A gênese de nossa criação literária

Por Dilson Lages
Acadêmico da APL – Cadeira 21

“A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta. Ignoro onde o vi, e se uma parte do caso remoto não desaguasse noutro posterior, julgá-lo-ia sonho. Talvez nem me recorde bem do vaso: é possível que a imagem, brilhante e esguia, permaneça por eu ter comunicado a pessoas que a confirmaram. Assim, não conservo a lembrança de uma alfaia esquisita, mas a reprodução dela, corroborada por indivíduos que lhe fixaram o conteúdo e a forma. De qualquer modo, a aparição deve ter sido real. Inculcaram-me nesse tempo a noção de pitombas ­– e as pitombas me serviram para designar todos os objetos esféricos. Depois me explicaram que a generalização era um erro, e isto me perturbou”.

Assim se inicia Infância, narrativa memorialista de Graciliano Ramos, que, ao reconstruir os anos de meninice no interior do Nordeste, serve-nos para iniciar esta autorreflexão incompleta e transitória sobre as veredas largas e múltiplas da linguagem literária em nossa obra, em construção. Servem-nos as palavras de Graciliano para referendar a consciência de que, em nós, a literatura é memórias, sensações e imagens.

Ela funciona como uma memória cujo fluxo transita para a despersonalização, a partir da qual o eu cede lugar ao outro e a interlocução se estabelece por meio de sensações e jogos semântico-imagéticos em que o individual e o coletivo se confundem e se interseccionam. Na literatura, digo literatura de razoável teor estético, o que buscamos alcançar, é que essa fusão encontra campo mais perfeito, porque, mesmo em obras marcadamente ideológicas, como bem explicou Maingueneau “o sentido da obra não é estável e fechado sobre si, constrói-se no hiato entre posições do autor e do receptor” (  p21).

A esse propósito, lembra Augusto Ponzio, fundamentado nas contribuições de Bakthin, ao vasculhar especificidades do discurso literário:

“Como escritor, o autor não possui mais uma palavra própria, não fala de maneira direta, como o faz, ao contrário, o Dostoieviski jornalista, e quando eu, este eu está separado dele. Não se encontra aí a consciência monologicamente compreensiva, mas uma pluralidade de vozes, de pontos de vistas, e todo discurso é construído de modo a tornar a discordância ideológica irremediável. A palavra do autor, dialogizada nas vozes das personagens, situa-se um diálogo interminável, que  não se refere a problemas solucionáveis no âmbito de uma época a ela relativos, mas a questões últimas, consideradas a partir de situações excepcionais, que possam permitir uma experimentação sem limites de diferentes pontos de vista. Isto confere ao texto o caráter de obra” (p.222)

Em Infância, o vaso a que se refere Graciliano vai além da representação mais exata possível do que seja um vaso. Passa a ser, segundo as palavras do próprio escritor, um conteúdo e uma forma determinada em seu pensamento pela voz de outros enunciadores. Passa a ser a capacidade de percepção do mundo interior em objeto para o qual convergem a busca de sentidos com os elementos do mundo do real, presentes ao seu redor, e a cadeia de novas e  renovadas representações mentais, capazes de inseri-lo no mundo da cultura.

Fixam-se, assim, os sentidos pelo diálogo sinestésico que alimenta as matrizes do pensamento, ou pelo diálogo de vozes, que moldam em nós um significado e que nos encaminham para a verbalização de variadas formações discursivas. Desse modo se dá, em nós, também o processo de criação. Consiste, antes de tudo, numa forma de entender o mundo, de interagir com ele, de compreender e interpretar sua realidade e, principalmente, de transformar, ao nosso modo, as vivências que dele nascem. Nossa voz é um diálogo de vozes que surgem de uma sensação indefinível ou de vivências e observações, às vezes, absolutamente divergentes de nosso próprio pensar.

Assim, se para Graciliano, as pitombas designam, por analogia, todos os objetos esféricos. Em nós, está, por exemplo, a lembrança dos movimentos circulares na pequena praça da cidade natal; ou as correntezas das águas do rio da aldeia, transformadas entre o estio e o inverno; ou o amargor de uma situação indesejada ou a repugnância a ela; ou os sabores, cheiros e cores, que nos saltam sem controle do fundo longínquo de lugares indefinidos, ou etc. Seja escrevendo poesia, seja escrevendo prosa, a leitura literária, e o seu fazer, revela-se a mais aberta possível, para tomar aqui expressão de que se vale Umberto Eco. A linguagem, e sobretudo em sua forma literária – a da diversidade de significados reinstalados a cada leitura – é, no fundo, no fundo, um grande conceito. Afinal, como acertadamente concluíram George Lakoff e Mark Johnson: “a metáfora está infiltrada na vida cotidiana, não somente na linguagem, mas também no pensamento e na ação. Nosso sistema conceptual ordinário, em termos do qual não só pensamos, mas também agimos, é fundamentalmente metafórico por natureza” (p.45).

