez nem me recorde bem do vaso: é possível que a imagem, brilhante e esguia, permaneça por eu ter comunicado a pessoas que a confirmaram. Assim, não conservo a lembrança de uma alfaia esquisita, mas a reprodução dela, corroborada por indivíduos que lhe fixaram o conteúdo e a forma. De qualquer modo, a aparição deve ter sido real. Inculcaram-me nesse tempo a noção de pitombas ­– e as pitombas me serviram para designar todos os objetos esféricos. Depois me explicaram que a generalização era um erro, e isto me perturbou”.

Assim se inicia Infância, narrativa memorialista de Graciliano Ramos, que, ao reconstruir os anos de meninice no interior do Nordeste, serve-nos para iniciar esta autorreflexão incompleta e transitória sobre as veredas largas e múltiplas da linguagem literária em nossa obra, em construção. Servem-nos as palavras de Graciliano para referendar a consciência de que, em nós, a literatura é memórias, sensações e imagens.

Ela funciona como uma memória cujo fluxo transita para a despersonalização, a partir da qual o eu cede lugar ao outro e a interlocução se estabelece por meio de sensações e jogos semântico-imagéticos em que o individual e o coletivo se confundem e se interseccionam. Na literatura, digo literatura de razoável teor estético, o que buscamos alcançar, é que essa fusão encontra campo mais perfeito, porque, mesmo em obras marcadamente ideológicas, como bem explicou Maingueneau “o sentido da obra não é estável e fechado sobre si, constrói-se no hiato entre posições do autor e do receptor” (  p21).

A esse propósito, lembra Augusto Ponzio, fundamentado nas contribuições de Bakthin, ao vasculhar especificidades do discurso literário:

“Como escritor, o autor não possui mais uma palavra própria, não fala de maneira direta, como o faz, ao contrário, o Dostoieviski jornalista, e quando eu, este eu está separado dele. Não se encontra aí a consciência monologicamente compreensiva, mas uma pluralidade de vozes, de pontos de vistas, e todo discurso é construído de modo a tornar a discordância ideológica irremediável. A palavra do autor, dialogizada nas vozes das personagens, situa-se um diálogo interminável, que  não se refere a problemas solucionáveis no âmbito de uma época a ela relativos, mas a questões últimas, consideradas a partir de situações excepcionais, que possam permitir uma experimentação sem limites de diferentes pontos de vista. Isto confere ao texto o caráter de obra” (p.222)

Em Infância, o vaso a que se refere Graciliano vai além da representação mais exata possível do que seja um vaso. Passa a ser, segundo as palavras do próprio escritor, um conteúdo e uma forma determinada em seu pensamento pela voz de outros enunciadores. Passa a ser a capacidade de percepção do mundo interior em objeto para o qual convergem a busca de sentidos com os elementos do mundo do real, presentes ao seu redor, e a cadeia de novas e  renovadas representações mentais, capazes de inseri-lo no mundo da cultura.

Fixam-se, assim, os sentidos pelo diálogo sinestésico que alimenta as matrizes do pensamento, ou pelo diálogo de vozes, que moldam em nós um significado e que nos encaminham para a verbalização de variadas formações discursivas. Desse modo se dá, em nós, também o processo de criação. Consiste, antes de tudo, numa forma de entender o mundo, de interagir com ele, de compreender e interpretar sua realidade e, principalmente, de transformar, ao nosso modo, as vivências que dele nascem. Nossa voz é um diálogo de vozes que surgem de uma sensação indefinível ou de vivências e observações, às vezes, absolutamente divergentes de nosso próprio pensar.