A base de nossa criação literária fundamenta-se, portanto, na tentativa de fundir memória, imagem e sensação, partindo da preocupação de pôr a linguagem em primeira instância, o que não significa dizê-la necessariamente hermética em essência, mas burilá-la para que funcione como “gancho frio” e fisgue o leitor para dentro do texto em busca de suas próprias respostas.

A literatura é, afinal, uma grande resposta que nos leva a uma certeza: além, muito além das montanhas das letras e de sua vegetação de símbolos e sentidos, há sempre o que perguntar.

Dílson Lages Monteiro é professor, romancista e membro da Academia Piauiense de Letras.

Hermínio Castelo Branco – Intérprete da Alma Nordestina

Reginaldo Miranda

Uma das maiores expressões da poesia popular nordestina foi Hermínio de Paula Castelo Branco, piauiense, nascido em vinte de maio de 1851, na fazenda Chapada da Limpeza, naquele tempo pertencente ao Município de Barras, hoje de Esperantina. Descendente de tradicional família piauiense era filho do tenente-coronel Miguel de Carvalho e Silva Castelo Branco, professor de português e retórica no antigo “Liceu Piauiense” e D. Maria Leonor Castelo Branco.

Embora descendente de família originalmente abastada, o poeta popular Hermínio Castelo Branco, não desfrutou de riqueza, vez que a fortuna de seus antepassados desapareceu com as gerações que o antecederam, sobretudo com seu avô Leonardo de Carvalho Castelo Branco, também poeta de muito valor e figura contestadora, envolvendo-se na Guerra da Independência, na Confederação do Equador e na Balaiada, sendo que, durante o primeiro episódio foi preso e enviado para a cadeia do Limoeiro, em Portugal, de onde retornou algum tempo depois.  Então, levando vida mais despojada, foi criado em meio aos vaqueiros e lavradores das fazendas de seus familiares, participando desde a meninice das caçadas, farinhadas, vaquejadas, festas, pelejas e cantorias populares. Aliás, nesse último aspecto cedo ganhou fama, vencendo grandes cantadores sertanejos. É que embora só tendo recebido a instrução primária ensinada pelo pai, era vivaz e inteligente, assimilando como ninguém a linguagem, crenças, costumes e hábitos sertanejos, traduzindo-os em sua criação literária. Daí a popularidade de sua obra. Com grande percepção e poder de síntese, era fiel e econômico nas palavras ao descrever vaquejadas, caçadas, festas populares, crendices, folclore e o ambiente sertanejo, fazendo com que o caboclo se sentisse retratado em sua obra. Cita-se como exemplo o poema “O vaqueiro do Piauí”, belo canto de exaltação à vide rude do sertanejo, descrevendo em pormenores o cotidiano da vaqueirice piauiense; só mesmo o contato permanente com a gente simples do sertão, para captar os mínimos lances na composição do poema “Um ajuste de casamento num sertão de farinhada”; as festas, crendices, desafios em torno da viola, estão presentes em “São Gonçalo nos sertões”“O drama do eleitor” é crítica profunda à corrupção e ao falho sistema eleitoral brasileiro, que, infelizmente ainda grassam nos dias de hoje; também, as viagens ao sertão, as caçadas, inclusive ao lado do tio Theodoro Castelo Branco, “o poeta caçador”, são pontos culminantes de sua obra, toda ela reunida na Lira Sertaneja, único livro do autor, lançado em junho de 1881, com o título de Ecos do coração. Dada à popularidade que angariou, tornou-se o livro mais reeditado da literatura piauiense, alcançando sete edições em vida do autor, sendo a última em 1887, quando sofreu a mudança de título indicada. A 8ª ed., primeira após a morte do autor, deu-se em 1906, pelo Livreiro Quaresma, do Rio de Janeiro; daí para cá foi reeditado mais três vezes, já se encontrando na 11ª edição. Hermínio Castelo Branco deixou mais alguns poemas esparsos em jornais da época, dez deles recuperados por Celso Pinheiro Filho e incluídos na 10ª edição de Lira Sertaneja.

No entanto, antes de toda essa produção literária, quando ainda vivia em meio às brincadeiras sertanejas, irrompeu a Guerra do Paraguai, quando muitos de seus parentes e amigos, inclusive o tio Theodoro Castelo Branco, seguiram para o campo de batalha. E Hermínio, que permanecera no Piauí, mal completara dezoito anos de idade, abandona o sertão do Longá, e alista-se no Exército em 15.01.1869, seguindo para o campo de batalha, na defesa da Pátria. É promovido a 1º Cadete em quinze de agosto do mesmo ano. Terminada a guerra, informa Celso Pinheiro Filho, “permaneceu no Exército, sendo comissionado alferes (2º tenente) e incorporado ao 1º de Infantaria, em 31.01.1872. Em junho do mesmo ano, foi confirmado no posto”. Serviu, sucessivamente, nas guarnições de Uruguaiana, Rio de Janeiro e Amazonas, retornando ao Piauí em março de 1880, depois de onze anos de ausência, sentando praça na Companhia de Linha do Piauí, onde logo mais foi reformado. Frise-se que havia retornado ligeiramente ao Piauí, no ano de 1871, para casar-se com Clarinda Benvinda de Castelo Branco.

Entre 1881 e 1884, já com seu livro publicado, passou uma temporada em Barras, na companhia do tio Theodoro Castelo Branco, trabalhando e divertindo-se em caçadas, de que resultaram alguns belos poemas incluídos em seu referido livro. Foi nesse tempo que recolheu os originais e editou em S. Luís do Maranhão, o livro Harpa do Caçador(1884), daquele poeta, tirando-o do limbo.

De retorno a Teresina, envolveu-se na política, filiando-se ao Partido Liberal, de que lhe resultaram alguns dissabores. Nesse mesmo tempo militou nos jornais O SemanárioO telefone eA Época. Com seu partido em queda, perseguido e sem oportunidade, mudou-se com a família para Manaus, no Amazonas, em 1886, onde foi bem recebido no meio literário. Apaixonado pelo Piauí, retorna em princípio de 1887, passando quase todo aquele ano, só retornando depois de meses. Todavia, adoecendo, retornou definitivamente para Teresina, em junho de 1889, onde faleceu, vítima de congestão cerebral, em dezoito de dezembro do mesmo ano. Tinha apenas 38 anos de idade o indigitado vate. Em 1917, com a fundação da Academia Piauiense de Letras, teve seu mérito reconhecido, sendo escolhido patrono da Cadeira n.º 02.

Embora sendo obrigado a viver grande parte de sua curta vida fora do Piauí, Hermínio Castelo Branco foi, entre nós, o mais fiel intérprete da alma nordestina, descrevendo com rara competência e exatidão o modus vivendi sertanejo, pintando quadros com a precisão de um grande artista do verso. A forma simples, popular, quase coloquial, ao sabor romântico como pintou esses quadros, retratando a natureza e a vida sertaneja, foi facilmente assimilada por pessoas do povo, que decoravam e declamavam seus poemas mesmo sem saberem ler, divulgando-os por todos os cantos. Foi essa a razão de ser da imensa popularidade que angariou.

(Artigo publicado no jornal Meio Norte, coluna Presença da Academia, edições de 10.11 e 17.11.2006).

Teresina deve ganhar Centro de Referência sobre a História do Piauí

O presidente da Academia Piauiense de Letras (APL), Nelson Nery Costa e o presidente do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense, professor Fonseca Neto, estiveram reunidos na segunda-feira, 08 de janeiro, com o governador Wellington Dias no Palácio de Karnak. Na ocasião, os líderes convidaram o Chefe do Poder Executivo Estadual para participar das comemorações de 100 anos das instituições e trataram da criação de um Centro de Referência em Informações sobre a História do Piauí. O projeto ficaria localizado na Rua Álvaro Mendes, na região central de Teresina. “Nós viemos destacar um projeto em parceria com o Instituto Histórico e Geográfico para a gente participar dessa recuperação do Centro de Teresina, o município está fazendo muito esforço, o próprio Estado através da Secretaria de Cultura está buscando recuperar muitos espaços no Centro, o próprio prédio da Secult, o museu da imagem e do som, e a Academia junto com o Instituto gostaria de participar desse projeto”, apontou Nelson Nery.