Assim, se para Graciliano, as pitombas designam, por analogia, todos os objetos esféricos. Em nós, está, por exemplo, a lembrança dos movimentos circulares na pequena praça da cidade natal; ou as correntezas das águas do rio da aldeia, transformadas entre o estio e o inverno; ou o amargor de uma situação indesejada ou a repugnância a ela; ou os sabores, cheiros e cores, que nos saltam sem controle do fundo longínquo de lugares indefinidos, ou etc. Seja escrevendo poesia, seja escrevendo prosa, a leitura literária, e o seu fazer, revela-se a mais aberta possível, para tomar aqui expressão de que se vale Umberto Eco. A linguagem, e sobretudo em sua forma literária – a da diversidade de significados reinstalados a cada leitura – é, no fundo, no fundo, um grande conceito. Afinal, como acertadamente concluíram George Lakoff e Mark Johnson: “a metáfora está infiltrada na vida cotidiana, não somente na linguagem, mas também no pensamento e na ação. Nosso sistema conceptual ordinário, em termos do qual não só pensamos, mas também agimos, é fundamentalmente metafórico por natureza” (p.45).

A base de nossa criação literária fundamenta-se, portanto, na tentativa de fundir memória, imagem e sensação, partindo da preocupação de pôr a linguagem em primeira instância, o que não significa dizê-la necessariamente hermética em essência, mas burilá-la para que funcione como “gancho frio” e fisgue o leitor para dentro do texto em busca de suas próprias respostas.

A literatura é, afinal, uma grande resposta que nos leva a uma certeza: além, muito além das montanhas das letras e de sua vegetação de símbolos e sentidos, há sempre o que perguntar.

Dílson Lages Monteiro é professor, romancista e membro da Academia Piauiense de Letras.

Hermínio Castelo Branco – Intérprete da Alma Nordestina

Reginaldo Miranda

Uma das maiores expressões da poesia popular nordestina foi Hermínio de Paula Castelo Branco, piauiense, nascido em vinte de maio de 1851, na fazenda Chapada da Limpeza, naquele tempo pertencente ao Município de Barras, hoje de Esperantina. Descendente de tradicional família piauiense era filho do tenente-coronel Miguel de Carvalho e Silva Castelo Branco, professor de português e retórica no antigo “Liceu Piauiense” e D. Maria Leonor Castelo Branco.

Embora descendente de família originalmente abastada, o poeta popular Hermínio Castelo Branco, não desfrutou de riqueza, vez que a fortuna de seus antepassados desapareceu com as gerações que o antecederam, sobretudo com seu avô Leonardo de Carvalho Castelo Branco, também poeta de muito valor e figura contestadora, envolvendo-se na Guerra da Independência, na Confederação do Equador e na Balaiada, sendo que, durante o primeiro episódio foi preso e enviado para a cadeia do Limoeiro, em Portugal, de onde retornou algum tempo depois.  Então, levando vida mais despojada, foi criado em meio aos vaqueiros e lavradores das fazendas de seus familiares, participando desde a meninice das caçadas, farinhadas, vaquejadas, festas, pelejas e cantorias populares. Aliás, nesse último aspecto cedo ganhou fama, vencendo grandes cantadores sertanejos. É que embora só tendo recebido a instrução primária ensinada pelo pai, era vivaz e inteligente, assimilando como ninguém a linguagem, crenças, costumes e hábitos sertanejos, traduzindo-os em sua criação literária. Daí a popularidade de sua obra. Com grande percepção e poder de síntese, era fiel e econômico nas palavras ao descrever vaquejadas, caçadas, festas populares, crendices, folclore e o ambiente sertanejo, fazendo com que o caboclo se sentisse retratado em sua obra. Cita-se como exemplo o poema “O vaqueiro do Piauí”, belo canto de exaltação à vide rude do sertanejo, descrevendo em pormenores o cotidiano da vaqueirice piauiense; só mesmo o contato permanente com a gente simples do sertão, para captar os mínimos lances na composição do poema “Um ajuste de casamento num sertão de farinhada”; as festas, crendices, desafios em torno da viola, estão presentes em “São Gonçalo nos sertões”“O drama do eleitor” é crítica profunda à corrupção e ao falho sistema eleitoral brasileiro, que, infelizmente ainda grassam nos dias de hoje; também, as viagens ao sertão, as caçadas, inclusive ao lado do tio Theodoro Castelo Branco, “o poeta caçador”, são pontos culminantes de sua obra, toda ela reunida na Lira Sertaneja, único livro do autor, lançado em junho de 1881, com o título de Ecos do coração. Dada à popularidade que angariou, tornou-se o livro mais reeditado da literatura piauiense, alcançando sete edições em vida do autor, sendo a última em 1887, quando sofreu a mudança de título indicada. A 8ª ed., primeira após a morte do autor, deu-se em 1906, pelo Livreiro Quaresma, do Rio de Janeiro; daí para cá foi reeditado mais três vezes, já se encontrando na 11ª edição. Hermínio Castelo Branco deixou mais alguns poemas esparsos em jornais da época, dez deles recuperados por Celso Pinheiro Filho e incluídos na 10ª edição de Lira Sertaneja.