O projeto ousado propõe um resgate histórico no Piauí, difundindo as informações para toda a sociedade. A ação foi bem recebida pelo governador, que buscará viabilizar a concessão do espaço para a implantação do Centro de Referência. O presidente da Academia Piauiense de Letras, Nelson Nery Costa, indicou que a intenção é contribuir no processo de recuperação do centro da capital piauiense. Diante disso, o presidente do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense, Fonseca Neto, reiterou a importância do novo projeto para a propagação da pesquisa histórica local e a otimização dos espaços no centro da cidade. “Nós temos uma proposta concreta de dotar o centro de Teresina com mais um equipamento cultural, num desses prédios antigos do Centro da cidade que são propriedade do próprio Estado, nós entendemos que alguns prédios antigos devem ser ‘refuncionalizados’ para que o Centro histórico tenha vida, um deles é o antigo prédio onde funcionou o Tribunal de Contas do Estado, na Álvaro Mendes”, disse.

Fonseca Neto também sinalizou que o Centro de Referência marcaria os 300 anos da criação da capitania do Piauí. “Esse prédio é muito bonito e nesse momento está sem função, então estamos pedindo ao governador que nos autorize a ocupar esse espaço, criando um Centro de Referência em Informações sobre a História do Piauí aproveitando esses 300 anos da criação capitania do Piauí e que ali seja mais um ponto de referência de difusão da pesquisa histórica do Estado, de expansão das literaturas, um centro cultural que possa chamar outras instituições culturais para animar o centro de Teresina”, finalizou.

Academia Piauiense de Letras comemora 100 anos neste sábado (30)

O advogado e escritor Nelson Nery Costa foi reeleito presidente da Academia Piauiense de Letras (APL) neste mês de dezembro, para administrar a instituição no biênio 2018/2019.

O centenário da Academia será comemorado no próximo sábado, 30 de dezembro, com uma série de atividades.

Nelson Nery Costa foi entrevistado no Cidade Verde Notícias desta quinta-feira (28) para falar dos desafios no comando da instituição, que incluem a criação de um museu na sede da APL.

Ouça na íntegra:

Nelson Nery Costa é reeleito para presidência da Academia Piauiense de Letras

O advogado e escritor Nelson Nery Costa foi reeleito, neste sábado (16), presidente da Academia Piauiense de Letras. A nova diretoria vai administrar a instituição durante o biênio 2018/2019, dando continuidade ao trabalho que vem sendo desenvolvido no incentivo à produção literária piauiense.

A eleição contou com os votos de 28 membros. A nova diretoria é composta por Nelson Nery Costa, presidente; Zózimo Tavares, vice-presidente; Herculano Moraes, secretário geral; José Elmar Carvalho, primeiro secretário; Wilson Nunes Brandão, segundo secretário; e Humberto Guimarães, tesoureiro.

“A administração da Academia dará continuidade ao que vem desenvolvendo em termos de incentivo à produção tanto por parte dos acadêmicos quanto entre autores que vem despontando na literatura piauiense. Temos em voga duas coleções de livros, responsáveis por um boom na produção desta casa. Além disso, estamos em plena programação do aniversário de 100 anos da Academia. Isso vem motivando para que possamos pensar no futuro. Estamos realizando uma reforma na sede, a Casa de Lucídio Freitas, e instalando o Museu da Cultura Literária Piauiense, que conterá todo o acervo da academia”, avalia Nelson Nery Costa.

O centenário da instituição, comemorado no dia 30 de dezembro, será marcado ainda por uma missa em ação de graças, lançamento de obras e do Livro do Centenário da Academia e solenidade de entrega da Medalha do Centenário.

Meu pai e a sua Ítaca encantada

Na tarde de domingo, dia 5 de novembro, após um breve cochilo, senti um forte, porém agradável cheiro de flores*, perto da rede em que eu repousava. Sabia que era um sinal. Entretanto, por cautela, perguntei a Fátima, minha mulher, e a minha filha Elmara se haviam usado algum tipo de perfume, sabonete ou desodorante. Ante a resposta negativa, não tive dúvida; meu pai, que se encontrava na UTI da Unimed, havia falecido. De fato, um pouco depois, meu celular tocou, e nesse telefonema meu irmão Antônio José me comunicou o falecimento de papai – Miguel Arcângelo de Deus Carvalho.

Esse fenômeno, o cheiro de flores, sobre o qual não desejo emitir nenhuma explicação ou justificativa, me ocorreu pela primeira vez em junho de 2013, de madrugada, na cidade de Regeneração, alguns dias após o falecimento de minha mãe. Digo apenas que o entendo como um sinal de que existe algo mais do que apenas esta efêmera vida terrena, com os seus percalços e vicissitudes, em diferentes etapas de nossa trajetória existencial. Creio que ele é dado para vivificar a nossa Fé e para aumentar a nossa coragem e Esperança, bem como outras virtudes.

Se fosse projetado o filme da vida de meu pai, com certeza a tela não teria apenas uma luminosidade vazia, destituída de imagens, como a daquele ermitão, que se limitou a não fazer o mal em sua gruta solitária, mas que também não praticou boas ações no convívio com outras pessoas, talvez no egoísmo de alcançar o céu a qualquer preço. Papai teve, como todos nós, as suas alegrias e tristezas, as suas conquistas e decepções, sobre as quais não irei aqui discorrer.

Aos 14 anos de idade, quando era aluno do Colégio Diocesano de Teresina, perdeu o pai, meu avô João de Deus, tendo que retornar a Barras, sua terra natal. Na maturidade, sofreu a perda de sua filha Josélia, quando ela tinha apenas 15 anos de vida. Em sua velhice, no final de abril de 2013, amargou a morte de sua amada esposa, minha mãe, que cuidou dele e dos oito filhos com exemplar e inexcedível dedicação. Faleceu em 5 de novembro de 2017, no dia em completava (exatamente) 91 anos e 10 meses de existência.

Gostava de ler, sobretudo romances, contos e poemas, mas também livros religiosos. Tinha uma pequena biblioteca, que li em minha infância. Tomava emprestados livros de biblioteca públicas e particulares para que eu os lesse em casa. Gostava de música, principalmente as da velha guarda, que ouvia em programas radiofônicos, como o Gramofone da Vovó, apresentado pelo locutor Jaime Farell, através da Rádio Sociedade da Bahia, se não estou equivocado. Recitava de cor alguns desses poemas e cantarolava várias dessas músicas, cujas letras eram na verdade belos poemas. Durante algum tempo foi colaborador do jornal A Luta, de Campo Maior, com artigos ou crônicas, que escrevia em linguagem elegante e escorreita, mas sem nunca ter alimentado veleidade literária.

Não tinha pretensão artística porque sua meta primordial era sustentar sua família, composta por minha mãe e oito filhos. Seu esforço maior foi sempre cumprir suas funções, para conservar seu emprego, embora tivesse estabilidade em seu cargo efetivo, já que era servidor público federal, até se tornar celetista, quando o antigo DCT – Departamento de Correios e Telégrafos foi transformado em empresa pública.

Tenho lembrança de ter ido com ele, em minha infância, assistir exibição de filmes no velho Cine Nazaré, espetáculos de circos que aportavam em Campo Maior, bem como fui com ele ao Estádio Deusdete Melo, para presenciarmos acirradas disputas futebolísticas, mormente entre os arquirrivais Comercial e Caiçara. Com ele fui, algumas vezes, participar de missas na igreja de Santo Antônio do Surubim, e até mesmo a desobrigas efetuadas pelos saudosos vigários Mateus Cortez Rufino e Isaac Vilarinho.

Prezando sobretudo a qualidade, teve seletos amigos ao longo de sua vida, cuja amizade cultivou e preservou, e dos quais recebeu idêntica e reciproca consideração. Tendo chefiado a ECT – Empresa de Correios e Telégrafos – em Parnaíba, por muitos anos, angariou a estima e a consideração de seus servidores, sendo que quase todos tinham idade de ser seus filhos, já que a maioria dos antigos servidores não optou em pertencer ao regime da CLT, adotado pela empresa criada a partir do antigo Departamento. Não lhes chamava a atenção em público, mas os orientava reservadamente, na sala da chefia. Teve a percepção antecipada de que o alcoolismo era uma espécie de doença, de modo que nunca propôs a demissão e punição de ninguém, em raros casos isolados que surgiram, para os quais encontrou solução menos drástica.

Dele recebemos bons conselhos e bons exemplos, que não desejo especificar, exceto um: numa época em que não havia cartão de crédito nem de débito, quando recebia algum dinheiro a mais, em troco ou em saque bancário, ato contínuo retornava para devolver a importância excedente que lhe fora indevidamente entregue.