No entanto, antes de toda essa produção literária, quando ainda vivia em meio às brincadeiras sertanejas, irrompeu a Guerra do Paraguai, quando muitos de seus parentes e amigos, inclusive o tio Theodoro Castelo Branco, seguiram para o campo de batalha. E Hermínio, que permanecera no Piauí, mal completara dezoito anos de idade, abandona o sertão do Longá, e alista-se no Exército em 15.01.1869, seguindo para o campo de batalha, na defesa da Pátria. É promovido a 1º Cadete em quinze de agosto do mesmo ano. Terminada a guerra, informa Celso Pinheiro Filho, “permaneceu no Exército, sendo comissionado alferes (2º tenente) e incorporado ao 1º de Infantaria, em 31.01.1872. Em junho do mesmo ano, foi confirmado no posto”. Serviu, sucessivamente, nas guarnições de Uruguaiana, Rio de Janeiro e Amazonas, retornando ao Piauí em março de 1880, depois de onze anos de ausência, sentando praça na Companhia de Linha do Piauí, onde logo mais foi reformado. Frise-se que havia retornado ligeiramente ao Piauí, no ano de 1871, para casar-se com Clarinda Benvinda de Castelo Branco.

Entre 1881 e 1884, já com seu livro publicado, passou uma temporada em Barras, na companhia do tio Theodoro Castelo Branco, trabalhando e divertindo-se em caçadas, de que resultaram alguns belos poemas incluídos em seu referido livro. Foi nesse tempo que recolheu os originais e editou em S. Luís do Maranhão, o livro Harpa do Caçador(1884), daquele poeta, tirando-o do limbo.

De retorno a Teresina, envolveu-se na política, filiando-se ao Partido Liberal, de que lhe resultaram alguns dissabores. Nesse mesmo tempo militou nos jornais O SemanárioO telefone eA Época. Com seu partido em queda, perseguido e sem oportunidade, mudou-se com a família para Manaus, no Amazonas, em 1886, onde foi bem recebido no meio literário. Apaixonado pelo Piauí, retorna em princípio de 1887, passando quase todo aquele ano, só retornando depois de meses. Todavia, adoecendo, retornou definitivamente para Teresina, em junho de 1889, onde faleceu, vítima de congestão cerebral, em dezoito de dezembro do mesmo ano. Tinha apenas 38 anos de idade o indigitado vate. Em 1917, com a fundação da Academia Piauiense de Letras, teve seu mérito reconhecido, sendo escolhido patrono da Cadeira n.º 02.

Embora sendo obrigado a viver grande parte de sua curta vida fora do Piauí, Hermínio Castelo Branco foi, entre nós, o mais fiel intérprete da alma nordestina, descrevendo com rara competência e exatidão o modus vivendi sertanejo, pintando quadros com a precisão de um grande artista do verso. A forma simples, popular, quase coloquial, ao sabor romântico como pintou esses quadros, retratando a natureza e a vida sertaneja, foi facilmente assimilada por pessoas do povo, que decoravam e declamavam seus poemas mesmo sem saberem ler, divulgando-os por todos os cantos. Foi essa a razão de ser da imensa popularidade que angariou.