No dia do seu sepultamento em Campo Maior, houve missa** de corpo presente na igreja de N. S. das Mercês. O padre Expedito Melo, em perfeita celebração, proferiu belas e confortadoras palavras sobre meu pai, que nos comoveram. Logo após a missa, em momento de muita inspiração, o grande tribuno João Alves Filho pronunciou lapidar necrológio, em que ressaltou as boas qualidades de um homem simples e bom, que se chamou Miguel Arcângelo de Deus Carvalho.

A caminho do cemitério em que papai foi sepultado, dentro de meu carro, a Maria Francisca, que foi nossa vizinha na primeira metade dos anos 1970, nos prestou comovente depoimento, cujo teor desconhecíamos. Ela disse que, algumas vezes, o papai lhe dava pequena ajuda, para que ela comprasse cadernos e outros materiais escolares, e que, muitas vezes, lhe advertiu para que nunca desistisse de seus estudos, esclarecendo-lhe que esse era o único meio de uma pessoa pobre melhorar de vida. Respondi-lhe que nessa época ele atravessava situação financeira difícil, pois ainda não ascendera a novo cargo em seu emprego, e sua família era grande. Ela respondeu, com a voz embargada pela emoção, que sabia disso.

Com a morte de mamãe, com quem viveu em admirável e longa união, em amizade e respeito recíprocos, meu pai começou a declinar em sua energia vital. Contudo, mesmo faltando apenas dois meses para completar 92 anos, se manteve lúcido e se locomovendo com suas próprias pernas, com exceção dos momentos em que esteve na UTI, onde faleceu.

Com Fé, Esperança e coragem alicerçada em fervorosas orações, enfrentou as vicissitudes momentâneas de sua longa vida. Combateu o bom combate dos homens de bem, dos homens que acreditam em Deus e na vida eterna.

Parafraseando o notável poema de Konstantinos Kaváfis, direi que a vida de papai foi uma bela viagem, com pequenas turbulências e bonanças, mas com o descortino de deslumbrantes paisagens, e que, em coroamento, ele encontrou Ítaca, a sua ilha encantada.

* Vê a crônica Cheiro de Flores, que se encontra publicada na internet.

** As missas de corpo presente e de sétimo dia contaram com o apoio logístico do amigo José Francisco Marques e com a boa vontade e compreensão do celebrante, Pe. Expedito Melo. Tiveram a presença de familiares e amigos da família, aos quais somos gratos.

Casa de Lucídio Freitas abrigará Museu da Academia Piauiense de Letras

No ano em que completa o seu centenário, a Academia Piauiense de Letras fundará um museu destinado à exposição de telas de grandes nomes das artes plásticas piauienses, peças doadas por imortais e todo o seu acervo acumulado ao longo desses 100 anos. Para isso, a Casa de Lucídio Freitas, prédio que abriga a instituição, está passando por uma reforma para adequar-se ao projeto.

“Vamos iniciar o compromisso que temos com a cidade que é de dar à Teresina um museu. Temos um acervo rico na Academia e queremos expor para que as pessoas conheçam, temos uma pinacoteca com os principais artistas do Estado. Queremos dar mais essa contribuição à cultura piauiense. Nós tivemos 152 acadêmicos ao longo da história e mais os 40 patronos. Então, temos quase 200 nomes dentro da Academia entre produtores culturais, literatos, intelectuais, jornalistas e produtores de teatro. Essa é uma forma de interagir, já que nos últimos 100 anos nós temos feito parte da história do Piauí”, destaca Nelson Nery Costa, presidente da Academia Piauiense de Letras.

O prédio, localizado na avenida Miguel Rosa, uma das principais vias da cidade, foi doado à Academia no dia 29 de abril de 1986, pelo Governo do Estado através do governador Hugo Napoleão. Na época, a presidência da Academia era exercida por Arimathéa Tito Filho, que permaneceu no cargo entre 1971 e 1992.

A reforma, cujo projeto é da arquiteta Lavínia Brandão, contemplará todos os cômodos. Além de adequar o prédio ao propósito de abrigar o museu, a intenção é melhorar as instalações, garantindo espaço adequado para cada atividade exercida pelos imortais e para os eventos que são organizados pela instituição.

A entrega do museu deverá acontecer em dezembro, durante a programação do aniversário de 100 anos de fundação da APL. Além desse evento, os imortais preparam o Seminário Piauí 2100, que tem a intenção de discutir o Estado dentro de uma perspectiva de futuro, e a festa no dia 15 de dezembro.

“O centenário é dia 30 de dezembro e queremos fazer comemoração integrada. Teremos o Seminário Piauí 2100, olhando para o Piauí do futuro e ao mesmo tempo fazendo a trajetória da sua existência. Também temos muitos livros para lançar até dezembro. São sete livros já editados e ainda não lançados e outros quatro sendo produzidos. Ao todo, teremos 100 livros da Coleção Centenário lançados até o final do ano. É um processo em linha industrial e estamos conseguindo cumprir esse papel. Na Coleção Século XXI temos 16 livros lançados e lançaremos mais três no próximo sábado. Teremos também o Livro do Centenário da Academia, organizado pelo desembargador Nildomar Silveira, que é o nosso registro dos 100 anos. Estamos reeditando uma obra chamada Os Fundadores, que conta a história da fundação da APL. Ou seja, temos muito o que comemorar. A vida da academia é a vida do Piauí. Nós somos a alma intelectual do Piauí. A gente quer expor a história, a cultura e a alma piauiense”, finaliza Nelson Nery Costa.

Concurso premia melhor obra literária do Piauí em R$ 100 mil

A Academia Piauiense de Letras e a Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves estão lançando, em uma parceria inédita, o Concurso de Livros Publicados Poeta H. Dobal, que vai eleger a melhor publicação entre os anos de 2014 e 2017. O vencedor receberá um prêmio de R$ 100 mil.

O presidente da APL, Nelson Nery Costa, ressalta a importância desse tipo de iniciativa. “Assim como estamos fazendo na Academia com a Coleção Centenário, estimulando que nossos autores publiquem mais, esse concurso é uma oportunidade de valorizar essa produção, fazendo com que nossos escritores mostrem o que estão publicando”, afirma.

Poderão ser inscritos livros publicados entre o perído de 1º de janeiro de 2014 e 30 de abril de 2017, nas categorias ficção, como conto, poesia, romance e crônica; e obra técnica, como ensaio, crítica e trabalho científico. O edital determina que os autores devem ter nascido no Piauí ou serem radicados no estado há mais de 10 anos.

O julgamento das obras inscritas ficará a cargo de uma comissão montada pela Academia Piauiense de Letras, formada por cinco imortais, mais cinco professores ou intelectuais, nomeados pelo presidente da APL, que atuarão no auxílio aos julgadores. Esse processo começará no dia em que forem encerradas as inscrições (20 de junho) e terá duração de 90 dias a partir desse prazo.

A comissão avaliará todos os inscritos e apenas um será o vencedor, contemplado com uma premiação de R$ 100 mil. Esse valor é oriundo de destinação de emenda parlamentar do deputado estadual Robert Rios.

A solenidade de lançamento do concurso acontecerá nesta quarta-feira (24), no Salão Nobre do Palácio da Cidade, sede da Prefeitura de Teresina, às 17h30, com a presença do prefeito Firmino Filho, do presidente da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, do presidente da APL, Nelson Nery Costa, e demais autoridades do município.

Nelson Nery relata andanças ao redor do mundo em ‘Contos de Viagem’

A Academia Piauiense de Letras dedica este sábado (20) para o lançamento de quatro obras, sendo três pertencentes à Coleção Século XXI: Contos de Viagem, de Nelson Nery Costa; Mediquês – “O falar nordestino, na consulta médica”, de Gisleno Feitosa; Histórias de Évora, de Elmar Carvalho, todos da Coleção Século XXI.

 Em Contos de Viagem, o presidente da Academia, Nelson Nery costa, relata suas descobertas, histórias e roteiros desbravados em vários países por onde passou, motivado pela experiência que teve ao escrever para a revista De Repente.

“Voltei a escrever literatura na maturidade, pois me concentrei no estudo do Direito e da História do Piauí e, quando retornei à ficção, não superei minha fase anterior, mas me diverti muito. O Pedro Costa, que gosta de aboiar as pessoas, acabou me convencendo a escrever contos para a Revista De Repente, uma das publicações mais longevas e com maior sucesso na cultura piauiense. No retorno de uma viagem a Croácia, escrevi o conto Casamento em Zagreb, como uma brincadeira, mas acabei gostando do texto. Com o convite, passei a fazer os contos para a revista acima, durante vinte meses ininterruptos, escrevendo quase profissionalmente, de 2009 a 2011”, explica.