(Artigo publicado no jornal Meio Norte, coluna Presença da Academia, edições de 10.11 e 17.11.2006).

Meu pai e a sua Ítaca encantada

Na tarde de domingo, dia 5 de novembro, após um breve cochilo, senti um forte, porém agradável cheiro de flores*, perto da rede em que eu repousava. Sabia que era um sinal. Entretanto, por cautela, perguntei a Fátima, minha mulher, e a minha filha Elmara se haviam usado algum tipo de perfume, sabonete ou desodorante. Ante a resposta negativa, não tive dúvida; meu pai, que se encontrava na UTI da Unimed, havia falecido. De fato, um pouco depois, meu celular tocou, e nesse telefonema meu irmão Antônio José me comunicou o falecimento de papai – Miguel Arcângelo de Deus Carvalho.

Esse fenômeno, o cheiro de flores, sobre o qual não desejo emitir nenhuma explicação ou justificativa, me ocorreu pela primeira vez em junho de 2013, de madrugada, na cidade de Regeneração, alguns dias após o falecimento de minha mãe. Digo apenas que o entendo como um sinal de que existe algo mais do que apenas esta efêmera vida terrena, com os seus percalços e vicissitudes, em diferentes etapas de nossa trajetória existencial. Creio que ele é dado para vivificar a nossa Fé e para aumentar a nossa coragem e Esperança, bem como outras virtudes.

Se fosse projetado o filme da vida de meu pai, com certeza a tela não teria apenas uma luminosidade vazia, destituída de imagens, como a daquele ermitão, que se limitou a não fazer o mal em sua gruta solitária, mas que também não praticou boas ações no convívio com outras pessoas, talvez no egoísmo de alcançar o céu a qualquer preço. Papai teve, como todos nós, as suas alegrias e tristezas, as suas conquistas e decepções, sobre as quais não irei aqui discorrer.

Aos 14 anos de idade, quando era aluno do Colégio Diocesano de Teresina, perdeu o pai, meu avô João de Deus, tendo que retornar a Barras, sua terra natal. Na maturidade, sofreu a perda de sua filha Josélia, quando ela tinha apenas 15 anos de vida. Em sua velhice, no final de abril de 2013, amargou a morte de sua amada esposa, minha mãe, que cuidou dele e dos oito filhos com exemplar e inexcedível dedicação. Faleceu em 5 de novembro de 2017, no dia em completava (exatamente) 91 anos e 10 meses de existência.

Gostava de ler, sobretudo romances, contos e poemas, mas também livros religiosos. Tinha uma pequena biblioteca, que li em minha infância. Tomava emprestados livros de biblioteca públicas e particulares para que eu os lesse em casa. Gostava de música, principalmente as da velha guarda, que ouvia em programas radiofônicos, como o Gramofone da Vovó, apresentado pelo locutor Jaime Farell, através da Rádio Sociedade da Bahia, se não estou equivocado. Recitava de cor alguns desses poemas e cantarolava várias dessas músicas, cujas letras eram na verdade belos poemas. Durante algum tempo foi colaborador do jornal A Luta, de Campo Maior, com artigos ou crônicas, que escrevia em linguagem elegante e escorreita, mas sem nunca ter alimentado veleidade literária.

Não tinha pretensão artística porque sua meta primordial era sustentar sua família, composta por minha mãe e oito filhos. Seu esforço maior foi sempre cumprir suas funções, para conservar seu emprego, embora tivesse estabilidade em seu cargo efetivo, já que era servidor público federal, até se tornar celetista, quando o antigo DCT – Departamento de Correios e Telégrafos foi transformado em empresa pública.