Ele explica que se valeu do conto e da crônica para relatar seus passeios ao redor do mundo. “Não são propriamente contos, pois também são crônicas ao descreverem vários roteiros turísticos. Para mim, trata-se de contos-crônicas, juntando informações, descrições e reflexões típicas das crônicas, com uma breve e simples narrativa, matéria do conto. As informações e os dados históricos foram pesquisados, mas os lugares mencionados foram efetivamente visitados, apesar de algumas informaões poderem estar equivocadas ou desatualizadas”, comenta.

Também será lançado neste sábado o livro Cordéis Gonzaguianos e A festa da Asa Branca – Uma História com pássaros cantados por Luís Gonzaga, escrito por Wilson Seraine, um verdadeiro apaixonado pela vida e pela obra do Rei do Baião.

A solenidade de lançamento acontecerá neste sábado (20), no auditório da Academia Piauiense de Letras, a partir das 10h.

Festa literária irá celebrar os 100 anos da Academia Piauiense de Letras

Para comemorar o centenário da Academia Piauiense de Letras, que acontece neste ano, seus integrantes estão irmanados em torno de atividades visando registrar esse momento significativo na cultura piauiense. A trajetória secular está registrada em diversas publicações, principalmente em recentes coleções lançadas, na Revista da Academia, e na memória dos acadêmicos que já passaram por lá.

A data começou a ser lembrada com a publicação de duas coleções: a Coleção Centenário, que a partir de reedição de algumas obras do passado de enorme carga cultural, vem fazendo um resgate dessa história da literatura piauiense; e a Coleção Século XXI, que tem por objetivo oportunizar a publicação de autores novos, títulos inéditos, revelar nomes e, assim, enriquecer a literatura piauiense.
A Coleção Centenário vem sendo editada em forma de força-tarefa literária. Em todas as etapas até o lançamento, a iniciativa conta com a colaboração de vários acadêmicos, desde a coleta do material, até a revisão final. O início dos trabalhos se deu sob a coordenação do então presidente da APL, Reginaldo Miranda, e teve sequência pelo atual presidente, Nelson Nery Costa.

“Acho que ela faz um caleidoscópio da cultura, da literatura, da história e da geografia do Piauí dos últimos duzentos anos. Estão presentes obras como do Leonardo Castelo Branco, do início do século XIX, já com dois livros, até autores atuais, como Oton Lustosa, com o romance Meia-Vida. Além disso, tem autores como Lucídio de Freitas, Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, Martins Napoleão, João Pinheiro, e muitas obras, com Da Costa e Silva, H. Dobal e Alvina Gameiro. Tem autores clássicos e autores ainda vivos, como Assis Brasil, Reginaldo Miranda e Paulo Nunes “, destaca Nelson Nery Costa.
Já a Coleção Centenário Século XXI é uma coleção inédita, com autores diversificados e diferentes fontes de financiamento. “É uma Coleção que está em formação e ainda com um perfil a ser definido com o tempo. Alguns autores são consagrados, como Celso Barros Coelho, com “Perfis Jurídicos Paralelos”, e artistas, como Lázaro do Piauí. Aposto muito na coleção que já está se aproximando de vinte números”, afirma o presidente.
Além dessas publicações, ao longo deste ano, a Academia está se preparando para receber eventos comemorativos. A expectativa é que a instituição receba o público em geral além de nomes da literatura piauiense, para festividade sem comemoração ao seu centenário. O calendário de atividades prevê que a casa se transformará em palco de lançamentos literários, bate-papos e discussões importantes acerca do Estado, de sua cultura, de sua gente.
Revista da Academia 
 
A trajetória da Academia Piauiense de Letras também está documentada na Revista da Academia, que terá mais uma edição lançada durante as comemorações do centenário. Trata-se da publicação mais antiga da APL. Data de janeiro de 1918, logo após a funda- ção da instituição, a primeira publicação, que ocorreu normalmente até 1929, com exce- ção do ano de 1920. Depois de seis anos sem circular, A revista volta a ser publicada em 1936 com a edição n.º 15, seguindo regularmente até o ano de 1939, com uma edição anual. Entre 1942 e 1943 são lançadas as edições n.º 19 e 20, respectivamente. A 21.ª edição só sai em 1962. A partir de 1972, sob a presidência de José de Arimathéa Tito Filho, a revista teve publicação regular.

Por: Yuri Ribeiro