Tenho lembrança de ter ido com ele, em minha infância, assistir exibição de filmes no velho Cine Nazaré, espetáculos de circos que aportavam em Campo Maior, bem como fui com ele ao Estádio Deusdete Melo, para presenciarmos acirradas disputas futebolísticas, mormente entre os arquirrivais Comercial e Caiçara. Com ele fui, algumas vezes, participar de missas na igreja de Santo Antônio do Surubim, e até mesmo a desobrigas efetuadas pelos saudosos vigários Mateus Cortez Rufino e Isaac Vilarinho.

Prezando sobretudo a qualidade, teve seletos amigos ao longo de sua vida, cuja amizade cultivou e preservou, e dos quais recebeu idêntica e reciproca consideração. Tendo chefiado a ECT – Empresa de Correios e Telégrafos – em Parnaíba, por muitos anos, angariou a estima e a consideração de seus servidores, sendo que quase todos tinham idade de ser seus filhos, já que a maioria dos antigos servidores não optou em pertencer ao regime da CLT, adotado pela empresa criada a partir do antigo Departamento. Não lhes chamava a atenção em público, mas os orientava reservadamente, na sala da chefia. Teve a percepção antecipada de que o alcoolismo era uma espécie de doença, de modo que nunca propôs a demissão e punição de ninguém, em raros casos isolados que surgiram, para os quais encontrou solução menos drástica.

Dele recebemos bons conselhos e bons exemplos, que não desejo especificar, exceto um: numa época em que não havia cartão de crédito nem de débito, quando recebia algum dinheiro a mais, em troco ou em saque bancário, ato contínuo retornava para devolver a importância excedente que lhe fora indevidamente entregue.

No dia do seu sepultamento em Campo Maior, houve missa** de corpo presente na igreja de N. S. das Mercês. O padre Expedito Melo, em perfeita celebração, proferiu belas e confortadoras palavras sobre meu pai, que nos comoveram. Logo após a missa, em momento de muita inspiração, o grande tribuno João Alves Filho pronunciou lapidar necrológio, em que ressaltou as boas qualidades de um homem simples e bom, que se chamou Miguel Arcângelo de Deus Carvalho.

A caminho do cemitério em que papai foi sepultado, dentro de meu carro, a Maria Francisca, que foi nossa vizinha na primeira metade dos anos 1970, nos prestou comovente depoimento, cujo teor desconhecíamos. Ela disse que, algumas vezes, o papai lhe dava pequena ajuda, para que ela comprasse cadernos e outros materiais escolares, e que, muitas vezes, lhe advertiu para que nunca desistisse de seus estudos, esclarecendo-lhe que esse era o único meio de uma pessoa pobre melhorar de vida. Respondi-lhe que nessa época ele atravessava situação financeira difícil, pois ainda não ascendera a novo cargo em seu emprego, e sua família era grande. Ela respondeu, com a voz embargada pela emoção, que sabia disso.

Com a morte de mamãe, com quem viveu em admirável e longa união, em amizade e respeito recíprocos, meu pai começou a declinar em sua energia vital. Contudo, mesmo faltando apenas dois meses para completar 92 anos, se manteve lúcido e se locomovendo com suas próprias pernas, com exceção dos momentos em que esteve na UTI, onde faleceu.

Com Fé, Esperança e coragem alicerçada em fervorosas orações, enfrentou as vicissitudes momentâneas de sua longa vida. Combateu o bom combate dos homens de bem, dos homens que acreditam em Deus e na vida eterna.

Parafraseando o notável poema de Konstantinos Kaváfis, direi que a vida de papai foi uma bela viagem, com pequenas turbulências e bonanças, mas com o descortino de deslumbrantes paisagens, e que, em coroamento, ele encontrou Ítaca, a sua ilha encantada.

* Vê a crônica Cheiro de Flores, que se encontra publicada na internet.

** As missas de corpo presente e de sétimo dia contaram com o apoio logístico do amigo José Francisco Marques e com a boa vontade e compreensão do celebrante, Pe. Expedito Melo. Tiveram a presença de familiares e amigos da família, aos quais somos gratos.